Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

A perversão editorial das sobrecapas publicitárias na Imprensa

Tornou-se frequente, em vários meios de comunicação impressos, o uso de uma sobrecapa publicitária que, mantendo o logotipo do órgão em causa, ocupa o resto do espaço com o anúncio de um automóvel, uma vivenda, um relógio caro, qualquer produto que certamente pagou o suficiente pelo privilégio obtido. O caso que aqui citamos passou-se no Brasil (mas também acontece entre nós) com as revistas Veja e Época, que publicitam nesse lugar nobre imagens da série O Mecanismo, produzida pela Netflix. Há aqui uma aproximação intencional de dois campos distintos, o jornalismo e a publicidade, que se torna o tema de uma reflexão de Guilherme Mirage Umeda, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Essa aproximação procura, no fundo, “vantagens para ambas as partes: a revista cria um novo (e nobre) espaço publicitário, ampliando suas fontes potenciais de recursos; a publicidade, por sua vez, vê-se habilitada a operar no espaço de maior visibilidade da revista, além de se beneficiar de uma espécie de sentido do real emprestado pela linguagem jornalística de uma capa”. 

Mas o autor chama a atenção para “o risco da banalização de um espaço editorial tão relevante quanto a capa, a partir de uma invasão enunciativa da publicidade. Não haveria, no emprego desse recurso, uma sobrevalorização do comercial à exposição jornalística do que haveria de mais relevante dentre os assuntos atinentes ao veículo?” 

Guilherme Umeda descreve o procedimento utilizado: 

“Mais do que identificar a revista que se encontra sob o anúncio, o uso de um padrão visual muito próximo àquele de facto utilizado pela revista quer jogar com a verossimilhança, estabelecendo um diálogo tácito entre o mundo conforme descrito (poderíamos até dizer criado) pelo seu conteúdo jornalístico e o seu simulacro.” 

“Na imagem, um mosaico de capas de edições anteriores – todas referentes à Operação Lava Jato ou a suas decorrências – é sobreposta por uma faixa no terço inferior da página. Nela, inscreve-se o título: 'Você já leu muito, está na hora de assistir'. 
Então, abaixo: 'do mesmo criador de Narcos e Tropa de Elite / O Mecanismo / Uma série original Netflix'. Ao lado, o rosto do ator Selton Mello sangra os limites da faixa. Por fim, chega-se no canto inferior direito ao logotipo de Netflix. A divisão entre o mosaico de capas e a faixa é marcada indicialmente pela representação de um rasgo na página.” 

Como afirma, adiante, o autor, “em época de tão acirrada discussão sobre a ‘pós-verdade’, o recurso da sobrecapa publicitária será sempre polémico. Entretanto, os contornos específicos desse caso, no qual se costura o discurso publicitário com uma referência metalinguística ao próprio jornalismo da revista, tornam a situação particularmente problemática.” (...) 

“O título publicitário (‘você já leu muito, está na hora de assistir’) leva a crer que, em substância, o que se lê na revista é o mesmo a que se assiste na série. Ao lidar com tema sensível e passionalizado, O mecanismo evidentemente se cerca, de partida, por polémicas. Porém, o deslocamento dramático da expressão ‘estancar a sangria’ de seu real locutor (Romero Jucá) para outro (João Higino, personagem identificado com Luiz Inácio Lula da Silva), acrescenta carga explosiva à série. As implicações políticas de tal procedimento são óbvias.” (...) 

A concluir, afirma Guilherme Umeda: 

“No fim das contas, confrontamo-nos com duas possibilidades de interpretação desse emaranhado comunicativo: ou há cinismo por parte da produção da série, ao sobrevalorizar a ficcionalização da narrativa no momento em que se vê confrontada com a tendenciosidade política do relato; ou a realidade narrada pelos meios de Imprensa, sugerida como idêntica em conteúdo à série, não passa de ficção. Poderiam ser elementos provocativos na construção estética ou no esforço promocional, mas parecem desastrados em face dos princípios do jornalismo.”

 

O texto citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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