Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Media

A perversão editorial das sobrecapas publicitárias na Imprensa

Tornou-se frequente, em vários meios de comunicação impressos, o uso de uma sobrecapa publicitária que, mantendo o logotipo do órgão em causa, ocupa o resto do espaço com o anúncio de um automóvel, uma vivenda, um relógio caro, qualquer produto que certamente pagou o suficiente pelo privilégio obtido. O caso que aqui citamos passou-se no Brasil (mas também acontece entre nós) com as revistas Veja e Época, que publicitam nesse lugar nobre imagens da série O Mecanismo, produzida pela Netflix. Há aqui uma aproximação intencional de dois campos distintos, o jornalismo e a publicidade, que se torna o tema de uma reflexão de Guilherme Mirage Umeda, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Essa aproximação procura, no fundo, “vantagens para ambas as partes: a revista cria um novo (e nobre) espaço publicitário, ampliando suas fontes potenciais de recursos; a publicidade, por sua vez, vê-se habilitada a operar no espaço de maior visibilidade da revista, além de se beneficiar de uma espécie de sentido do real emprestado pela linguagem jornalística de uma capa”. 

Mas o autor chama a atenção para “o risco da banalização de um espaço editorial tão relevante quanto a capa, a partir de uma invasão enunciativa da publicidade. Não haveria, no emprego desse recurso, uma sobrevalorização do comercial à exposição jornalística do que haveria de mais relevante dentre os assuntos atinentes ao veículo?” 

Guilherme Umeda descreve o procedimento utilizado: 

“Mais do que identificar a revista que se encontra sob o anúncio, o uso de um padrão visual muito próximo àquele de facto utilizado pela revista quer jogar com a verossimilhança, estabelecendo um diálogo tácito entre o mundo conforme descrito (poderíamos até dizer criado) pelo seu conteúdo jornalístico e o seu simulacro.” 

“Na imagem, um mosaico de capas de edições anteriores – todas referentes à Operação Lava Jato ou a suas decorrências – é sobreposta por uma faixa no terço inferior da página. Nela, inscreve-se o título: 'Você já leu muito, está na hora de assistir'. 
Então, abaixo: 'do mesmo criador de Narcos e Tropa de Elite / O Mecanismo / Uma série original Netflix'. Ao lado, o rosto do ator Selton Mello sangra os limites da faixa. Por fim, chega-se no canto inferior direito ao logotipo de Netflix. A divisão entre o mosaico de capas e a faixa é marcada indicialmente pela representação de um rasgo na página.” 

Como afirma, adiante, o autor, “em época de tão acirrada discussão sobre a ‘pós-verdade’, o recurso da sobrecapa publicitária será sempre polémico. Entretanto, os contornos específicos desse caso, no qual se costura o discurso publicitário com uma referência metalinguística ao próprio jornalismo da revista, tornam a situação particularmente problemática.” (...) 

“O título publicitário (‘você já leu muito, está na hora de assistir’) leva a crer que, em substância, o que se lê na revista é o mesmo a que se assiste na série. Ao lidar com tema sensível e passionalizado, O mecanismo evidentemente se cerca, de partida, por polémicas. Porém, o deslocamento dramático da expressão ‘estancar a sangria’ de seu real locutor (Romero Jucá) para outro (João Higino, personagem identificado com Luiz Inácio Lula da Silva), acrescenta carga explosiva à série. As implicações políticas de tal procedimento são óbvias.” (...) 

A concluir, afirma Guilherme Umeda: 

“No fim das contas, confrontamo-nos com duas possibilidades de interpretação desse emaranhado comunicativo: ou há cinismo por parte da produção da série, ao sobrevalorizar a ficcionalização da narrativa no momento em que se vê confrontada com a tendenciosidade política do relato; ou a realidade narrada pelos meios de Imprensa, sugerida como idêntica em conteúdo à série, não passa de ficção. Poderiam ser elementos provocativos na construção estética ou no esforço promocional, mas parecem desastrados em face dos princípios do jornalismo.”

 

O texto citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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