Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
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A confiança dos leitores não é recurso inesgotável e deve ser cultivada

Sondagens recentes, feitas nos EUA, revelam que um em cada três norte-americanos não sabe quais são os direitos garantidos pela Primeira Emenda; que mais de um terço dos Republicanos acha que a liberdade de Imprensa “faz mais mal do que bem”, e só menos de metade pensa que ela é importante para manter uma democracia forte. Para rematar, um inquérito da Monmouth University afirma que “mais de três, em cada quatro americanos, acreditam que as tradicionais grandes cadeias de televisão e empresas jornalísticas emitem fake news”.

Estes números são “assustadores”  - diz o artigo que citamos -  mas não parece que a própria “indústria” da Informação esteja a fazer muito a seu respeito. Os Provedores do Leitor, ou Ombudsmen, são uma “espécie em vias de extinção”, segundo um relatório do site Politico, de 2015. 

O autor, o jornalista freelance Philip Eil, critica a falta de esclarecimento sobre os procedimentos de uma informação responsável, presente nos próprios media

“Artigos baseados em fontes anónimas dão pouca explicação sobre a fundamentação ou o propósito por detrás desta prática. Conteúdo patrocinado é marcado sponsored com pouca ou nenhuma explicação sobre o que isso realmente significa. (Que percentagem de leitores acham que são capazes de dar uma boa definição de native-advertising?) As páginas de opinião publicam editoriais, artigos e comentários pessoais sem explicarem aquilo que distingue todo o conteúdo de opinião do noticiário não opinativo, muito menos aquilo que separa uma da outra estas categorias aparentemente misturadas.” (...) 

“Continuamos a fazer isto por nosso próprio risco. Uma das muitas lições da era de Trump é que a liberdade de Imprensa e a confiança das audiências não são recursos naturais inesgotáveis. Vão esgotar-se um dia destes, a menos que sejam preservados e cultivados. E por muito sobrecarregados e tensos e mal-pagos e bombardeados com ácido, como são todos os jornalistas, uma grande parte desta responsabilidade recai sobre nós.” (...) 

Philip Eil propõe cinco passos para ajudar a recuperar a confiança dos leitores:

  1. – Contratar mais Provedores do Público. Todas as empresas que tenham meios para sustentar um ombudsman deviam fazê-lo imediatamente. Quer acreditemos ou não que a crise de confiança no jornalismo é por nossa culpa, precisamos, pelo menos, de reconhecer que ela existe e pôr em prática algumas soluções de senso comum para a resolver.
  2. – Fazer dessa Provedoria um trabalho de equipa. Os jornalistas devem interrogar-se, individualmente, sobre o que estão a fazer a respeito dessa crise de confiança. O trabalho não deve ficar todo a nível da administração e do ombudsman. (O próprio autor relata que faz pedagogia sobre o que é o jornalismo, nas escolas e junto dos jovens em geral).
  3. Nem toda a gente sabe o que é jornalismo. Não assumam isso como garantido. Mas é raro ver as empresas de comunicação porem essas questões de modo claro, às vezes por receio de parecer que estão a ofender a inteligência dos leitores.
  4. – Nem toda a gente conhece os procedimentos do jornalismo. Não dêem isso por garantido, também. Qualquer artigo anónimo devia ter o link para uma página que explique o propósito de usar uma fonte anónima. Qualquer texto marcado como de opinião devia levar a uma página onde se explique a exacta diferença entre opinião e notícia.
  5. – Somos todos professores e embaixadores  - assumam esta ideia e sejam proactivos. Por que não organizar, a nível de jornais de pequena ou média dimensão, sessões públicas de debate com a comunidade, com os seus editores presentes para aceitarem perguntas e explicarem o que fazem? O autor sugere que mais jornalistas deviam envolver-se nesse esforço de pedagogia, sobretudo a nível dos estabelecimentos de ensino, para mostrar “o rosto humano desta muito denegrida profissão”.

“Esclarecer as pessoas sobre o jornalismo devia tornar-se um procedimento tão vital como o fact-checking.” 

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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