Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
Fórum

Onde se fala do Facebook fora do alcance da regulação

Ao longo de sete horas e mais de 600 perguntas, repartidas por dois dias de audição por várias comissões do Congresso dos EUA, Mark Zuckerberg prestou contas perante a indignação ou a curiosidade dos políticos. Se estas sessões provaram alguma coisa, foi que “as actividades em que as empresas tecnológicas estão agora envolvidas colocam-nas fora do alcance do entendimento legislativo e da acção imediata”.

“A natureza encoberta da persuasão, na rede social, significa que o marketing eficaz já não é uma coisa que possamos ver, ou mesmo apercebermo-nos dela, mas antes algo que, por meio de mil ‘pontos de toque’, pode subtilmente alterar o nosso comportamento sem darmos conta disso.” É esta a reflexão inicial de Emily Bell, jornalista e docente na Columbia University, no diário The Guardian, de que foi editora durante vários anos.

Como afirma no seu texto, os políticos que interrogavam Zuckerberg estavam numa “posição invulgar”:

“Nunca antes o Congresso tivera de chamar à responsabilidade uma actividade [a business, no original] da qual dependem tantas das suas próprias estratégias de comunicação e campanha.” (...) 

“Lindsay Graham, o senador Republicano da Carolina do Sul que pôs a Zuckerberg as questões mais duras sobre comportamento monopolístico, foi muito claro em dizer que os dias da auto-regulação acabaram para o Facebook.” (...) 

Um dos pontos mais vivos de debate ocorreu com o congressista Democrata John Sarbanes, que discutiu a natureza da publicidade “inserida” pelo Facebook nas campanhas políticas, sugerindo que o “apoio de vendas”, mencionado em resposta por Zuckerberg, podia significar, na verdade, uma doação involuntária a campanhas. 

“A campanha de Donald Trump teve 5,9 milhões de anúncios aprovados, enquanto a de Hillary Clinton teve 66 mil, sublinhou Sarbanes, sugerindo que ‘milhões de americanos estão a acordar para o facto de que o Facebook se está a tornar uma super estrutura de discurso político auto-regulada’  - antes de ser interrompido por quem presidia [à sessão].” 

Emily Bell inclui o link para a página de Facebook de Sarbane, onde se encontra o vídeo desta discussão. E acrescenta: 

“A publicidade adquirida no, ou por meio do Facebook, é frequentemente protegida por cláusulas contratuais com os anunciantes, deixando o público na posição bizarra de não ser capaz de ver, de facto, qual é a publicidade que lhe é dirigida. (...) Uma táctica desenvolvida por grupos partidários envolve a colocação de uma aparentemente inócua ou independente ‘propriedade de media’  - por outras palavras, uma página de Facebook que publica notícias -  antecipando campanhas ou temas eleitorais, que vão reunindo likes ou partilhas da parte dos eleitores, que seguidamente expõem o seu interesse ou opinião sobre certos assuntos.” 

“É este tipo de negócios noticiosos que toma o lugar do jornalismo local, que está a desaparecer rapidamente na América rural e urbana. Para estas tácticas serem eficazes, nem é necessário que os dados do Facebook sejam incorrectamente usados, mas o público está, mesmo assim, a ser enganado.” (...) 

A conclusão de Emily Bell é que, se a regulação que começa, “muito gentilmente”, a ser proposta pelo Congresso, quer chegar a algum lado, “tem de ser mais do que apenas a protecção dos dados dos utentes norte-americanos  - sendo embora esta importante -  e tem de ir além do conceito da persuasão política e da publicidade para as áreas mais vastas da influência, do poder e do dinheiro”: 

“Isto implicará talvez tanto exame de si mesmo como o que fez interrogando Zuckerberg. E para que isso aconteça podemos ter de esperar ainda algum tempo.”

 

O artigo citado, na íntegra, em The Guardian. Uma recente entrevista com Emily Bell, sobre as questões da viabilidade de um jornalismo responsável e do combate à manipulação.

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