Quinta-feira, 21 de Novembro, 2019
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A confiança dos leitores não é recurso inesgotável e deve ser cultivada

Sondagens recentes, feitas nos EUA, revelam que um em cada três norte-americanos não sabe quais são os direitos garantidos pela Primeira Emenda; que mais de um terço dos Republicanos acha que a liberdade de Imprensa “faz mais mal do que bem”, e só menos de metade pensa que ela é importante para manter uma democracia forte. Para rematar, um inquérito da Monmouth University afirma que “mais de três, em cada quatro americanos, acreditam que as tradicionais grandes cadeias de televisão e empresas jornalísticas emitem fake news”.

Estes números são “assustadores”  - diz o artigo que citamos -  mas não parece que a própria “indústria” da Informação esteja a fazer muito a seu respeito. Os Provedores do Leitor, ou Ombudsmen, são uma “espécie em vias de extinção”, segundo um relatório do site Politico, de 2015. 

O autor, o jornalista freelance Philip Eil, critica a falta de esclarecimento sobre os procedimentos de uma informação responsável, presente nos próprios media

“Artigos baseados em fontes anónimas dão pouca explicação sobre a fundamentação ou o propósito por detrás desta prática. Conteúdo patrocinado é marcado sponsored com pouca ou nenhuma explicação sobre o que isso realmente significa. (Que percentagem de leitores acham que são capazes de dar uma boa definição de native-advertising?) As páginas de opinião publicam editoriais, artigos e comentários pessoais sem explicarem aquilo que distingue todo o conteúdo de opinião do noticiário não opinativo, muito menos aquilo que separa uma da outra estas categorias aparentemente misturadas.” (...) 

“Continuamos a fazer isto por nosso próprio risco. Uma das muitas lições da era de Trump é que a liberdade de Imprensa e a confiança das audiências não são recursos naturais inesgotáveis. Vão esgotar-se um dia destes, a menos que sejam preservados e cultivados. E por muito sobrecarregados e tensos e mal-pagos e bombardeados com ácido, como são todos os jornalistas, uma grande parte desta responsabilidade recai sobre nós.” (...) 

Philip Eil propõe cinco passos para ajudar a recuperar a confiança dos leitores:

  1. – Contratar mais Provedores do Público. Todas as empresas que tenham meios para sustentar um ombudsman deviam fazê-lo imediatamente. Quer acreditemos ou não que a crise de confiança no jornalismo é por nossa culpa, precisamos, pelo menos, de reconhecer que ela existe e pôr em prática algumas soluções de senso comum para a resolver.
  2. – Fazer dessa Provedoria um trabalho de equipa. Os jornalistas devem interrogar-se, individualmente, sobre o que estão a fazer a respeito dessa crise de confiança. O trabalho não deve ficar todo a nível da administração e do ombudsman. (O próprio autor relata que faz pedagogia sobre o que é o jornalismo, nas escolas e junto dos jovens em geral).
  3. Nem toda a gente sabe o que é jornalismo. Não assumam isso como garantido. Mas é raro ver as empresas de comunicação porem essas questões de modo claro, às vezes por receio de parecer que estão a ofender a inteligência dos leitores.
  4. – Nem toda a gente conhece os procedimentos do jornalismo. Não dêem isso por garantido, também. Qualquer artigo anónimo devia ter o link para uma página que explique o propósito de usar uma fonte anónima. Qualquer texto marcado como de opinião devia levar a uma página onde se explique a exacta diferença entre opinião e notícia.
  5. – Somos todos professores e embaixadores  - assumam esta ideia e sejam proactivos. Por que não organizar, a nível de jornais de pequena ou média dimensão, sessões públicas de debate com a comunidade, com os seus editores presentes para aceitarem perguntas e explicarem o que fazem? O autor sugere que mais jornalistas deviam envolver-se nesse esforço de pedagogia, sobretudo a nível dos estabelecimentos de ensino, para mostrar “o rosto humano desta muito denegrida profissão”.

“Esclarecer as pessoas sobre o jornalismo devia tornar-se um procedimento tão vital como o fact-checking.” 

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
O risco do jornalismo de dados produzir gráficos enganosos Ver galeria

As visualizações de dados podem ser enganosas. No seu novo livro, "How Charts Lie",Alberto Cairo, não poupa palavras para expor os perigos de visualizações de dados mal projectadas. 

O autor identifica cinco grandes categorias de desenhos de gráficos, que não são o que parecem à primeira vista, desde os que contêm dados insuficientes até aos que, deliberadamente, ocultam ou enganam o espectador. 

Os jornalistas podem proteger-se de serem "enganados" pelos gráficos, aceitando que são tão vulneráveis quanto o público em geral.

Cairo descreve os gráficos como argumentos feitos visualmente, que precisam de ser avaliados e verificados com o mesmo cuidado que qualquer outro dado ao qual recorremos para escrever uma história. 

O número crescente de ferramentas de visualização de dados gratuitas e de baixo custo, como Datawrapper e Flourish, tornaram as histórias baseadas em dados acessíveis, até mesmo às pequenas redacções.

"Pensamos no New York Times como o padrão ouro da visualização de dados, mas, na Flórida, o Tampa Bay Times tem apenas duas ou três pessoas a realizar esse tipo de trabalho e estão a fazer peças vencedoras do Pulitzer", explica o autor. 

O artigo de Corinne Podger, publicado no site do IJNet, analisa os riscos dos enganos do jornalismo de dados.

Jornalismo tecnológico requer soluções no mundo digital Ver galeria

A postura dos jornalistas em relação aos meios tecnológicos tem vindo a sofrer algumas alterações. 

Os jornalistas têm adoptado novamente uma atitude de “watchdog” em relação a Silicon Valley, tendo começado a produzir reportagens sobre negligência e outros problemas gerados por estas empresas. Começaram a debater questões sociais e técnicas, como o caso das campanhas de desinformação e os efeitos discriminatórios de algoritmos. 

Porém, é importante que os jornalistas não só ajudem a compreender os problemas tecnológicos, mas que identifiquem, também, as possíveis soluções e os efeitos positivos da tecnologia na sociedade. 

Os autores do texto, publicado no site Columbia Journalism Review, sugerem que seja adoptado um jornalismo de soluções como um movimento a seguir na cobertura de temas tecnológicos. Este género de jornalismo propõe realizar reportagens centradas nas respostas aos problemas sociais reportados, minimizando a ideia feita de que os jornalistas apenas estão presentes quando ocorrem escândalos. 

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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