Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Fórum

Agência Pública como espaço de inovação para o jornalismo brasileiro

A Casa Pública, no Rio de Janeiro, e a Agência Pública, em São Paulo, são duas expressões de um mesmo projecto, que procura reflectir sobre o jornalismo brasileiro no sentido dos três is: ser inovador, inspirador e independente. Acrescente-se o que lhe está ligado desde a fundação: ser investigativo. Criada há cinco anos, a Agência Pública é membro da Global Investigative Journalism Network  - de cujo site citamos a reportagem que conta esta história. E a sua mais importante contribuição, num ambiente político “ultra-polarizado”, é a de expandir o projecto de fact-checking chamado Truco, para verificar diariamente, em pelo menos oito Estados brasileiros, as afirmações dos candidatos que se apresentem às próximas eleições de Outubro.

Esta operação já tinha sido posta à prova durante as eleições municipais de 2016, em cinco capitais. Para as que vêm neste ano, a equipa da Agência, em São Paulo, vai dar formação a jornalistas independentes, de todo o país, na sua metodologia de fact-checking

“Considero o fact-checking um género do jornalismo de investigação”  -  afirma Natália Viana, uma das co-fundadoras da Agência, que começou a sua carreira sempre com esta marca. Em 2006, quando fazia o mestrado em jornalismo radiofónico, em Londres, adquiriu essa formação pelo Center for Investigative Journalism (CIJ). 

Quanto à Casa Pública, nasceu como um centro cultural, de debate e celebração do jornalismo, e ao mesmo tempo um porto de abrigo para jornalistas brasileiros ou estrangeiros de passagem. Foi lá que foi lançada a ideia do Festival dos 3 is, o primeiro deles realizado em Novembro de 2017. 

A escolha desta cidade decorre de dois grandes acontecimentos ali ocorridos: a Taça do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas de Verão em 2016. Logo neste meso ano, na sequência do impeachment de Dilma Roussef, foi organizado no local um debate com o ponto de vista dos jornalistas estrangeiros sobre o sucedido. Como conta Natália Viana, houve uma fila de 400 pessoas a quererem entrar numa sala que só é confortável para umas 70. 

“Assim, por um lado, as pessoas precisavam de um lugar para falar, Pelo outro, os estudantes e mais pessoas interessadas no jornalismo tinham falta de um espaço para discutirem o ‘novo jornalismo’, um debate que não é a respeito da ‘crise do jornalismo’, ou do ‘fim do jornalismo’, ou dos fracos salários”  -  disse ainda. 

“Este é um espaço para experimentarmos, revigorarmos e celebrarmos o novo jornalismo”  - que define em vários pontos: empresas nativas-digitais, dirigidas por jornalistas cujo primeiro projecto é o de fazerem jornalismo, e que o fazem com o objectivo de alcançarem estabilidade e sustentabilidade de longo prazo. 

A própria Agência Pública tem o seu problema de sustentabilidade, que é descrito nesta reportagem pela outra co-fundadora, Marina Amaral. No lançamento da Casa Pública, no Rio, procuraram algum mecenato, e houve fundações, como a Ford, Porticus, Oak Foundation e a Open Society Foundation, que fizeram doações temporárias. Três delas mantiveram este apoio por mais um ano. Estes e outros doadores são citados na página Transparency, no site da Agência. 

Esta assume-se mais como “uma agência e não uma publicadora”. Na prática, os media podem republicar as reportagens da Pública sob uma licença Creative Commons. Em resultado disto, 700 websites republicaram trabalhos da Pública em 2017, segundo Natália Viana, incluindo The Guardian, El País, a Folha de S.Paulo, o Valor Económico e o blog Santarém do Pará

“Nada do que fazemos resulta de uma ideia louca que nasce da noite para o dia. Marina e eu temos uma regra: se não nos parece seguro, não o divulgamos ao mundo. Vamos pensar nisso mais um pouco. Fazemos tudo com calma e muito cuidado.” (…)

 

 
O texto aqui citado, na Global Investigative Journalism Network, de cujo projecto de fact-checking incluímos a imagem

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
Ao longo do último ano os jornais britânicos The Times e The Sunday Times têm desenvolvido esforços consideráveis para conseguir manter os assinantes digitais que foram angariando ao longo do tempo. A renovação das assinaturas digitais é uma das crónicas dores de cabeça que os editores de publicações enfrentam, tanto mais que estudos recentes comprovam que uma sólida base de assinantes e leitores...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
Agenda
02
Jul
The Children’s Media Conference
16:00 @ Sheffield,Reino Unido
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria