Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Colectânea

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

“Devem realmente as empresas jornalísticas envolver-se na reabilitação da imagem de duas das mais ricas empresas na Terra, em especial quando são basicamente concorrentes? Mas, dado o estado financeiro do jornalismo, não seria irresponsável, pelo seu lado, recusar estes fundos?” 

A reflexão é de Mathew Ingram, redactor principal na área do digital, na Columbia Journalism Review, que reune uma série de depoimentos de responsáveis dos referidos programas e de especialistas na questão, proporcionando uma boa imagem do que está em causa neste momento. 

“A realidade é que, mesmo que este dinheiro traga coisas boas, e mesmo que não venha com efeitos colaterais [no strings attached, no original]  - o que ambas as empresas garantem -  aceitar a ‘generosidade’ do Facebook e da Google coloca os media, inevitavelmente, cada vez mais na sua órbita. Pode não ter um efeito directo sobre aquilo que se escreve, ou de que modo se trata um assunto, mas vai, sem dúvida, ter um efeito a longo prazo sobre os media e o jornalismo. As contrapartidas valem a pena?” 

“Mesmo algumas das pessoas que beneficiam deste dinheiro dizem sentir-se divididas entre o desejo de um financiamento de que precisam desesperadamente, e que pode ser usado em propósitos positivos, e o sentimento de se estarem a afundar, a deixar-se arrastar cada vez mais para uma relação com uma empresa tecnológica que tem um poder enorme e que pode, em última instância, utilizá-lo de modos que serão contrários ao jornalismo. Por outras palavras, receiam tornar-se peões num jogo de relações publicas.” (...) 

Siva Vaidhyanathan, professor de estudos sobre os media na Universidade da Virginia, diz que tanto o Facebook como a Google podem estar interessadas no jornalismo e desejar que ele seja saudável, “mas querem que isso aconteça nos seus próprios termos, dentro de um ecossistema dominado pelas duas empresas. O Império Britânico também queria que os comboios funcionassem bem, no Quénia como na Índia.” (...) 

“Estas duas empresas concorrem directamente com as grandes publicações pelas receitas da publicidade. Assim, estamos basicamente a entrar em parceria com um concorrente  - e um concorrente que tem uma enorme vantagem competitiva, em termos dos preços, da escala e da capacidade tecnológica. Será uma boa decisão negocial? As empresas jornalísticas estão, cada vez mais, a alimentar os monstros que as fazem passar fome.” (...) 

Ao longo deste extenso trabalho, que aqui temos citado, Mathew Ingram inclui os depoimentos de pessoas como Alexios Mantzarlis, por exemplo, que dirige a International Fact-Checking Network no Poynter Institute (em parte financiada por uma doação da Google) e reconhece que, “com cada doação, parece que temos de nos justificar no sentido de que não ficamos contrangidos [ou devedores – beholden, no original] ao doador, de um modo que não sucede com outras transacções”. (...) 

Ouviu também Josh Benton, que dirige o Nieman Journalism Lab (que tem um projecto patrocinado pela Google) e acha que, mesmo havendo nestas empresas “uma quantidade de pessoas bem intencionadas que sinceramente acreditam na importância do jornalismo e desejam ajudar o melhor que puderem”, torna-se difícil observar todos estes esforços “por outras lentes que não sejam as de uma operação de imagem”. Mathew Ingram acrescenta que ambas as coisas podem ser verdadeiras. 

O seu trabalho descreve também várias situações recentes em que os media e as grandes plataformas estiveram claramente em conflito, e os dirigentes destas tiveram de expor as suas motivações e propostas. Como escreve adiante: 

“Estas questões são difíceis, em parte porque a relação entre as plataformas e a indústria jornalística ficou tão complicada, como um casal à beira de um divórcio litigioso. Ambos os lados podem ser culpados de terem falhado no cumprimento das suas promessas, de terem dado saltos antes de olharem, e de terem perdido oportunidades óbvias, ou por medo ou por ignorância. Devem as plataformas e os media ser parceiros ou concorrentes, ou ambas as coisas?” 

“Quando são pressionados, os que estão por dentro das empresas tecnológicas parecem achar que a maioria dos responsáveis dos meios de comunicação são uns ‘queixinhas’ que não conseguiram estar à altura dos avanços tecnológicos e agora reclamam porque alguém fez isso primeiro e conseguiu servir os seus clientes  - anunciantes e/ou consumidores -  melhor do que eles.” (...) 

Perto de terminar, Mathew Ingram cita um ensaio de Emily Bell, publicado em Fevereiro precisamente na Columbia Journalism Review, no qual a famosa jornalista britânica, que dirige o Tow Center for Digital Journalism na Universidade de Columbia, defende que Facebook e Google deviam criar um fundo de vários milhares de milhões de dólares como uma espécie de apoio público ao jornalismo. 

Emily Bell mantém a proposta, mas Mathew Ingram acrescenta: 

“Por muitos altruistas que possam parecer, a verdade é que todos estes financiamentos são apenas outro modo pelo qual Facebook e Google se integram cada vez mais no tecido dos media e do jornalismo, não só nos Estados Unidos mas por todo o mundo. E quanto mais financeiramente constrangida se torna esta indústria, tanto mais fica sedenta de um apoio que só a Google e o Facebook lhe podem proporcionar. E isso conduz ainda a mais integração.” (...)

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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