Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Colectânea

Onde se fala do Facebook fora do alcance da regulação

Ao longo de sete horas e mais de 600 perguntas, repartidas por dois dias de audição por várias comissões do Congresso dos EUA, Mark Zuckerberg prestou contas perante a indignação ou a curiosidade dos políticos. Se estas sessões provaram alguma coisa, foi que “as actividades em que as empresas tecnológicas estão agora envolvidas colocam-nas fora do alcance do entendimento legislativo e da acção imediata”.

“A natureza encoberta da persuasão, na rede social, significa que o marketing eficaz já não é uma coisa que possamos ver, ou mesmo apercebermo-nos dela, mas antes algo que, por meio de mil ‘pontos de toque’, pode subtilmente alterar o nosso comportamento sem darmos conta disso.” É esta a reflexão inicial de Emily Bell, jornalista e docente na Columbia University, no diário The Guardian, de que foi editora durante vários anos.

Como afirmou no seu texto, os políticos que interrogavam Zuckerberg estavam numa “posição invulgar”:

“Nunca antes o Congresso tivera de chamar à responsabilidade uma actividade [a business, no original] da qual dependem tantas das suas próprias estratégias de comunicação e campanha.” (...) 

“Lindsay Graham, o senador Republicano da Carolina do Sul que pôs a Zuckerberg as questões mais duras sobre comportamento monopolístico, foi muito claro em dizer que os dias da auto-regulação acabaram para o Facebook.” (...) 

Um dos pontos mais vivos de debate ocorreu com o congressista Democrata John Sarbanes, que discutiu a natureza da publicidade “inserida” pelo Facebook nas campanhas políticas, sugerindo que o “apoio de vendas”, mencionado em resposta por Zuckerberg, podia significar, na verdade, uma doação involuntária a campanhas. 

“A campanha de Donald Trump teve 5,9 milhões de anúncios aprovados, enquanto a de Hillary Clinton teve 66 mil, sublinhou Sarbanes, sugerindo que ‘milhões de americanos estão a acordar para o facto de que o Facebook se está a tornar uma super estrutura de discurso político auto-regulada’  - antes de ser interrompido por quem presidia [à sessão].” 

Emily Bell inclui o link para a página de Facebook de Sarbane, onde se encontra o vídeo desta discussão. E acrescenta: 

“A publicidade adquirida no, ou por meio do Facebook, é frequentemente protegida por cláusulas contratuais com os anunciantes, deixando o público na posição bizarra de não ser capaz de ver, de facto, qual é a publicidade que lhe é dirigida. (...) Uma táctica desenvolvida por grupos partidários envolve a colocação de uma aparentemente inócua ou independente ‘propriedade de media’  - por outras palavras, uma página de Facebook que publica notícias -  antecipando campanhas ou temas eleitorais, que vão reunindo likes ou partilhas da parte dos eleitores, que seguidamente expõem o seu interesse ou opinião sobre certos assuntos.” 

“É este tipo de negócios noticiosos que toma o lugar do jornalismo local, que está a desaparecer rapidamente na América rural e urbana. Para estas tácticas serem eficazes, nem é necessário que os dados do Facebook sejam incorrectamente usados, mas o público está, mesmo assim, a ser enganado.” (...) 

A conclusão de Emily Bell é que, se a regulação que começa, “muito gentilmente”, a ser proposta pelo Congresso, quer chegar a algum lado, “tem de ser mais do que apenas a protecção dos dados dos utentes norte-americanos  - sendo embora esta importante -  e tem de ir além do conceito da persuasão política e da publicidade para as áreas mais vastas da influência, do poder e do dinheiro”: 

“Isto implicará talvez tanto exame de si mesmo como o que fez interrogando Zuckerberg. E para que isso aconteça podemos ter de esperar ainda algum tempo.”

 

O artigo citado, na íntegra, em The Guardian. Uma recente entrevista com Emily Bell, sobre as questões da viabilidade de um jornalismo responsável e do combate à manipulação.

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
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Composição Fotográfica
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09:00 @ Lagos, Nigéria
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