Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Estudo

Estudo europeu valoriza jornalismo português no feminino

A cobertura noticiosa, na Europa, é dominada por jornalistas e comentadores masculinos, que usam a maior parte do tempo a escrever sobre outros homens. Esta supremacia dos homens na reportagem e mesmo na agenda noticiosa mantém-se, apesar de, em muitos países, as mulheres já constituírem metade dos profissionais, e de haver mais mulheres do que homens a escolherem o jornalismo como carreira. A única excepção é Portugal, onde os trabalhos assinados por mulheres ultrapassam os dos homens, numa relação de 31% para 20%. “Mas mesmo aqui, a utilização de fotografias de homens menoriza as de mulheres, de 49% para 12%.” Estes dados são de um levantamento feito pelo Observatório Europeu de Jornalismo, em Janeiro e Fevereiro de 2018, sobre dois jornais impressos e dois online de cada um de onze países europeus.

No total dos onze países onde foi feita a análise, os homens escreveram 41% dos artigos, em comparação com apenas 23% escritos por mulheres, enquanto quase metade de todas as imagens (43%) publicadas eram apenas de homens, comparadas com apenas 15% de mulheres. Os restantes artigos ou não tinham autor explícito ou provinham de uma agência noticiosa. O estudo descobriu que o desequilíbrio de género era geralmente mais óbvio nos media impressos tradicionais. (...) 

Os países que demonstraram maior desequilíbrio entre géneros foram a Itália e a Alemanha. Na Alemanha, 58% dos artigos tinham como autores jornalistas do sexo masculino e apenas 16% do sexo feminino, enquanto na Itália, 63% (a maior percentagem entre os onze países) pertenciam a homens e apenas 21% a mulheres. 

A Ucrânia foi o país onde o número das fotografias de homens foi o mais elevado, com 49% das fotos a apresentarem apenas homens, em comparação com 10% que apresentavam apenas mulheres. (...) 

O estudo, conduzido pelo Observatório Europeu de Jornalismo (EJO), baseou-se na análise das secções de notícias, comentários e negócios de dois jornais impressos e dois jornais digitais de cada país, nos mesmos dois dias da semana, durante quatro semanas, entre Janeiro e Fevereiro deste ano. Os países analisados foram a Alemanha, Espanha, Itália, Letónia, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia, Suíça e Ucrânia. 

Com o objectivo de conseguir uniformidade, foram analisadas apenas as primeiras 15 páginas de cada jornal impresso, uma vez que elas normalmente apresentam os assuntos mais importantes. No caso dos jornais digitais, foram analisadas as primeiras 20 reportagens das homepages nas editorias de notícias, política e negócios. Temas como saúde, artes, lifestyle e moda, foram omitidos, assim como as secções de desporto. (...) 

Portugal foi a excepção entre os meios de comunicação social da Europa: o número de artigos escritos por mulheres nos meios de comunicação analisados (Público, Correio da Manhã, Observador e Notícias ao Minuto) foi de 31%, em comparação com 20% por homens. A supremacia feminina foi ainda maior nos jornais impressos, com as mulheres a escrever 37% das notícias, contra 18% escritas por homens. 

Os conteúdos das agências de notícias dominaram os meios online, especialmente no caso do Notícias ao Minuto, onde quase metade das notícias vieram de agências (principalmente a LUSA, a agência noticiosa portuguesa). Aqui, a autoria dos artigos era mais equilibrada: 22% para homens e 24% para mulheres. 

Não é claro porque em Portugal, entre todos os países analisados, haja mais mulheres a assinar artigos. Um estudo recente mostrou que 52% dos jornalistas portugueses são homens e 48% são mulheres. 

O mesmo estudo revelou que os jornalistas do sexo masculino tendiam a receber mais que as mulheres, deixando mais mulheres menos satisfeitas com os seus salários do que os homens (37% das mulheres disseram estar muito insatisfeitas, com 30% dos homens dizendo o mesmo). Estas disparidades salariais persistem, apesar de 54% das mulheres jornalistas em Portugal possuírem um curso universitário, contra 34% dos homens. 

O facto de haver mais trabalhos assinados por mulheres poderia sugerir que os homens ocupam lugares mais altos na hierarquia, no papel de directores, editores ou outros e, portanto, escrevem menos artigos ou nenhum. A confirmar esta teoria, pode citar-se um facto: no Congresso dos Jornalistas, que teve lugar o ano passado, num painel composto pelos directores dos principais meios de comunicação social, entre 19 pessoas, apenas duas eram mulheres. (...)

O estudo do Observatório Europeu de Jornalismo, em português e em inglês. Também referido no NiemanLab.

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
Ao longo do último ano os jornais britânicos The Times e The Sunday Times têm desenvolvido esforços consideráveis para conseguir manter os assinantes digitais que foram angariando ao longo do tempo. A renovação das assinaturas digitais é uma das crónicas dores de cabeça que os editores de publicações enfrentam, tanto mais que estudos recentes comprovam que uma sólida base de assinantes e leitores...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
Agenda
02
Jul
The Children’s Media Conference
16:00 @ Sheffield,Reino Unido
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria