Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Colectânea

Romantismo e mitos sobre a “idade de ouro” do jornalismo

A ideia de que houve uma “idade de ouro” do jornalismo, tanto na qualidade do produto como na prosperidade das empresas, pode ser uma leitura da história vista por óculos cor-de-rosa. Mesmo a ética de um jornalismo não tendencioso, baseado nos factos, a que chamamos “objectividade”, pode ter tido outras motivações, tais como a de ser “uma boa decisão de negócio dos proprietários”, porque “uma reportagem equilibrada traz mais leitores e mais anunciantes que desejam atingir esses leitores, ao mesmo tempo que informa melhor o público”. Esta reflexão é de dois académicos, uma historiadora hoje docente no Canadá e um jornalista dos EUA, num texto que se propõe colocar em perspectiva histórica mais alargada as nossas inquietações sobre a presente crise do jornalismo.

O que ambos os autores, Heidi Tworek e John Maxwell Hamilton, dizem desde logo no título do artigo que citamos, é que essa “idade de ouro” foi a excepção e não a regra: 

“Há dois problemas com a narrativa cor-de-rosa. Primeiro, ela descreve implicitamente o período de quatro décadas, de 1940 a 1980, como a apoteose de uma ‘idade de ouro’ para o jornalismo. Em segundo lugar, ela toma esse período como a linha de base do modo como o jornalismo sempre funcionou. Na verdade, este período foi uma anomalia numa história mais longa de quatro séculos de jornalismo.” (...) 

Como explicam a seguir, o jornalismo americano era dispendioso, mas os proprietários de jornais podiam pagá-lo:

“Na segunda metade do séc. XX, os seus cofres transbordavam. Durante esse tempo, como observa Robert Picard, a Imprensa tornou-se um dos negócios mais lucrativos no mundo desenvolvido.” (...) 

“O jornalismo tradicional nos EUA prosperou graças a um complexo sistema de subvenções interligadas. Os anunciantes subsidiavam os jornais americanos para atingirem o mercado de massas dos consumidores. Em meados do séc. XX, os anúncios traziam cerca de 80% das receitas dos jornais. Os leitores pagavam os restantes 20%, o que era sensivalmente o custo da entrega.” 

“Os leitores também se subsidiavam uns aos outros. O jornal dava qualquer coisa a toda a gente. O leitor que não se interessava pelo notíciário principal pagava o jornal para encontrar os resultados desportivos, os programas de televisão e anúncios de emprego. As notícias caras, como as do jornalismo de investigação, eram pagas por pessoas que frequentemente não as liam.” (...) 

Mesmo quando chegou a concorrência, “a rádio e a televisão  - que foram no seu tempo os ‘novos’ media -  davam inicialmente uma quantidade limitada de notícias, e nos grandes eventos coexistiam com os jornais, que acabaram por compreender que atraíam leitores incluindo a programação da rádio e televisão nas suas páginas.” 

“Mas a vaga seguinte dos novos media foi diferente. A concorrência subiu muito com a Internet, porque a barreira de entrada se tornou muito baixa. Além disto, a Internet desagregou as notícias. Os utentes que queriam resultados desportivos podiam tê-los online, de graça, todo o dia. Esses consumidores já não subsidiavam, na mesma medida, outros leitores com interesses diferentes. Todos sabemos o que aconteceu a seguir: quebra das receitas de publicidade, declínio acelerado na circulação dos jornais, despedimentos de jornalistas.” (...) 

“Todos estes desenvolvimentos são menos surpreendentes quando avaliamos a longa história do jornalismo. Os jornais esforçaram-se principalmente por ganhar dinheiro ou serem o distribuidor de notícias dominante. Para conseguirem cativar audiência, o seu conteúdo tornou-se sensacionalista, opinativo, irresponsável e mesquinho.” 

Os autores do artigo que citamos, no NiemanLab, vão à História desde o séc. XVI, quando terão começado, até ao final do séc. XIX, quando se tornam de facto o meio principal para ter notícias. Citam, de passagem, a “árvore de Cracóvia”, em Paris de antes da Revolução, a cuja sombra as pessoas se sentavam bisbilhotando sobre as élites do país. 

“As plataformas das redes sociais, como o Twitter, são as novas ‘árvores de Cracóvia’: são o lugar perfeito para espanhar boatos, anedotas e bisbilhotice. (...) O blog, outra modernizada ‘árvore de Cracóvia’, e o ‘cidadão-jornalista’ amador, coexistem lado a lado com o repórter com formação académica numa grande redacção.” (...) 

“Os anos de 1940 a 1980 foram uma ‘idade de ouro’ para os proprietários de jornais fazerem dinheiro e para os jornalistas fazerem notícias. Mas só foram uma ‘idade de ouro’ para um determinado grupo de pessoas. Muitos cidadãos  - as mulheres e os afro-americanos, só para dar dois exemplos -  não se reconheciam muitas vezes na reportagem e tinham poucas oportunidades de a influenciar.” (...) 

“É imperativo preservar um jornalismo fiável, de alta qualidade, neste tempo em que qualquer facto inconveniente é classificado de fake news. Hoje é o próprio conceito de verdade que está a ser atacado, e as instituições da Imprensa postas em perigo pelas instituições políticas. Vai ser necessário um novo conjunto de contribuições [subsidies, no original] para garantir que uma reportagem responsável continua.” (...)

 

O texto original, na íntegra, no NiemanLab 
Ler também, na nossa coluna de Opinião, ao lado, o artigo de J. Botelho Tomé sobre este mesmo assunto

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
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Composição Fotográfica
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Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
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Set