Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Colectânea

Romantismo e mitos sobre a “idade de ouro” do jornalismo

A ideia de que houve uma “idade de ouro” do jornalismo, tanto na qualidade do produto como na prosperidade das empresas, pode ser uma leitura da história vista por óculos cor-de-rosa. Mesmo a ética de um jornalismo não tendencioso, baseado nos factos, a que chamamos “objectividade”, pode ter tido outras motivações, tais como a de ser “uma boa decisão de negócio dos proprietários”, porque “uma reportagem equilibrada traz mais leitores e mais anunciantes que desejam atingir esses leitores, ao mesmo tempo que informa melhor o público”. Esta reflexão é de dois académicos, uma historiadora hoje docente no Canadá e um jornalista dos EUA, num texto que se propõe colocar em perspectiva histórica mais alargada as nossas inquietações sobre a presente crise do jornalismo.

O que ambos os autores, Heidi Tworek e John Maxwell Hamilton, dizem desde logo no título do artigo que citamos, é que essa “idade de ouro” foi a excepção e não a regra: 

“Há dois problemas com a narrativa cor-de-rosa. Primeiro, ela descreve implicitamente o período de quatro décadas, de 1940 a 1980, como a apoteose de uma ‘idade de ouro’ para o jornalismo. Em segundo lugar, ela toma esse período como a linha de base do modo como o jornalismo sempre funcionou. Na verdade, este período foi uma anomalia numa história mais longa de quatro séculos de jornalismo.” (...) 

Como explicam a seguir, o jornalismo americano era dispendioso, mas os proprietários de jornais podiam pagá-lo:

“Na segunda metade do séc. XX, os seus cofres transbordavam. Durante esse tempo, como observa Robert Picard, a Imprensa tornou-se um dos negócios mais lucrativos no mundo desenvolvido.” (...) 

“O jornalismo tradicional nos EUA prosperou graças a um complexo sistema de subvenções interligadas. Os anunciantes subsidiavam os jornais americanos para atingirem o mercado de massas dos consumidores. Em meados do séc. XX, os anúncios traziam cerca de 80% das receitas dos jornais. Os leitores pagavam os restantes 20%, o que era sensivalmente o custo da entrega.” 

“Os leitores também se subsidiavam uns aos outros. O jornal dava qualquer coisa a toda a gente. O leitor que não se interessava pelo notíciário principal pagava o jornal para encontrar os resultados desportivos, os programas de televisão e anúncios de emprego. As notícias caras, como as do jornalismo de investigação, eram pagas por pessoas que frequentemente não as liam.” (...) 

Mesmo quando chegou a concorrência, “a rádio e a televisão  - que foram no seu tempo os ‘novos’ media -  davam inicialmente uma quantidade limitada de notícias, e nos grandes eventos coexistiam com os jornais, que acabaram por compreender que atraíam leitores incluindo a programação da rádio e televisão nas suas páginas.” 

“Mas a vaga seguinte dos novos media foi diferente. A concorrência subiu muito com a Internet, porque a barreira de entrada se tornou muito baixa. Além disto, a Internet desagregou as notícias. Os utentes que queriam resultados desportivos podiam tê-los online, de graça, todo o dia. Esses consumidores já não subsidiavam, na mesma medida, outros leitores com interesses diferentes. Todos sabemos o que aconteceu a seguir: quebra das receitas de publicidade, declínio acelerado na circulação dos jornais, despedimentos de jornalistas.” (...) 

“Todos estes desenvolvimentos são menos surpreendentes quando avaliamos a longa história do jornalismo. Os jornais esforçaram-se principalmente por ganhar dinheiro ou serem o distribuidor de notícias dominante. Para conseguirem cativar audiência, o seu conteúdo tornou-se sensacionalista, opinativo, irresponsável e mesquinho.” 

Os autores do artigo que citamos, no NiemanLab, vão à História desde o séc. XVI, quando terão começado, até ao final do séc. XIX, quando se tornam de facto o meio principal para ter notícias. Citam, de passagem, a “árvore de Cracóvia”, em Paris de antes da Revolução, a cuja sombra as pessoas se sentavam bisbilhotando sobre as élites do país. 

“As plataformas das redes sociais, como o Twitter, são as novas ‘árvores de Cracóvia’: são o lugar perfeito para espanhar boatos, anedotas e bisbilhotice. (...) O blog, outra modernizada ‘árvore de Cracóvia’, e o ‘cidadão-jornalista’ amador, coexistem lado a lado com o repórter com formação académica numa grande redacção.” (...) 

“Os anos de 1940 a 1980 foram uma ‘idade de ouro’ para os proprietários de jornais fazerem dinheiro e para os jornalistas fazerem notícias. Mas só foram uma ‘idade de ouro’ para um determinado grupo de pessoas. Muitos cidadãos  - as mulheres e os afro-americanos, só para dar dois exemplos -  não se reconheciam muitas vezes na reportagem e tinham poucas oportunidades de a influenciar.” (...) 

“É imperativo preservar um jornalismo fiável, de alta qualidade, neste tempo em que qualquer facto inconveniente é classificado de fake news. Hoje é o próprio conceito de verdade que está a ser atacado, e as instituições da Imprensa postas em perigo pelas instituições políticas. Vai ser necessário um novo conjunto de contribuições [subsidies, no original] para garantir que uma reportagem responsável continua.” (...)

 

O texto original, na íntegra, no NiemanLab 
Ler também, na nossa coluna de Opinião, ao lado, o artigo de J. Botelho Tomé sobre este mesmo assunto

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

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Opinião
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