Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
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A confiança dos leitores não é recurso inesgotável e deve ser cultivada

Sondagens recentes, feitas nos EUA, revelam que um em cada três norte-americanos não sabe quais são os direitos garantidos pela Primeira Emenda; que mais de um terço dos Republicanos acha que a liberdade de Imprensa “faz mais mal do que bem”, e só menos de metade pensa que ela é importante para manter uma democracia forte. Para rematar, um inquérito da Monmouth University afirma que “mais de três, em cada quatro americanos, acreditam que as tradicionais grandes cadeias de televisão e empresas jornalísticas emitem fake news”.

Estes números são “assustadores”  - diz o artigo que citamos -  mas não parece que a própria “indústria” da Informação esteja a fazer muito a seu respeito. Os Provedores do Leitor, ou Ombudsmen, são uma “espécie em vias de extinção”, segundo um relatório do site Politico, de 2015. 

O autor, o jornalista freelance Philip Eil, critica a falta de esclarecimento sobre os procedimentos de uma informação responsável, presente nos próprios media

“Artigos baseados em fontes anónimas dão pouca explicação sobre a fundamentação ou o propósito por detrás desta prática. Conteúdo patrocinado é marcado sponsored com pouca ou nenhuma explicação sobre o que isso realmente significa. (Que percentagem de leitores acham que são capazes de dar uma boa definição de native-advertising?) As páginas de opinião publicam editoriais, artigos e comentários pessoais sem explicarem aquilo que distingue todo o conteúdo de opinião do noticiário não opinativo, muito menos aquilo que separa uma da outra estas categorias aparentemente misturadas.” (...) 

“Continuamos a fazer isto por nosso próprio risco. Uma das muitas lições da era de Trump é que a liberdade de Imprensa e a confiança das audiências não são recursos naturais inesgotáveis. Vão esgotar-se um dia destes, a menos que sejam preservados e cultivados. E por muito sobrecarregados e tensos e mal-pagos e bombardeados com ácido, como são todos os jornalistas, uma grande parte desta responsabilidade recai sobre nós.” (...) 

Philip Eil propõe cinco passos para ajudar a recuperar a confiança dos leitores:

  1. – Contratar mais Provedores do Público. Todas as empresas que tenham meios para sustentar um ombudsman deviam fazê-lo imediatamente. Quer acreditemos ou não que a crise de confiança no jornalismo é por nossa culpa, precisamos, pelo menos, de reconhecer que ela existe e pôr em prática algumas soluções de senso comum para a resolver.
  2. – Fazer dessa Provedoria um trabalho de equipa. Os jornalistas devem interrogar-se, individualmente, sobre o que estão a fazer a respeito dessa crise de confiança. O trabalho não deve ficar todo a nível da administração e do ombudsman. (O próprio autor relata que faz pedagogia sobre o que é o jornalismo, nas escolas e junto dos jovens em geral).
  3. Nem toda a gente sabe o que é jornalismo. Não assumam isso como garantido. Mas é raro ver as empresas de comunicação porem essas questões de modo claro, às vezes por receio de parecer que estão a ofender a inteligência dos leitores.
  4. – Nem toda a gente conhece os procedimentos do jornalismo. Não dêem isso por garantido, também. Qualquer artigo anónimo devia ter o link para uma página que explique o propósito de usar uma fonte anónima. Qualquer texto marcado como de opinião devia levar a uma página onde se explique a exacta diferença entre opinião e notícia.
  5. – Somos todos professores e embaixadores  - assumam esta ideia e sejam proactivos. Por que não organizar, a nível de jornais de pequena ou média dimensão, sessões públicas de debate com a comunidade, com os seus editores presentes para aceitarem perguntas e explicarem o que fazem? O autor sugere que mais jornalistas deviam envolver-se nesse esforço de pedagogia, sobretudo a nível dos estabelecimentos de ensino, para mostrar “o rosto humano desta muito denegrida profissão”.

“Esclarecer as pessoas sobre o jornalismo devia tornar-se um procedimento tão vital como o fact-checking.” 

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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