Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Fórum

Agência Pública como espaço de inovação para o jornalismo brasileiro

A Casa Pública, no Rio de Janeiro, e a Agência Pública, em São Paulo, são duas expressões de um mesmo projecto, que procura reflectir sobre o jornalismo brasileiro no sentido dos três is: ser inovador, inspirador e independente. Acrescente-se o que lhe está ligado desde a fundação: ser investigativo. Criada há cinco anos, a Agência Pública é membro da Global Investigative Journalism Network  - de cujo site citamos a reportagem que conta esta história. E a sua mais importante contribuição, num ambiente político “ultra-polarizado”, é a de expandir o projecto de fact-checking chamado Truco, para verificar diariamente, em pelo menos oito Estados brasileiros, as afirmações dos candidatos que se apresentem às próximas eleições de Outubro.

Esta operação já tinha sido posta à prova durante as eleições municipais de 2016, em cinco capitais. Para as que vêm neste ano, a equipa da Agência, em São Paulo, vai dar formação a jornalistas independentes, de todo o país, na sua metodologia de fact-checking

“Considero o fact-checking um género do jornalismo de investigação”  -  afirma Natália Viana, uma das co-fundadoras da Agência, que começou a sua carreira sempre com esta marca. Em 2006, quando fazia o mestrado em jornalismo radiofónico, em Londres, adquiriu essa formação pelo Center for Investigative Journalism (CIJ). 

Quanto à Casa Pública, nasceu como um centro cultural, de debate e celebração do jornalismo, e ao mesmo tempo um porto de abrigo para jornalistas brasileiros ou estrangeiros de passagem. Foi lá que foi lançada a ideia do Festival dos 3 is, o primeiro deles realizado em Novembro de 2017. 

A escolha desta cidade decorre de dois grandes acontecimentos ali ocorridos: a Taça do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas de Verão em 2016. Logo neste meso ano, na sequência do impeachment de Dilma Roussef, foi organizado no local um debate com o ponto de vista dos jornalistas estrangeiros sobre o sucedido. Como conta Natália Viana, houve uma fila de 400 pessoas a quererem entrar numa sala que só é confortável para umas 70. 

“Assim, por um lado, as pessoas precisavam de um lugar para falar, Pelo outro, os estudantes e mais pessoas interessadas no jornalismo tinham falta de um espaço para discutirem o ‘novo jornalismo’, um debate que não é a respeito da ‘crise do jornalismo’, ou do ‘fim do jornalismo’, ou dos fracos salários”  -  disse ainda. 

“Este é um espaço para experimentarmos, revigorarmos e celebrarmos o novo jornalismo”  - que define em vários pontos: empresas nativas-digitais, dirigidas por jornalistas cujo primeiro projecto é o de fazerem jornalismo, e que o fazem com o objectivo de alcançarem estabilidade e sustentabilidade de longo prazo. 

A própria Agência Pública tem o seu problema de sustentabilidade, que é descrito nesta reportagem pela outra co-fundadora, Marina Amaral. No lançamento da Casa Pública, no Rio, procuraram algum mecenato, e houve fundações, como a Ford, Porticus, Oak Foundation e a Open Society Foundation, que fizeram doações temporárias. Três delas mantiveram este apoio por mais um ano. Estes e outros doadores são citados na página Transparency, no site da Agência. 

Esta assume-se mais como “uma agência e não uma publicadora”. Na prática, os media podem republicar as reportagens da Pública sob uma licença Creative Commons. Em resultado disto, 700 websites republicaram trabalhos da Pública em 2017, segundo Natália Viana, incluindo The Guardian, El País, a Folha de S.Paulo, o Valor Económico e o blog Santarém do Pará

“Nada do que fazemos resulta de uma ideia louca que nasce da noite para o dia. Marina e eu temos uma regra: se não nos parece seguro, não o divulgamos ao mundo. Vamos pensar nisso mais um pouco. Fazemos tudo com calma e muito cuidado.” (…)

 

 
O texto aqui citado, na Global Investigative Journalism Network, de cujo projecto de fact-checking incluímos a imagem

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...