Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Fórum

Debate sobre “notícias falsas” espicaçou os jornalistas...

A discussão pública sobre as “notícias falsas” veio espicaçar os jornalistas, e “os profissionais e as organizações passaram a debater rigor na apuração, verificação de versões e técnicas para qualificarem suas notícias”. Por este motivo, Rogério Christofoletti, docente e pesquisador do ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística do Brasil, chegou a dizer que as fake news “não eram uma coisa tão ruim para o jornalismo, pois nos obrigaram a pensar nossas próprias práticas”.

“Mas passados poucos meses desse diagnóstico, vejo que o combate às notícias falsas corre riscos sérios e eles vêm justamente de quem menos se esperaria, aqueles que declararam guerra às fake news.” O autor, que citamos do original do “Comentário da Semana” do ObjEthos, aponta “alguma hesitação em enfrentar o problema e doses generosas de hipocrisia e marketing a envolver certas iniciativas”. Como exemplo contrário, lembra que “o serviço de verificação do Washington Post tem uma escala de um a quatro Pinóquios para classificar o grau de falsidade dos conteúdos!

Rogério Christofoletti aponta ao dedo às vulnerabilidades de várias iniciativas lançadas no seu país, reconhecendo que podem ser projectos bem intencionados, “com profissionais comprometidos e com nítido interesse público”, mas fragilizados à partida, ou por falta de base financeira, ou por ausência de uma definição clara de que determinada notícia é mentirosa. 

Num dos casos citados, o projecto de fact-checking “Prova Real”, no Estado de Santa Catarina, lamenta que, “no final das checagens, o Prova Real reproduz o contraponto de quem foi checado. Assim, a última palavra não fica com a equipa checadora, mas com a fonte cuja declaração foi questionada”. (...) 

E afirma, mais adiante:

“Se estamos mesmo em guerra contra as notícias falsas, hesitação, receio, medo ou ‘bom-mocismo’ não vão nos ajudar a vencê-las. As dificuldades são muitas para quem quer soterrar informações erróneas e fazer prevalecer as que têm correspondência com factos e dados.”

“Notem que a própria noção de fake news é complicada, e vem sendo revista por quem se dedica a pensar sobre o assunto. Claire Wardle, do First Draft, critica a expressão, dizendo que ela não dá conta da variedade e complexidade do fenómeno: não são apenas notícias falsas, há paródias e outras formas de manipulação. Por isso, ela aponta para o que chama de ‘ecossistema de desinfirmação’.”  

“O jornalista britânico James Ball, autor de Post-Truth: how bullshit conquered the world (Pós-verdade: como a besteira conquistou o mundo), evita a expressão fake news e adota bullshit, que poderíamos traduzir como besteira, bobagem, e que sinaliza para algo além das mentiras e boatos. Segundo Ball, não são apenas os políticos a espalharem o lixo por aí. Os velhos media, os novos media, empresas especializadas em produzir material enganoso, redes sociais, plataformas digitais, pessoas comuns, todos ajudam a borrar as fronteiras entre verdadeiro e falso. E serviços de checagem de dados, sozinhos, não solucionarão a questão.” (...) 

“Neste sentido, eu vejo com muita desconfiança quando iniciativas de fact-checking ou de promoção de qualidade jornalística são patrocinadas por gigantes da tecnologia, como Facebook e Google. Faz parte do modelo de negócio dessas plataformas gerar, impulsionar e fazer circular os conteúdos com alto potencial viralizante, não importando se eles são verdadeiros, ambíguos ou falsos. Quantos mais cliques, melhor. Quanto mais reacções e compartilhamentos, maior o alcance desses materiais, mais pessoas terão acesso aos seus conteúdos, e a grande roda estará girando, distribuindo centavos aqui e ali.” (...)

“Sejamos francos: plataformas como Facebook e Google não querem acabar com as fake news. Se quisessem, estimulariam conteúdos de qualidade em detrimento de falsidades, mas não fazem isso porque fake news e bizarrices são mais virais que matérias jornalísticas ou informativas.” 

“Se quisessem acabar com as fake news, as plataformas restringiriam a dispersão indiscriminada e mudariam seus próprios modelos de negócio, abrindo mão das vantagens financeiras vindas da publicidade mentirosa, da confusão, das manipulações e apelações. Em outras palavras: elas se beneficiam com as besteiras, com a desinformação.”  (...) 

E a concluir:

“A declarada guerra contra as notícias falsas exige mais de profissionais e organizações jornalísticas. Se quiserem mesmo se contrapor ao ecossistema de desinformação, precisarão capacitar equipas, aprimorar procedimentos de apuração, contratar jornalistas especializados e desenvolver ferramentas e sistemas próprios para desmentir e desmascarar falsidades. Precisarão assumir o protagonismo de certificação dos factos, refinando seus critérios editoriais e investindo maciçamente em coberturas de qualidade. Não poderão terceirizar suas funções mais básicas de verificação e checagem.” 

“Terão que afastar o medo, o marketing e a hipocrisia, e eleger a coragem e o compromisso com o público para produzir jornalismo de qualidade nítida e cristalina. É só a credibilidade do sistema jornalístico que está em jogo. Só.”

 

 

O texto aqui citado, na íntegra, em ObjEthos, cuja ilustração também reproduzimos

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...