Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Opinião

O Regresso da Árvore de Cracóvia

por J.Botelho Tomé

Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três opções: La Gazette (mais antigo jornal francês, fundado em 1631, re-baptizado Gazette de France em 1762), cuja segunda página era dedicada a “Nouvelles ordinaires de divers endroits”; Mercure de France, existente desde 1728, sucessor do Mercure Galant fundado em 1672; e o Nouvelles Extraordinaires de Divers Endroits, mais conhecido por Gazette de Leyde, bi-semanáriofundado em data incerta entre 1660 e 1680 pela família huguenote francesa de la Font radicada em Leiden, na Holanda, e comprado em 1738 pelos Luzacs, outra família huguenote francesa exilada na Holanda.

Para os restantes parisienses, que eram quase todos, as duas principais fontes noticiosas eram o “bouche à oreille” - o nosso “ouvir dizer” – ou certos locais de congregação, geralmente em jardins públicos como o das Tuileries e o do Luxemburgo, onde os “nouvellistes” (produtores de “nouvelles”, precursores dos futuros “jornalistas”) partilhavam as últimas novidades com os seus ouvintes. O mais popular desses centros parisienses de difusão de notícias, durante os primeiros três quartéis do séc. XVIII, era a “Árvore de Cracóvia”, um frondoso castanheiro na grande alameda do Palais Royal criada pelo cardeal Richelieu.

A origem da apelidação de “Cracóvia” não é pacífica, mas a tese mais aceite nada tem a ver com a cidade polaca do mesmo nome. Dois séculos e meio antes da nossa actual obsessão com as “fake news” já muitos parisienses tinham descoberto que muitas das “nouvelles” difundidas pelos “nouvellistes” eram pura ficção, e tinham um nome para elas: eram “craques” ou “craqueries”, e os seus criadores ou propagadores eram os “cracovistes”. " O grande castanheiro do Palais Royal, celebrizado por Voltaire no Canto VII de La Henriade ["... Et des débiteurs de gazettes, de ces nouvellistes enfin … De ces hâbleurs passant leur viedessous l'arbre de Cracovie”]  deveria portanto o seu nome à prolixidade das “craqueries” divulgadas à sua sombra."

A legenda de uma gravura da época dedicada à “Arbre de Cracovie” dá uma ideia da variedade de interessados que ali acorriam, incluindo “nouvellistes sans partialité” - provávelmente a informação mais duvidosa de todas.   

O rápido declínio, desde o princípio deste século, da imprensa impressa praticada por profissionais treinados, e correspondente alastramento da comunicação noticiosa através das redes sociais, praticada em larga medida por aqueles que antigamente eram apenas leitores, leva a crer que assistimos ao renascimento e multiplicação das árvores de Cracóvia, agora enraizadas na tecnologia electrónica.

Em artigo publicado em 2 de Maio no site de estudo e análise dos media NiemanLab, John Maxwell Hamilton (professor de Jornalismo na Louisiana State University) e Heidi Tworek (professor de História Internacional na Universidade de British Columbia) são da mesma opinião. 

No princípio do último decénio do século passado, o sector da comunicação social americana – imprensa, rádio e televisão – empregava mais de 450 mil pessoas. Até ao princípio do ano passado, ou seja, passados 26 anos, mais de metade desses postos de trabalho tinham desaparecido, e o sector empregava pouco mais de 170  mil pessoas.


Hamilton e Tworek defendem que o alarme em torno dessa vertiginosa quebra do sector se deve em grande parte à ilusão de que a prosperidade dos media impressos durante os 40 anos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial era o “estado normal” das coisas, quando na realidade terá correspondido a um período excepcional na história da comunicação social nos quase seis séculos desde a invenção da imprensa.

Os primeiros jornais, aparecidos no séc. XVII,  não tinham como objectivo principal a difusão de notícias, e muito menos a difusão de notícias “equilibradas” (em que pontos de vista opostos são igualmente divulgados) e “objectivas” (em que as informações são verificadas para garantir a sua veracidade). Os primeiros jornais eram instrumentos de propaganda comercial ou política dos seus donos, e não só apresentavam uma versão selectiva dos factos como deliberadamente exageravam e dramatizavam as “notícias” para produzirem o efeito desejado nos seus destinatários.

