Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Ser mulher, "Jornalista do mês" e viver em Cachemira

Cachemira é um território disputado entre a Índia e o Paquistão, e Raihana Maqbool, que foi nomeada a “Jornalista do mês” pela IJNet – International Journalists’ Network, descreve as difíceis condições de trabalho que ali são frequentes. Residindo no sector de administração Indiana da Cachemira, conta que, desde que aconteça qualquer coisa como alguém ser morto, ou haver actividade de militantes, a Internet é imediatamente encerrada. Nesse caso, Raihana não pode enviar uma mensagem aos seus editores no Global Press Journal, não pode mandar um artigo, não pode contactar as suas fontes. Em 2016, a Internet chegou a estar bloqueada durante vários meses.

Raihana Maqbool estudou Jornalismo e produção multimédia e tirou depois um mestrado em Jornalismo e Comunicação de Massas. Trabalhou em The Better India, na Radio Kashmir e no Hindustan Times antes de se tornar colaboradora regular do Global Press Journal

Entrevistada pela IJNet, começa por declarar que não se encontram ali muitos jornalistas: 

“Somos muito poucos. E os que trabalham, por vezes acabam por deixar este emprego. Se estivermos a trabalhar para os jornais locais, o salário é muito pequeno. As mulheres ficam desanimadas, porque ganham menos do que os homens. De modo que saem.” (...) 

Sempre que acontece um conflito, as pessoas aparecem e perguntam: “O que está aqui a fazer?” 

“Tornam-se muito protectoras, mas aquilo que não compreendem é que eu estou apenas a fazer o meu trabalho. Sempre que há máquinas fotográficas  - desde que ouçam um click -  as pessoas rodeiam-nos e perguntam: ‘O que está a fazer?’ Isso acontece habitualmente com mulheres jornalistas na Cachemira.” 

Respondendo à pergunta sobre alguma reportagem que a tenha marcado mais, Raihana lembra-se de uma barragem cuja construção está planeada para uma área remota da Cachemira, o distrito de Kishtar. 

“É uma história que me toca muito, porque a barragem que vai ser construída vai deslocar as pessoas de lá. Não é só uma pequena aldeia, são muitas pequenas aldeias nesta área, que vão ser desalojadas. E as pessoas são pobres, não podem ir para outro lugar ou construir casas.” 

Sobre que conselho daria a jovens que queiram ser jornalistas, diz que o mais importante é ter “paixão” por este trabalho: 

“Eu diria aos jovens que se querem tornar jornalistas que comecem cedo. Façam estágios, comecem a escrever, comecem a fotografar  - comecem cedo para ganharem experiência. E claro, paixão é aquilo que nos faz andar.” (...)

 

A hitsória de Raihana Maqbool, na International Journalists’ Network e a sua coluna no Global Press Journal

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
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