Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
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Agência Pública como espaço de inovação para o jornalismo brasileiro

A Casa Pública, no Rio de Janeiro, e a Agência Pública, em São Paulo, são duas expressões de um mesmo projecto, que procura reflectir sobre o jornalismo brasileiro no sentido dos três is: ser inovador, inspirador e independente. Acrescente-se o que lhe está ligado desde a fundação: ser investigativo. Criada há cinco anos, a Agência Pública é membro da Global Investigative Journalism Network  - de cujo site citamos a reportagem que conta esta história. E a sua mais importante contribuição, num ambiente político “ultra-polarizado”, é a de expandir o projecto de fact-checking chamado Truco, para verificar diariamente, em pelo menos oito Estados brasileiros, as afirmações dos candidatos que se apresentem às próximas eleições de Outubro.

Esta operação já tinha sido posta à prova durante as eleições municipais de 2016, em cinco capitais. Para as que vêm neste ano, a equipa da Agência, em São Paulo, vai dar formação a jornalistas independentes, de todo o país, na sua metodologia de fact-checking

“Considero o fact-checking um género do jornalismo de investigação”  -  afirma Natália Viana, uma das co-fundadoras da Agência, que começou a sua carreira sempre com esta marca. Em 2006, quando fazia o mestrado em jornalismo radiofónico, em Londres, adquiriu essa formação pelo Center for Investigative Journalism (CIJ). 

Quanto à Casa Pública, nasceu como um centro cultural, de debate e celebração do jornalismo, e ao mesmo tempo um porto de abrigo para jornalistas brasileiros ou estrangeiros de passagem. Foi lá que foi lançada a ideia do Festival dos 3 is, o primeiro deles realizado em Novembro de 2017. 

A escolha desta cidade decorre de dois grandes acontecimentos ali ocorridos: a Taça do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas de Verão em 2016. Logo neste meso ano, na sequência do impeachment de Dilma Roussef, foi organizado no local um debate com o ponto de vista dos jornalistas estrangeiros sobre o sucedido. Como conta Natália Viana, houve uma fila de 400 pessoas a quererem entrar numa sala que só é confortável para umas 70. 

“Assim, por um lado, as pessoas precisavam de um lugar para falar, Pelo outro, os estudantes e mais pessoas interessadas no jornalismo tinham falta de um espaço para discutirem o ‘novo jornalismo’, um debate que não é a respeito da ‘crise do jornalismo’, ou do ‘fim do jornalismo’, ou dos fracos salários”  -  disse ainda. 

“Este é um espaço para experimentarmos, revigorarmos e celebrarmos o novo jornalismo”  - que define em vários pontos: empresas nativas-digitais, dirigidas por jornalistas cujo primeiro projecto é o de fazerem jornalismo, e que o fazem com o objectivo de alcançarem estabilidade e sustentabilidade de longo prazo. 

A própria Agência Pública tem o seu problema de sustentabilidade, que é descrito nesta reportagem pela outra co-fundadora, Marina Amaral. No lançamento da Casa Pública, no Rio, procuraram algum mecenato, e houve fundações, como a Ford, Porticus, Oak Foundation e a Open Society Foundation, que fizeram doações temporárias. Três delas mantiveram este apoio por mais um ano. Estes e outros doadores são citados na página Transparency, no site da Agência. 

Esta assume-se mais como “uma agência e não uma publicadora”. Na prática, os media podem republicar as reportagens da Pública sob uma licença Creative Commons. Em resultado disto, 700 websites republicaram trabalhos da Pública em 2017, segundo Natália Viana, incluindo The Guardian, El País, a Folha de S.Paulo, o Valor Económico e o blog Santarém do Pará

“Nada do que fazemos resulta de uma ideia louca que nasce da noite para o dia. Marina e eu temos uma regra: se não nos parece seguro, não o divulgamos ao mundo. Vamos pensar nisso mais um pouco. Fazemos tudo com calma e muito cuidado.” (…)

 

 
O texto aqui citado, na Global Investigative Journalism Network, de cujo projecto de fact-checking incluímos a imagem

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

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“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

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