Como Hamilton e Tworek apontam, o aparecimento do “jornalismo equilibrado” deveu-se à  percepção de que ele daria aos jornais a possibilidade de atrairem um público mais vasto e de assim se tornarem económicamente viáveis. Ou seja, foi uma decisão de estratégia comercial que pouco ou nada teve a ver com noções éticas de imparcialidade. Na prática, essa filosofia traduziu-se numa lucratividade excepcional: na segunda metade do séc. XX, os jornais americanos tiveram margens de lucro médias de 12 por cento, e alguns chegaram aos 30 por cento – durante um período em que supermercados e grandes armazéns se davam por contentes com quatro por cento. Foi também durante esse período que a publicidade chegou a suportar cerca de 80 por cento do custo de operação dos jornais, enquanto os leitores suportaram os outros 20 por cento.

Foram precisos mais de três séculos – até meados do séc. XIX – para que a imprensa escrita se tornasse o método mais popular de difusão de notícias. Antes da “idade de ouro” que se seguiu, as “notícias” propagavam-se através do “ouvir dizer”, de anedotas, de canções e de boatos com alguma verdade e muita distorção.

Nas plataformas da net como o Twitter, Facebook e outras, pratica-se, como na  Árvore de Cracóvia, uma espécie de “vale tudo” pseudo-noticioso, na ausência do tradicional filtro constituído pelos profissionais da informação, cujo treino exige precauções elementares, como a corroboração das fontes, antes de soltar “notícias” de origem duvidosa.

O modelo de jornalismo moderno americano que emergiu cerca de 1840 e imperou durante os 160 anos seguintes, até ao fim do milénio passado, está em vias de extinção, não apenas por ter sido suplantado pelas plataformas electrónicas, mas também porque é extremamente dispendioso e as receitas de publicidade que o sustentavam escasseiam cada vez mais.

Os poucos jornais americanos que mantêem corpos redactoriais na casa das centenas e delegações em várias cidades no país e no estrangeiro, embora reduzidas; que continuam a investir em jornalismo de investigação – só possível com um ou mais repórteres dedicados a um único projecto durante semanas ou meses; e que continuam a empregar jornalistas especializados em disciplinas tão diversas como desporto e ciência, saúde e economia, política e arte, dependem cada vez mais dos seus leitores para suportar o seu funcionamento. Uma assinatura anual da edição impressa do The New York Times já ultrapassa os mil dólares.  A médio ou longo prazo, é previsível que o NYT e outros jornais de primeira grandeza, com conteúdo original, se tornem acessíveis apenas a uma distinta  minoria com posses para os comprar – como aconteceu até meados do século XIX.

No final do seu artigo, Hamilton e Tworek exprimem a esperança de que pelo menos alguns dos jornais que praticam um jornalismo responsável consigam sobreviver, em coexistência  com outros modelos de informação noticiosa, e afirmam o imperativo de preservar “um jornalismo fiável, de alta qualidade”.

É a mesma ideia que dois jornalistas veteranos, Charles Sennott e Steven Waldman já tinham posto em prática, ao lançarem em 2017 um projecto sem fins lucrativos designado Report for America https://www.reportforamerica.org/, cujo objectivo é combater a redução dos corpos redactoriais da imprensa local americana, colocando até 2022 cerca de mil jóvens jornalistas em redacções afectadas pela perda de efectivos. Os primeiros já começaram a ser colocados este ano.

Sennott, de 55 anos, com extensa experiência jornalística nacional e internacional, director executivo do website de jornalismo The GroundTruth Project http://thegroundtruthproject.org/, é um dos fundadores do website noticioso GlobalPost e foi chefe das delegações do The Boston Globe no Médio Oriente (em Jerusalém) e na Europa (em Londres). Waldman, de 55 anos, foi conselheiro do presidente da Federal Communications Commission (FCC) e um dos fundadores do website Beliefnet, dedicado à informação religiosa e ao diálogo entre religiões.

Report for America é uma parceria entre o The GroundTruth Project e o Google News Lab https://newsinitiative.withgoogle.com/google-news-lab, com o apoio de várias fundações dedicadas ao futuro do jornalismo. Jornalistas em início de carreira que se candidatam são  seleccionados e treinados pelo programa, e colocados durante um a dois anos em jornais locais com falta de repórteres. Durante esse período os seus salários são pagos pela organização e pelos seus patrocinadores.

Tendo em conta as dezenas de milhares de jornalistas que a imprensa americana tem perdido no último quarto de século, mil novos repórteres parecem uma gota de água no oceano. Mas se ajudarem a prolongar a existência de alguns jornais em risco de desaparecer, o dia em que outras tantas comunidades ficarão reduzidas à Árvore de Cracóvia, para saberem o que se passa, terá sido adiado por algum tempo.      

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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