Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Estudo

Estudo europeu valoriza jornalismo português no feminino

A cobertura noticiosa, na Europa, é dominada por jornalistas e comentadores masculinos, que usam a maior parte do tempo a escrever sobre outros homens. Esta supremacia dos homens na reportagem e mesmo na agenda noticiosa mantém-se, apesar de, em muitos países, as mulheres já constituírem metade dos profissionais, e de haver mais mulheres do que homens a escolherem o jornalismo como carreira. A única excepção é Portugal, onde os trabalhos assinados por mulheres ultrapassam os dos homens, numa relação de 31% para 20%. “Mas mesmo aqui, a utilização de fotografias de homens menoriza as de mulheres, de 49% para 12%.” Estes dados são de um levantamento feito pelo Observatório Europeu de Jornalismo, em Janeiro e Fevereiro de 2018, sobre dois jornais impressos e dois online de cada um de onze países europeus.

No total dos onze países onde foi feita a análise, os homens escreveram 41% dos artigos, em comparação com apenas 23% escritos por mulheres, enquanto quase metade de todas as imagens (43%) publicadas eram apenas de homens, comparadas com apenas 15% de mulheres. Os restantes artigos ou não tinham autor explícito ou provinham de uma agência noticiosa. O estudo descobriu que o desequilíbrio de género era geralmente mais óbvio nos media impressos tradicionais. (...) 

Os países que demonstraram maior desequilíbrio entre géneros foram a Itália e a Alemanha. Na Alemanha, 58% dos artigos tinham como autores jornalistas do sexo masculino e apenas 16% do sexo feminino, enquanto na Itália, 63% (a maior percentagem entre os onze países) pertenciam a homens e apenas 21% a mulheres. 

A Ucrânia foi o país onde o número das fotografias de homens foi o mais elevado, com 49% das fotos a apresentarem apenas homens, em comparação com 10% que apresentavam apenas mulheres. (...) 

O estudo, conduzido pelo Observatório Europeu de Jornalismo (EJO), baseou-se na análise das secções de notícias, comentários e negócios de dois jornais impressos e dois jornais digitais de cada país, nos mesmos dois dias da semana, durante quatro semanas, entre Janeiro e Fevereiro deste ano. Os países analisados foram a Alemanha, Espanha, Itália, Letónia, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia, Suíça e Ucrânia. 

Com o objectivo de conseguir uniformidade, foram analisadas apenas as primeiras 15 páginas de cada jornal impresso, uma vez que elas normalmente apresentam os assuntos mais importantes. No caso dos jornais digitais, foram analisadas as primeiras 20 reportagens das homepages nas editorias de notícias, política e negócios. Temas como saúde, artes, lifestyle e moda, foram omitidos, assim como as secções de desporto. (...) 

Portugal foi a excepção entre os meios de comunicação social da Europa: o número de artigos escritos por mulheres nos meios de comunicação analisados (Público, Correio da Manhã, Observador e Notícias ao Minuto) foi de 31%, em comparação com 20% por homens. A supremacia feminina foi ainda maior nos jornais impressos, com as mulheres a escrever 37% das notícias, contra 18% escritas por homens. 

Os conteúdos das agências de notícias dominaram os meios online, especialmente no caso do Notícias ao Minuto, onde quase metade das notícias vieram de agências (principalmente a LUSA, a agência noticiosa portuguesa). Aqui, a autoria dos artigos era mais equilibrada: 22% para homens e 24% para mulheres. 

Não é claro porque em Portugal, entre todos os países analisados, haja mais mulheres a assinar artigos. Um estudo recente mostrou que 52% dos jornalistas portugueses são homens e 48% são mulheres. 

O mesmo estudo revelou que os jornalistas do sexo masculino tendiam a receber mais que as mulheres, deixando mais mulheres menos satisfeitas com os seus salários do que os homens (37% das mulheres disseram estar muito insatisfeitas, com 30% dos homens dizendo o mesmo). Estas disparidades salariais persistem, apesar de 54% das mulheres jornalistas em Portugal possuírem um curso universitário, contra 34% dos homens. 

O facto de haver mais trabalhos assinados por mulheres poderia sugerir que os homens ocupam lugares mais altos na hierarquia, no papel de directores, editores ou outros e, portanto, escrevem menos artigos ou nenhum. A confirmar esta teoria, pode citar-se um facto: no Congresso dos Jornalistas, que teve lugar o ano passado, num painel composto pelos directores dos principais meios de comunicação social, entre 19 pessoas, apenas duas eram mulheres. (...)

O estudo do Observatório Europeu de Jornalismo, em português e em inglês. Também referido no NiemanLab.

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Como está o papel?
Manuel Falcão
Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio. Ao ritmo a que...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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