Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2020
Fórum

A confiança dos leitores não é recurso inesgotável e deve ser cultivada

Sondagens recentes, feitas nos EUA, revelam que um em cada três norte-americanos não sabe quais são os direitos garantidos pela Primeira Emenda; que mais de um terço dos Republicanos acha que a liberdade de Imprensa “faz mais mal do que bem”, e só menos de metade pensa que ela é importante para manter uma democracia forte. Para rematar, um inquérito da Monmouth University afirma que “mais de três, em cada quatro americanos, acreditam que as tradicionais grandes cadeias de televisão e empresas jornalísticas emitem fake news”.

Estes números são “assustadores”  - diz o artigo que citamos -  mas não parece que a própria “indústria” da Informação esteja a fazer muito a seu respeito. Os Provedores do Leitor, ou Ombudsmen, são uma “espécie em vias de extinção”, segundo um relatório do site Politico, de 2015. 

O autor, o jornalista freelance Philip Eil, critica a falta de esclarecimento sobre os procedimentos de uma informação responsável, presente nos próprios media

“Artigos baseados em fontes anónimas dão pouca explicação sobre a fundamentação ou o propósito por detrás desta prática. Conteúdo patrocinado é marcado sponsored com pouca ou nenhuma explicação sobre o que isso realmente significa. (Que percentagem de leitores acham que são capazes de dar uma boa definição de native-advertising?) As páginas de opinião publicam editoriais, artigos e comentários pessoais sem explicarem aquilo que distingue todo o conteúdo de opinião do noticiário não opinativo, muito menos aquilo que separa uma da outra estas categorias aparentemente misturadas.” (...) 

“Continuamos a fazer isto por nosso próprio risco. Uma das muitas lições da era de Trump é que a liberdade de Imprensa e a confiança das audiências não são recursos naturais inesgotáveis. Vão esgotar-se um dia destes, a menos que sejam preservados e cultivados. E por muito sobrecarregados e tensos e mal-pagos e bombardeados com ácido, como são todos os jornalistas, uma grande parte desta responsabilidade recai sobre nós.” (...) 

Philip Eil propõe cinco passos para ajudar a recuperar a confiança dos leitores:

  1. – Contratar mais Provedores do Público. Todas as empresas que tenham meios para sustentar um ombudsman deviam fazê-lo imediatamente. Quer acreditemos ou não que a crise de confiança no jornalismo é por nossa culpa, precisamos, pelo menos, de reconhecer que ela existe e pôr em prática algumas soluções de senso comum para a resolver.
  2. – Fazer dessa Provedoria um trabalho de equipa. Os jornalistas devem interrogar-se, individualmente, sobre o que estão a fazer a respeito dessa crise de confiança. O trabalho não deve ficar todo a nível da administração e do ombudsman. (O próprio autor relata que faz pedagogia sobre o que é o jornalismo, nas escolas e junto dos jovens em geral).
  3. Nem toda a gente sabe o que é jornalismo. Não assumam isso como garantido. Mas é raro ver as empresas de comunicação porem essas questões de modo claro, às vezes por receio de parecer que estão a ofender a inteligência dos leitores.
  4. – Nem toda a gente conhece os procedimentos do jornalismo. Não dêem isso por garantido, também. Qualquer artigo anónimo devia ter o link para uma página que explique o propósito de usar uma fonte anónima. Qualquer texto marcado como de opinião devia levar a uma página onde se explique a exacta diferença entre opinião e notícia.
  5. – Somos todos professores e embaixadores  - assumam esta ideia e sejam proactivos. Por que não organizar, a nível de jornais de pequena ou média dimensão, sessões públicas de debate com a comunidade, com os seus editores presentes para aceitarem perguntas e explicarem o que fazem? O autor sugere que mais jornalistas deviam envolver-se nesse esforço de pedagogia, sobretudo a nível dos estabelecimentos de ensino, para mostrar “o rosto humano desta muito denegrida profissão”.

“Esclarecer as pessoas sobre o jornalismo devia tornar-se um procedimento tão vital como o fact-checking.” 

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Crescimento das assinaturas digitais não compensa as perdas na circulação impressa Ver galeria

A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.

Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.

Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.

Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.

No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.

Movimento de jornalistas franceses contra nova Lei de Segurança Ver galeria

Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.

Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.

Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.

Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.

Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



ver mais >
Opinião
As eleições americanas, bem como a pandemia provocada pelo  covid-19, têm sido dois poderosos ímanes na  cobertura mediática, e campo fértil para  o exercício do jornalismo, desde o que é   servido com rigor, àquele que obedece  apenas aos cânones  ideológicos de quem escreve. Houve tempo em que se cultivava o sagrado principio da separação da opinião e da...
No final de 2016 a Newspaper Association Of America, que representava cerca de 2000 publicações nos Estados Unidos e no Canadá, anunciou a sua transformação em News Media Alliance, reflectindo a evolução do sector e passando a incorporar as diversas plataformas em que os grupos produtores de informação qualificada se desdobraram ao longo dos últimos anos, coexistindo o papel com os formatos digitais, mas também video,...
Jornalistas: nem heróis nem vilões
Francisco Sarsfield Cabral
No  jornal “Público” de sábado,  J. Pacheco Pereira elogiou Vicente Jorge Silva porque “fez uma coisa rara entre nós – fez obra. Não tanto como jornalista, mas como criador no terreno da comunicação social”. E destacou o papel do jornal madeirense “Comércio do Funchal”, que, apesar da censura, conseguiu criticar o regime então vigente. Até ao 25 de Abril este jornal logrou,...
De acordo com Carlos Camponez , o «jornalismo de proximidade», porque realmente está mais próximo dos leitores da comunidade onde se integra, pode desempenhar um papel fundamental, «assumindo uma perspetiva de compromisso no incentivo à vida pública». Neste contexto, aquele investigador aponta para a ideia da criação de uma agenda do cidadão, o que, por sua vez, «obriga a que os media invistam em técnicas...
Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
04
Dez
O coronavírus e o Caos estatístico
10:00 @ Conferência "online" da Universidade de Bournemouth
09
Dez
11
Dez
19
Dez
Estratégias de Facebook
10:00 @ Cenjor