Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
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Debate sobre “notícias falsas” espicaçou os jornalistas...

A discussão pública sobre as “notícias falsas” veio espicaçar os jornalistas, e “os profissionais e as organizações passaram a debater rigor na apuração, verificação de versões e técnicas para qualificarem suas notícias”. Por este motivo, Rogério Christofoletti, docente e pesquisador do ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística do Brasil, chegou a dizer que as fake news “não eram uma coisa tão ruim para o jornalismo, pois nos obrigaram a pensar nossas próprias práticas”.

“Mas passados poucos meses desse diagnóstico, vejo que o combate às notícias falsas corre riscos sérios e eles vêm justamente de quem menos se esperaria, aqueles que declararam guerra às fake news.” O autor, que citamos do original do “Comentário da Semana” do ObjEthos, aponta “alguma hesitação em enfrentar o problema e doses generosas de hipocrisia e marketing a envolver certas iniciativas”. Como exemplo contrário, lembra que “o serviço de verificação do Washington Post tem uma escala de um a quatro Pinóquios para classificar o grau de falsidade dos conteúdos!

Rogério Christofoletti aponta ao dedo às vulnerabilidades de várias iniciativas lançadas no seu país, reconhecendo que podem ser projectos bem intencionados, “com profissionais comprometidos e com nítido interesse público”, mas fragilizados à partida, ou por falta de base financeira, ou por ausência de uma definição clara de que determinada notícia é mentirosa. 

Num dos casos citados, o projecto de fact-checking “Prova Real”, no Estado de Santa Catarina, lamenta que, “no final das checagens, o Prova Real reproduz o contraponto de quem foi checado. Assim, a última palavra não fica com a equipa checadora, mas com a fonte cuja declaração foi questionada”. (...) 

E afirma, mais adiante:

“Se estamos mesmo em guerra contra as notícias falsas, hesitação, receio, medo ou ‘bom-mocismo’ não vão nos ajudar a vencê-las. As dificuldades são muitas para quem quer soterrar informações erróneas e fazer prevalecer as que têm correspondência com factos e dados.”

“Notem que a própria noção de fake news é complicada, e vem sendo revista por quem se dedica a pensar sobre o assunto. Claire Wardle, do First Draft, critica a expressão, dizendo que ela não dá conta da variedade e complexidade do fenómeno: não são apenas notícias falsas, há paródias e outras formas de manipulação. Por isso, ela aponta para o que chama de ‘ecossistema de desinfirmação’.”  

“O jornalista britânico James Ball, autor de Post-Truth: how bullshit conquered the world (Pós-verdade: como a besteira conquistou o mundo), evita a expressão fake news e adota bullshit, que poderíamos traduzir como besteira, bobagem, e que sinaliza para algo além das mentiras e boatos. Segundo Ball, não são apenas os políticos a espalharem o lixo por aí. Os velhos media, os novos media, empresas especializadas em produzir material enganoso, redes sociais, plataformas digitais, pessoas comuns, todos ajudam a borrar as fronteiras entre verdadeiro e falso. E serviços de checagem de dados, sozinhos, não solucionarão a questão.” (...) 

“Neste sentido, eu vejo com muita desconfiança quando iniciativas de fact-checking ou de promoção de qualidade jornalística são patrocinadas por gigantes da tecnologia, como Facebook e Google. Faz parte do modelo de negócio dessas plataformas gerar, impulsionar e fazer circular os conteúdos com alto potencial viralizante, não importando se eles são verdadeiros, ambíguos ou falsos. Quantos mais cliques, melhor. Quanto mais reacções e compartilhamentos, maior o alcance desses materiais, mais pessoas terão acesso aos seus conteúdos, e a grande roda estará girando, distribuindo centavos aqui e ali.” (...)

“Sejamos francos: plataformas como Facebook e Google não querem acabar com as fake news. Se quisessem, estimulariam conteúdos de qualidade em detrimento de falsidades, mas não fazem isso porque fake news e bizarrices são mais virais que matérias jornalísticas ou informativas.” 

“Se quisessem acabar com as fake news, as plataformas restringiriam a dispersão indiscriminada e mudariam seus próprios modelos de negócio, abrindo mão das vantagens financeiras vindas da publicidade mentirosa, da confusão, das manipulações e apelações. Em outras palavras: elas se beneficiam com as besteiras, com a desinformação.”  (...) 

E a concluir:

“A declarada guerra contra as notícias falsas exige mais de profissionais e organizações jornalísticas. Se quiserem mesmo se contrapor ao ecossistema de desinformação, precisarão capacitar equipas, aprimorar procedimentos de apuração, contratar jornalistas especializados e desenvolver ferramentas e sistemas próprios para desmentir e desmascarar falsidades. Precisarão assumir o protagonismo de certificação dos factos, refinando seus critérios editoriais e investindo maciçamente em coberturas de qualidade. Não poderão terceirizar suas funções mais básicas de verificação e checagem.” 

“Terão que afastar o medo, o marketing e a hipocrisia, e eleger a coragem e o compromisso com o público para produzir jornalismo de qualidade nítida e cristalina. É só a credibilidade do sistema jornalístico que está em jogo. Só.”

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, em ObjEthos, cuja ilustração também reproduzimos

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Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

Expressiva manifestação em Bratislava evocando jornalista morto Ver galeria
“Esperamos respostas tão breve quanto possível, porque ainda há muitas questões”  - afirmou.
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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