Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
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Sem um jornalismo de qualidade não há antídoto contra a manipulação

A capacidade dos media para assegurarem o futuro da democracia foi posta à prova por grandes rupturas no seu modo de sustento e de funcionamento. É mais fácil fazermos o diagnóstico do que o prognóstico  -  e mais difícil ainda pormo-nos de acordo sobre a terapêutica. A jornalista britânica Emily Bell, docente na Universidade de Columbia, EUA, é aqui entrevistada pelo norueguês Anders Hofseth, editor da NRKbeta, sobre a viabilidade económica dos media e o serviço que prestam. Há um ponto em que Emily Bell declara que não mudou o seu pensamento, desde o tempo em que tinha responsabilidades editoriais em The Guardian: é que “temos de fazer um jornalismo de elevada qualidade acessível a toda a gente”.

A introdução da entrevista, por Anders Hofseth, recorda os caminhos que foram tentados depois de a publicidade que sustentava os media tradicionais ter sido capturada pelas grandes plataformas tecnológicas: 

“O crescimento dos modelos por assinatura e paywall começou a trazer dinheiro fresco a algumas empresas de media, mas os que não se tornam assinantes de meios jornalísticos podem ficar pior. Já não se trata de escolher o exemplar de um jornal num quiosque; uma indústria de jornalismo baseada na paywall limita a informação àqueles que podem fazer um compromisso financeiro a longo termo, que habitualmente implica a revelação de dados pessoais. E esses dados tornaram-se uma mercadoria, que pode ser usada para atingir qualquer coisa, desde a publicidade até à manipulação política.” (...) 

Emily Bell preocupa-se com o facto de “estarmos a entrar num período em que as mensagens que recebemos são ajustadas individualmente, e já não temos acesso à mesma informação”. De certo modo, é o que vimos no ciclo eleitoral de 2016: 

“Determinadas pessoas recebendo determinadas mensagens, e outras recebendo diferentes, e sem sabermos de onde vêm, quem as produz, e sem qualquer transparência.” 

“Somos levados a sentir de determinado modo pelos media que consumimos, e não é um fenómeno orgânico, cultural, mas um fenómeno político altamente manipulado. Se não tivermos um jornalismo de alta qualidade, livre [ou: grátis – free, no original], não temos antídoto; realmente não temos antídoto.” (...) 

“O ponto em que me enganei completamente é que eu pensava que a publicidade ia ser muito mais durável. Acho que ninguém previu realmente a escala, ou o ritmo a que o mercado da publicidade ia mudar sob o Facebook.” (...) 

“Estive em vários países no ano passado, incluindo a Noruega, a Suíça e a Coreia do Sul. Cada mercado parece estar a sofrer exactamente o mesmo trauma, que é: ‘Vocês não têm dimensão suficiente na Web, simplesmente não têm dimensão suficiente.’ A escala destruiu o modelo de negócio e isso não vai voltar.” 

“O jornalismo é duro [news is hard, no original], não é barato de produzir, e precisa de ser consistente. São necessárias certas coisas para [fazer] reportagens de grande horizonte, equipas de pessoas  - talvez mesmo gerações de pessoas -  para as compreenderem e continuarem a segui-las. Essa sustentabilidade veio sempre de uma mistura do público e do privado.” 

“Quando pensamos nas instituições que contêm isto, talvez seja perfeitamente sensato que as pessoas digam que o jornalismo lucrativo, no pós-guerra, foi um pequeno ponto. Não fazia dinheiro antes, e não fez dinheiro durante vários anos. Talvez tenhamos visto 50 anos em que ele deu dinheiro. Agora isso está a chegar ao fim, e não podemos esperar que essas funções sejam realmente lucrativas.” (...) 

Interrogada sobre o papel do serviço público nesta matéria, Emily Bell responde: 

“Qualquer pessoa no jornalismo de serviço público vai trabalhar todos os dias com a missão de informar os cidadãos do seu país, e tentar chegar a todos. Mesmo às pessoas que não podem pagar, mesmo às pessoas que não acham necessariamente que precisam de notícias, ou pessoas que ficaram fora do processo de decisão porque não encaixam no perfil sócio-demográfico que significa que seriam normalmente incluídas.” 

“Para mim, neste preciso momento, não há quase nada mais importante do que termos media robustos, de serviço público, acessíveis aos cidadãos.” 

“Eu penso que as emissoras de serviço público podem fazer qualquer coisa porque têm longevidade e segurança de financiamento. Mas nem sempre são tão imaginativas como precisávamos que fossem, neste tempo particular.” (...) 

Respondendo à pergunta sobre se há um modelo financeiro viável, a longo prazo, para meios de comunicação comerciais, afirma Emily Bell: 

“Penso que há um modelo financeiro muito viável, a longo prazo, para meios de comunicação comerciais. Mas não penso necessariamente que isso se aplique de modo directo ao jornalismo.” (...) 

“Penso que vemos agora algumas empresas de jornalismo generalista tornando-se mais sustentáveis por meio de receitas vindas dos leitores, e isso é claramente um modelo para várias delas.” 

“Não sabemos ainda muito sobre os mecanismos de pagamento, como vão desenvolver-se e o que é que as pessoas irão pagar. Assim, não penso que haja um modelo viável, sustentado pela publicidade, para um jornalismo de graça [free journalism, no original]  -  simplesmente não há. E não vai acontecer.” 

“E se ainda vier a acontecer, não vai ser nos próximos anos. Muitos dos sites nativos-digitais que vivem no ecossistema social têm passado por tempos terríveis. Muito piores do que quase todos os outros, incluindo os media tradicionais.” (...) 

“Neste momento, penso que os media de serviço público têm o papel mais importante a desempenhar do que tiveram em qualquer momento desde o fim da II Guerra Mundial.” 

“Na América, não estamos tão atentos aos factos das grandes guerras na Europa. Foi a I Guerra Mundial que realmente causou a formação da BBC. Estávamos num período incrivelmente inseguro da política global, que era ameaçador, perigoso e assustador para a maioria das pessoas.” (...) 

“Agora, isto não quer dizer que a BBC não deva nunca ser reformada. Mas devia ser reformada de um modo que seja eficiente para a população, e não de um modo que vá beneficiar os meios comerciais à frente dos meios de serviço público.” (...)

 

A entrevista citada, na íntegra, no NiemanLab, cuja imagem  - obtida pelo entrevistador, Anders Hofseth -  aqui incluímos

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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