Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
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Debate sobre “notícias falsas” espicaçou os jornalistas...

A discussão pública sobre as “notícias falsas” veio espicaçar os jornalistas, e “os profissionais e as organizações passaram a debater rigor na apuração, verificação de versões e técnicas para qualificarem suas notícias”. Por este motivo, Rogério Christofoletti, docente e pesquisador do ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística do Brasil, chegou a dizer que as fake news “não eram uma coisa tão ruim para o jornalismo, pois nos obrigaram a pensar nossas próprias práticas”.

“Mas passados poucos meses desse diagnóstico, vejo que o combate às notícias falsas corre riscos sérios e eles vêm justamente de quem menos se esperaria, aqueles que declararam guerra às fake news.” O autor, que citamos do original do “Comentário da Semana” do ObjEthos, aponta “alguma hesitação em enfrentar o problema e doses generosas de hipocrisia e marketing a envolver certas iniciativas”. Como exemplo contrário, lembra que “o serviço de verificação do Washington Post tem uma escala de um a quatro Pinóquios para classificar o grau de falsidade dos conteúdos!

Rogério Christofoletti aponta ao dedo às vulnerabilidades de várias iniciativas lançadas no seu país, reconhecendo que podem ser projectos bem intencionados, “com profissionais comprometidos e com nítido interesse público”, mas fragilizados à partida, ou por falta de base financeira, ou por ausência de uma definição clara de que determinada notícia é mentirosa. 

Num dos casos citados, o projecto de fact-checking “Prova Real”, no Estado de Santa Catarina, lamenta que, “no final das checagens, o Prova Real reproduz o contraponto de quem foi checado. Assim, a última palavra não fica com a equipa checadora, mas com a fonte cuja declaração foi questionada”. (...) 

E afirma, mais adiante:

“Se estamos mesmo em guerra contra as notícias falsas, hesitação, receio, medo ou ‘bom-mocismo’ não vão nos ajudar a vencê-las. As dificuldades são muitas para quem quer soterrar informações erróneas e fazer prevalecer as que têm correspondência com factos e dados.”

“Notem que a própria noção de fake news é complicada, e vem sendo revista por quem se dedica a pensar sobre o assunto. Claire Wardle, do First Draft, critica a expressão, dizendo que ela não dá conta da variedade e complexidade do fenómeno: não são apenas notícias falsas, há paródias e outras formas de manipulação. Por isso, ela aponta para o que chama de ‘ecossistema de desinfirmação’.”  

“O jornalista britânico James Ball, autor de Post-Truth: how bullshit conquered the world (Pós-verdade: como a besteira conquistou o mundo), evita a expressão fake news e adota bullshit, que poderíamos traduzir como besteira, bobagem, e que sinaliza para algo além das mentiras e boatos. Segundo Ball, não são apenas os políticos a espalharem o lixo por aí. Os velhos media, os novos media, empresas especializadas em produzir material enganoso, redes sociais, plataformas digitais, pessoas comuns, todos ajudam a borrar as fronteiras entre verdadeiro e falso. E serviços de checagem de dados, sozinhos, não solucionarão a questão.” (...) 

“Neste sentido, eu vejo com muita desconfiança quando iniciativas de fact-checking ou de promoção de qualidade jornalística são patrocinadas por gigantes da tecnologia, como Facebook e Google. Faz parte do modelo de negócio dessas plataformas gerar, impulsionar e fazer circular os conteúdos com alto potencial viralizante, não importando se eles são verdadeiros, ambíguos ou falsos. Quantos mais cliques, melhor. Quanto mais reacções e compartilhamentos, maior o alcance desses materiais, mais pessoas terão acesso aos seus conteúdos, e a grande roda estará girando, distribuindo centavos aqui e ali.” (...)

“Sejamos francos: plataformas como Facebook e Google não querem acabar com as fake news. Se quisessem, estimulariam conteúdos de qualidade em detrimento de falsidades, mas não fazem isso porque fake news e bizarrices são mais virais que matérias jornalísticas ou informativas.” 

“Se quisessem acabar com as fake news, as plataformas restringiriam a dispersão indiscriminada e mudariam seus próprios modelos de negócio, abrindo mão das vantagens financeiras vindas da publicidade mentirosa, da confusão, das manipulações e apelações. Em outras palavras: elas se beneficiam com as besteiras, com a desinformação.”  (...) 

E a concluir:

“A declarada guerra contra as notícias falsas exige mais de profissionais e organizações jornalísticas. Se quiserem mesmo se contrapor ao ecossistema de desinformação, precisarão capacitar equipas, aprimorar procedimentos de apuração, contratar jornalistas especializados e desenvolver ferramentas e sistemas próprios para desmentir e desmascarar falsidades. Precisarão assumir o protagonismo de certificação dos factos, refinando seus critérios editoriais e investindo maciçamente em coberturas de qualidade. Não poderão terceirizar suas funções mais básicas de verificação e checagem.” 

“Terão que afastar o medo, o marketing e a hipocrisia, e eleger a coragem e o compromisso com o público para produzir jornalismo de qualidade nítida e cristalina. É só a credibilidade do sistema jornalístico que está em jogo. Só.”

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, em ObjEthos, cuja ilustração também reproduzimos

Connosco
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Em Outubro de 2017, a jornalista Daphne Caruana Galizia, que investigava as ligações políticas perigosas da corrupção na ilha de Malta, foi morta num atentado à bomba. Hoje, uma equipa de 45 jornalistas, de 18 órgãos de comunicação de todo o mundo, está a trabalhar no Projecto Daphne, uma série de artigos que possam completar a sua investigação. Este projecto inscreve-se na missão de Forbidden Stories, cujo fundador, o realizador francês Laurent Richard, reafirmou em artigo recente em The Guardian: “Vocês mataram o mesageiro, mas não conseguirão matar a mensagem.”

Jornalismo de investigação é a melhor arma contra a propaganda Ver galeria

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site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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