Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Media

"Le Monde" cresce e averba ganhos em contraciclo

O diário francês Le Monde divulga as suas contas de 2017 falando de um ano de crescimento e consolidação do grupo, e sublinhando um aumento de 5,6% na circulação paga, devido, sobretudo, a uma subida de 44% nas assinaturas digitais. Segundo o texto publicado, este progresso, “que se mantém a um ritmo elevado neste começo de ano, é tal que as assinaturas digitais são agora a primeira fonte de difusão de Le Monde, seguidas pelas assinaturas da edição impressa e, finalmente, pelas vendas por exemplar”. O crescimento “recompensa o importante investimento nos meios redactoriais”, tendo o número de jornalistas passado de 310 para 430, entre 2010 e 2017.

“As nossas publicações souberam tirar partido, em 2017, de um ano especialmente fértil em acontecimentos, a começar pela campanha presidencial. Conseguiram fazê-lo graças ao nosso investimento num jornalismo de alta qualidade e a uma estratégia digital agora bem firmada.” (...) 

O artigo que citamos, assinado pelo director de Le Monde, Jérôme Fenoglio, e pelo presidente do conselho de direcção, Louis Dreyfus, adianta que os magazines do grupo “mantiveram uma estrutura de difusão mais clássica, essencialmente suportada em papel e nomeadamente pelas assinaturas, mas mantendo uma rentabilidade que fortifica o conjunto, com grande difusão, tanto do M du Monde (274 mil exemplares), como de Télérama (523 mil), como do Courrier International (180 mil), que viu crescer a sua circulação em 2017 graças a um desenvolvimento importante das assinaturas digitais (+ 31%), que são agora superiores às vendas por exemplar”. 

“Finalmente, Le monde Diplomatique teve uma progressão de 3% nas vendas, também com uma subida notável da difusão digital (+ 24%).” (...) 

“Entre os projectos mais notáveis, citamos por exemplo os que se têm desenvolvido no digital: o Huffington Post (que é o 8º site francês de actualidade e o 6º nos dispositivos móveis), lançado há cinco anos, ou, desde há um ano e meio, a edição do Monde no Snapchat, que é seguida todos os dias por mais de 900 mil jovens.” (...) 

A concluir, o texto afirma que estes bons resultados “contrariam duas ideias feitas que circulam, sobre a situação da informação em França”: 

“A crise do jornal impresso [de la presse écrite, no original] não é uma fatalidade: a muito clara subida da circulação paga do Monde em França, ao longo de todo o ano passado, demonstra que o sucesso do digital, em vez de nos enfraquecer, proporciona variados meios para nos dirigirmos a novos leitores e convencer um número crescente deles a fazerem uma assinatura.” 

“A desconfiança entre os cidadãos e os jornalistas não é geral. Os leitores das publicações do grupo Le Monde são cada vez mais numerosos a confiarem na nossa informação, produzida de modo não partidário e independente por redacções protegidas de toda a pressão dos poderes políticos e económicos, pela nossa direcção [notre gouvernance], por dispositivos que se tornaram estatutários, por uma exigência quotidiana e uma história de mais de 62 anos.” 

O texto citado, na íntegra, em Le Monde

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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