Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Media

Os equívocos e o risco dos Media se tornarem Twitter-dependentes

Os órgãos de comunicação, nos Estados Unidos, tornaram-se Twitter – dependentes. Passaram a incluir tweets no texto da reportagem, com o objectivo de ilustrar o tema tratado com as opiniões das “pessoas vulgares”. O problema é que, com a comunicação digital no ponto a que chegou, podem não ser “vulgares” nem sequer “pessoas”, mas sim produtos saídos das “fábricas de trolls” já referenciadas.

No fundo, trata-se da versão digital de uma coisa que se faz há muito tempo no jornalismo  - e de que a televisão abusa -  procurando pessoas ao acaso na rua, sempre na esperança de apanhar boas frases que transportem a autoridade da vox populi. Pode correr mal, e não ser verdadeiramente representativo da opinião pública, como explica a investigadora canadiana Heidi Tworek, docente na Universidade de British Columbia.

A autora começa por assinalar que um estudo realizado por investigadores da Universidade de Madison-Wisconsin revelou que 32, em 33 grandes empresas de comunicação, tinham inserido tweets criados pela Internet Research Agency, uma organização com sede em S. Petersburgo, apoiada por cidadãos russos com ligações a Vladimir Putin. Os meios [que o fizeram] incluem títulos como os da NPR – National Public Radio e o jornal The Washington Post, até aos “nativos” digitais BuzzFeed e Salon

A vox populi, como agora a inclusão dos tweets, foi sempre vista como “uma prática problemática”: 

“Mesmo no melhor dos casos, a vox populi fornece versões ditorcidas da realidade, dando destaque a umas poucas vozes em detrimento de outras e promovendo uma falsa equivalência. Mas os media desenvolveram, nos anos 70, algumas regras informais sobre quem entrevistar na rua, e como. As redacções de hoje podiam aprender  - e melhorar -  a partir destas normas anteriores.” (...) 

Heidi Tworek recorda que mesmo a UNESCO incluíu práticas deste tipo de vox populi nos seus manuais de jornalismo para países em desenvolvimento, em meados dos anos 80: 

“Era suposto que os jornalistas que as usavam encontravam opiniões opostas sobre um assunto e incluíam um vasto leque de idades e géneros  -  mas nunca foi entendido que isso constituía uma amostra representativa. A vox populi era o oposto de um questionário científico procurando respostas estruturadas e comparáveis. Em vez disso, os repórteres procuravam soundbites expressivos vindos de cenários do quotidiano como as ruas, centros comerciais ou parques públicos. Como prevenia a UNESCO, dirigindo-se a candidatos a jornalistas: ‘O que vocês querem são boas citações, e as perguntas devem ser formuladas de modo aberto, para as encorajar’.” 

As normas da BBC sobre este método, publicadas em 2014, sublinhavam que “a vox populi é uma ferramenta de ilustração, NÃO é uma ferramenta de pesquisa”. (...) 

O seu abuso, especialmente em transmissões de rádio e televisão, torna-se “um modo de preencher tempo numa emissão”. 

“E pelo facto de incluir, geralmente, visões opostas sobre qualquer assunto, este género é frequentemente acusado de propor uma falsa equivalência, como na cobertura feita pelos media durante as eleições presidenciais de 2016 [nos EUA]. Pode também promover uma reportagem preguiçosa, quando os jornalistas utilizam pessoas na rua em vez de fontes bem informadas.” (...) 

A inserção de tweets serve frequentemente o mesmo propósito nas reportagens online. A autora do artigo que citamos adverte que a identidade dos tweeters pode ser facilmente “fabricada” e que a transcrição de um tweet com muitos reenvios e respostas dá a ideia de um grande número de concordâncias, que pode ser manipulado por robots informáticos. 

“Se os sites noticiosos querem preservar o aspecto dos tweets, mais valia incluírem capturas de ecrã removendo a parte das respostas, partilhas e favoritos. O Financial Times começou a mostrar os tweets deste modo, só com o texto.” 

“A vox populi tinha os seus problemas. Mas pelo menos apresentava pessoas reais. Já é tempo de os media trazerem os humanos de volta  - e aplicarem regras sobre o modo de garantirem que são reais.” 

 

O texto original na íntegra, na Columbia Journalism Review

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Um fotojornalista português, Mário Cruz, da Agência Lusa, figura entre os nomeados para o World Press Photo 2019, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, cuja identidade e trabalhos a concurso foram agora conhecidos. A Fundação organizadora introduziu também uma nova categoria a ser premiada, a História do Ano, destinada a “fotógrafos cuja criatividade e habilidades visuais produziram uma história com excelente edição e sequenciamento, que captura ou representa um evento ou assunto de grande importância jornalística”.

A imagem de Mário Cruz, intitulada “Viver entre o que foi deixado para trás”, mostra uma criança recolhendo material reciclável, deitada num colchão cercado por lixo, enquanto flutua no rio Pasig, em Manila, nas Filipinas.

Os vencedores do concurso serão conhecidos na cerimónia marcada para 11 de Abril, em Amesterdão, na Holanda.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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