Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Colectânea

Onde se fala do Facebook fora do alcance da regulação

Ao longo de sete horas e mais de 600 perguntas, repartidas por dois dias de audição por várias comissões do Congresso dos EUA, Mark Zuckerberg prestou contas perante a indignação ou a curiosidade dos políticos. Se estas sessões provaram alguma coisa, foi que “as actividades em que as empresas tecnológicas estão agora envolvidas colocam-nas fora do alcance do entendimento legislativo e da acção imediata”.

“A natureza encoberta da persuasão, na rede social, significa que o marketing eficaz já não é uma coisa que possamos ver, ou mesmo apercebermo-nos dela, mas antes algo que, por meio de mil ‘pontos de toque’, pode subtilmente alterar o nosso comportamento sem darmos conta disso.” É esta a reflexão inicial de Emily Bell, jornalista e docente na Columbia University, no diário The Guardian, de que foi editora durante vários anos.

Como afirmou no seu texto, os políticos que interrogavam Zuckerberg estavam numa “posição invulgar”:

“Nunca antes o Congresso tivera de chamar à responsabilidade uma actividade [a business, no original] da qual dependem tantas das suas próprias estratégias de comunicação e campanha.” (...) 

“Lindsay Graham, o senador Republicano da Carolina do Sul que pôs a Zuckerberg as questões mais duras sobre comportamento monopolístico, foi muito claro em dizer que os dias da auto-regulação acabaram para o Facebook.” (...) 

Um dos pontos mais vivos de debate ocorreu com o congressista Democrata John Sarbanes, que discutiu a natureza da publicidade “inserida” pelo Facebook nas campanhas políticas, sugerindo que o “apoio de vendas”, mencionado em resposta por Zuckerberg, podia significar, na verdade, uma doação involuntária a campanhas. 

“A campanha de Donald Trump teve 5,9 milhões de anúncios aprovados, enquanto a de Hillary Clinton teve 66 mil, sublinhou Sarbanes, sugerindo que ‘milhões de americanos estão a acordar para o facto de que o Facebook se está a tornar uma super estrutura de discurso político auto-regulada’  - antes de ser interrompido por quem presidia [à sessão].” 

Emily Bell inclui o link para a página de Facebook de Sarbane, onde se encontra o vídeo desta discussão. E acrescenta: 

“A publicidade adquirida no, ou por meio do Facebook, é frequentemente protegida por cláusulas contratuais com os anunciantes, deixando o público na posição bizarra de não ser capaz de ver, de facto, qual é a publicidade que lhe é dirigida. (...) Uma táctica desenvolvida por grupos partidários envolve a colocação de uma aparentemente inócua ou independente ‘propriedade de media’  - por outras palavras, uma página de Facebook que publica notícias -  antecipando campanhas ou temas eleitorais, que vão reunindo likes ou partilhas da parte dos eleitores, que seguidamente expõem o seu interesse ou opinião sobre certos assuntos.” 

“É este tipo de negócios noticiosos que toma o lugar do jornalismo local, que está a desaparecer rapidamente na América rural e urbana. Para estas tácticas serem eficazes, nem é necessário que os dados do Facebook sejam incorrectamente usados, mas o público está, mesmo assim, a ser enganado.” (...) 

A conclusão de Emily Bell é que, se a regulação que começa, “muito gentilmente”, a ser proposta pelo Congresso, quer chegar a algum lado, “tem de ser mais do que apenas a protecção dos dados dos utentes norte-americanos  - sendo embora esta importante -  e tem de ir além do conceito da persuasão política e da publicidade para as áreas mais vastas da influência, do poder e do dinheiro”: 

“Isto implicará talvez tanto exame de si mesmo como o que fez interrogando Zuckerberg. E para que isso aconteça podemos ter de esperar ainda algum tempo.”

 

O artigo citado, na íntegra, em The Guardian. Uma recente entrevista com Emily Bell, sobre as questões da viabilidade de um jornalismo responsável e do combate à manipulação.

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Um fotojornalista português, Mário Cruz, da Agência Lusa, figura entre os nomeados para o World Press Photo 2019, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, cuja identidade e trabalhos a concurso foram agora conhecidos. A Fundação organizadora introduziu também uma nova categoria a ser premiada, a História do Ano, destinada a “fotógrafos cuja criatividade e habilidades visuais produziram uma história com excelente edição e sequenciamento, que captura ou representa um evento ou assunto de grande importância jornalística”.

A imagem de Mário Cruz, intitulada “Viver entre o que foi deixado para trás”, mostra uma criança recolhendo material reciclável, deitada num colchão cercado por lixo, enquanto flutua no rio Pasig, em Manila, nas Filipinas.

Os vencedores do concurso serão conhecidos na cerimónia marcada para 11 de Abril, em Amesterdão, na Holanda.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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