Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
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Romantismo e mitos sobre a “idade de ouro” do jornalismo

A ideia de que houve uma “idade de ouro” do jornalismo, tanto na qualidade do produto como na prosperidade das empresas, pode ser uma leitura da história vista por óculos cor-de-rosa. Mesmo a ética de um jornalismo não tendencioso, baseado nos factos, a que chamamos “objectividade”, pode ter tido outras motivações, tais como a de ser “uma boa decisão de negócio dos proprietários”, porque “uma reportagem equilibrada traz mais leitores e mais anunciantes que desejam atingir esses leitores, ao mesmo tempo que informa melhor o público”. Esta reflexão é de dois académicos, uma historiadora hoje docente no Canadá e um jornalista dos EUA, num texto que se propõe colocar em perspectiva histórica mais alargada as nossas inquietações sobre a presente crise do jornalismo.

O que ambos os autores, Heidi Tworek e John Maxwell Hamilton, dizem desde logo no título do artigo que citamos, é que essa “idade de ouro” foi a excepção e não a regra: 

“Há dois problemas com a narrativa cor-de-rosa. Primeiro, ela descreve implicitamente o período de quatro décadas, de 1940 a 1980, como a apoteose de uma ‘idade de ouro’ para o jornalismo. Em segundo lugar, ela toma esse período como a linha de base do modo como o jornalismo sempre funcionou. Na verdade, este período foi uma anomalia numa história mais longa de quatro séculos de jornalismo.” (...) 

Como explicam a seguir, o jornalismo americano era dispendioso, mas os proprietários de jornais podiam pagá-lo:

“Na segunda metade do séc. XX, os seus cofres transbordavam. Durante esse tempo, como observa Robert Picard, a Imprensa tornou-se um dos negócios mais lucrativos no mundo desenvolvido.” (...) 

“O jornalismo tradicional nos EUA prosperou graças a um complexo sistema de subvenções interligadas. Os anunciantes subsidiavam os jornais americanos para atingirem o mercado de massas dos consumidores. Em meados do séc. XX, os anúncios traziam cerca de 80% das receitas dos jornais. Os leitores pagavam os restantes 20%, o que era sensivalmente o custo da entrega.” 

“Os leitores também se subsidiavam uns aos outros. O jornal dava qualquer coisa a toda a gente. O leitor que não se interessava pelo notíciário principal pagava o jornal para encontrar os resultados desportivos, os programas de televisão e anúncios de emprego. As notícias caras, como as do jornalismo de investigação, eram pagas por pessoas que frequentemente não as liam.” (...) 

Mesmo quando chegou a concorrência, “a rádio e a televisão  - que foram no seu tempo os ‘novos’ media -  davam inicialmente uma quantidade limitada de notícias, e nos grandes eventos coexistiam com os jornais, que acabaram por compreender que atraíam leitores incluindo a programação da rádio e televisão nas suas páginas.” 

“Mas a vaga seguinte dos novos media foi diferente. A concorrência subiu muito com a Internet, porque a barreira de entrada se tornou muito baixa. Além disto, a Internet desagregou as notícias. Os utentes que queriam resultados desportivos podiam tê-los online, de graça, todo o dia. Esses consumidores já não subsidiavam, na mesma medida, outros leitores com interesses diferentes. Todos sabemos o que aconteceu a seguir: quebra das receitas de publicidade, declínio acelerado na circulação dos jornais, despedimentos de jornalistas.” (...) 

“Todos estes desenvolvimentos são menos surpreendentes quando avaliamos a longa história do jornalismo. Os jornais esforçaram-se principalmente por ganhar dinheiro ou serem o distribuidor de notícias dominante. Para conseguirem cativar audiência, o seu conteúdo tornou-se sensacionalista, opinativo, irresponsável e mesquinho.” 

Os autores do artigo que citamos, no NiemanLab, vão à História desde o séc. XVI, quando terão começado, até ao final do séc. XIX, quando se tornam de facto o meio principal para ter notícias. Citam, de passagem, a “árvore de Cracóvia”, em Paris de antes da Revolução, a cuja sombra as pessoas se sentavam bisbilhotando sobre as élites do país. 

“As plataformas das redes sociais, como o Twitter, são as novas ‘árvores de Cracóvia’: são o lugar perfeito para espanhar boatos, anedotas e bisbilhotice. (...) O blog, outra modernizada ‘árvore de Cracóvia’, e o ‘cidadão-jornalista’ amador, coexistem lado a lado com o repórter com formação académica numa grande redacção.” (...) 

“Os anos de 1940 a 1980 foram uma ‘idade de ouro’ para os proprietários de jornais fazerem dinheiro e para os jornalistas fazerem notícias. Mas só foram uma ‘idade de ouro’ para um determinado grupo de pessoas. Muitos cidadãos  - as mulheres e os afro-americanos, só para dar dois exemplos -  não se reconheciam muitas vezes na reportagem e tinham poucas oportunidades de a influenciar.” (...) 

“É imperativo preservar um jornalismo fiável, de alta qualidade, neste tempo em que qualquer facto inconveniente é classificado de fake news. Hoje é o próprio conceito de verdade que está a ser atacado, e as instituições da Imprensa postas em perigo pelas instituições políticas. Vai ser necessário um novo conjunto de contribuições [subsidies, no original] para garantir que uma reportagem responsável continua.” (...)

 

O texto original, na íntegra, no NiemanLab 
Ler também, na nossa coluna de Opinião, ao lado, o artigo de J. Botelho Tomé sobre este mesmo assunto

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Aumentam assinaturas pagas de meios digitais com algumas surpresas... Ver galeria

As assinaturas pagas são a “tábua de salvação” dos jornais digitais, mas cobrar pelas notícias, neste terreno, é uma estratégia difícil de implementar. Muitos meios de comunicação hesitam em dar este passo, pelo receio de perderem leitores. No entanto, dezenas de outros tiveram êxito, seguindo estratégias diferentes e, também, com diversos graus de sucesso. A FIPP  - Federação Internacional da Imprensa Periódica -  editou recentemente o seu primeiro Global Digital Subscription Snapshot, que permite consultar a tabela com os principais meios online, comparar os seus números de assinantes e preços cobrados e, assim, obter ideias úteis para os que procuram chegar ao desejado equilíbrio financeiro sem terem de perder público.

Como captar audiência e ser fiel ao bom jornalismo Ver galeria

A crise que tem atingido os meios de comunicação, nos últimos anos, com a queda constante das receitas da publicidade e a dependência incerta da adesão dos leitores, tem conduzido editores e jornalistas a apostarem sobretudo nesta segunda direcção. Reatar relações de confiança e construir “audiências leais em torno de um jornalismo de qualidade”, parece ser o único caminho sólido, mesmo que não seja fácil. Os fundamentos da próxima geração de modelos sustentáveis de receita para os media “serão contribuições directas da sua audiência, apoiados por altos níveis de compromisso dos leitores”.

Portanto, uma espécie de “contrato social”, pelo lado do meio de comunicação e dos seus jornalistas, e uma espécie de “conversão pessoal”, pelo lado dos leitores. É esta a linha desenvolvida por um recente estudo do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA, aqui comentado em artigo publicado na 36ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

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