Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Estudo

Estudo europeu valoriza jornalismo português no feminino

A cobertura noticiosa, na Europa, é dominada por jornalistas e comentadores masculinos, que usam a maior parte do tempo a escrever sobre outros homens. Esta supremacia dos homens na reportagem e mesmo na agenda noticiosa mantém-se, apesar de, em muitos países, as mulheres já constituírem metade dos profissionais, e de haver mais mulheres do que homens a escolherem o jornalismo como carreira. A única excepção é Portugal, onde os trabalhos assinados por mulheres ultrapassam os dos homens, numa relação de 31% para 20%. “Mas mesmo aqui, a utilização de fotografias de homens menoriza as de mulheres, de 49% para 12%.” Estes dados são de um levantamento feito pelo Observatório Europeu de Jornalismo, em Janeiro e Fevereiro de 2018, sobre dois jornais impressos e dois online de cada um de onze países europeus.

No total dos onze países onde foi feita a análise, os homens escreveram 41% dos artigos, em comparação com apenas 23% escritos por mulheres, enquanto quase metade de todas as imagens (43%) publicadas eram apenas de homens, comparadas com apenas 15% de mulheres. Os restantes artigos ou não tinham autor explícito ou provinham de uma agência noticiosa. O estudo descobriu que o desequilíbrio de género era geralmente mais óbvio nos media impressos tradicionais. (...) 

Os países que demonstraram maior desequilíbrio entre géneros foram a Itália e a Alemanha. Na Alemanha, 58% dos artigos tinham como autores jornalistas do sexo masculino e apenas 16% do sexo feminino, enquanto na Itália, 63% (a maior percentagem entre os onze países) pertenciam a homens e apenas 21% a mulheres. 

A Ucrânia foi o país onde o número das fotografias de homens foi o mais elevado, com 49% das fotos a apresentarem apenas homens, em comparação com 10% que apresentavam apenas mulheres. (...) 

O estudo, conduzido pelo Observatório Europeu de Jornalismo (EJO), baseou-se na análise das secções de notícias, comentários e negócios de dois jornais impressos e dois jornais digitais de cada país, nos mesmos dois dias da semana, durante quatro semanas, entre Janeiro e Fevereiro deste ano. Os países analisados foram a Alemanha, Espanha, Itália, Letónia, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia, Suíça e Ucrânia. 

Com o objectivo de conseguir uniformidade, foram analisadas apenas as primeiras 15 páginas de cada jornal impresso, uma vez que elas normalmente apresentam os assuntos mais importantes. No caso dos jornais digitais, foram analisadas as primeiras 20 reportagens das homepages nas editorias de notícias, política e negócios. Temas como saúde, artes, lifestyle e moda, foram omitidos, assim como as secções de desporto. (...) 

Portugal foi a excepção entre os meios de comunicação social da Europa: o número de artigos escritos por mulheres nos meios de comunicação analisados (Público, Correio da Manhã, Observador e Notícias ao Minuto) foi de 31%, em comparação com 20% por homens. A supremacia feminina foi ainda maior nos jornais impressos, com as mulheres a escrever 37% das notícias, contra 18% escritas por homens. 

Os conteúdos das agências de notícias dominaram os meios online, especialmente no caso do Notícias ao Minuto, onde quase metade das notícias vieram de agências (principalmente a LUSA, a agência noticiosa portuguesa). Aqui, a autoria dos artigos era mais equilibrada: 22% para homens e 24% para mulheres. 

Não é claro porque em Portugal, entre todos os países analisados, haja mais mulheres a assinar artigos. Um estudo recente mostrou que 52% dos jornalistas portugueses são homens e 48% são mulheres. 

O mesmo estudo revelou que os jornalistas do sexo masculino tendiam a receber mais que as mulheres, deixando mais mulheres menos satisfeitas com os seus salários do que os homens (37% das mulheres disseram estar muito insatisfeitas, com 30% dos homens dizendo o mesmo). Estas disparidades salariais persistem, apesar de 54% das mulheres jornalistas em Portugal possuírem um curso universitário, contra 34% dos homens. 

O facto de haver mais trabalhos assinados por mulheres poderia sugerir que os homens ocupam lugares mais altos na hierarquia, no papel de directores, editores ou outros e, portanto, escrevem menos artigos ou nenhum. A confirmar esta teoria, pode citar-se um facto: no Congresso dos Jornalistas, que teve lugar o ano passado, num painel composto pelos directores dos principais meios de comunicação social, entre 19 pessoas, apenas duas eram mulheres. (...)

O estudo do Observatório Europeu de Jornalismo, em português e em inglês. Também referido no NiemanLab.

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...