Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Media

Os equívocos e o risco dos Media se tornarem Twitter-dependentes

Os órgãos de comunicação, nos Estados Unidos, tornaram-se Twitter – dependentes. Passaram a incluir tweets no texto da reportagem, com o objectivo de ilustrar o tema tratado com as opiniões das “pessoas vulgares”. O problema é que, com a comunicação digital no ponto a que chegou, podem não ser “vulgares” nem sequer “pessoas”, mas sim produtos saídos das “fábricas de trolls” já referenciadas.

No fundo, trata-se da versão digital de uma coisa que se faz há muito tempo no jornalismo  - e de que a televisão abusa -  procurando pessoas ao acaso na rua, sempre na esperança de apanhar boas frases que transportem a autoridade da vox populi. Pode correr mal, e não ser verdadeiramente representativo da opinião pública, como explica a investigadora canadiana Heidi Tworek, docente na Universidade de British Columbia.

A autora começa por assinalar que um estudo realizado por investigadores da Universidade de Madison-Wisconsin revelou que 32, em 33 grandes empresas de comunicação, tinham inserido tweets criados pela Internet Research Agency, uma organização com sede em S. Petersburgo, apoiada por cidadãos russos com ligações a Vladimir Putin. Os meios [que o fizeram] incluem títulos como os da NPR – National Public Radio e o jornal The Washington Post, até aos “nativos” digitais BuzzFeed e Salon

A vox populi, como agora a inclusão dos tweets, foi sempre vista como “uma prática problemática”: 

“Mesmo no melhor dos casos, a vox populi fornece versões ditorcidas da realidade, dando destaque a umas poucas vozes em detrimento de outras e promovendo uma falsa equivalência. Mas os media desenvolveram, nos anos 70, algumas regras informais sobre quem entrevistar na rua, e como. As redacções de hoje podiam aprender  - e melhorar -  a partir destas normas anteriores.” (...) 

Heidi Tworek recorda que mesmo a UNESCO incluíu práticas deste tipo de vox populi nos seus manuais de jornalismo para países em desenvolvimento, em meados dos anos 80: 

“Era suposto que os jornalistas que as usavam encontravam opiniões opostas sobre um assunto e incluíam um vasto leque de idades e géneros  -  mas nunca foi entendido que isso constituía uma amostra representativa. A vox populi era o oposto de um questionário científico procurando respostas estruturadas e comparáveis. Em vez disso, os repórteres procuravam soundbites expressivos vindos de cenários do quotidiano como as ruas, centros comerciais ou parques públicos. Como prevenia a UNESCO, dirigindo-se a candidatos a jornalistas: ‘O que vocês querem são boas citações, e as perguntas devem ser formuladas de modo aberto, para as encorajar’.” 

As normas da BBC sobre este método, publicadas em 2014, sublinhavam que “a vox populi é uma ferramenta de ilustração, NÃO é uma ferramenta de pesquisa”. (...) 

O seu abuso, especialmente em transmissões de rádio e televisão, torna-se “um modo de preencher tempo numa emissão”. 

“E pelo facto de incluir, geralmente, visões opostas sobre qualquer assunto, este género é frequentemente acusado de propor uma falsa equivalência, como na cobertura feita pelos media durante as eleições presidenciais de 2016 [nos EUA]. Pode também promover uma reportagem preguiçosa, quando os jornalistas utilizam pessoas na rua em vez de fontes bem informadas.” (...) 

A inserção de tweets serve frequentemente o mesmo propósito nas reportagens online. A autora do artigo que citamos adverte que a identidade dos tweeters pode ser facilmente “fabricada” e que a transcrição de um tweet com muitos reenvios e respostas dá a ideia de um grande número de concordâncias, que pode ser manipulado por robots informáticos. 

“Se os sites noticiosos querem preservar o aspecto dos tweets, mais valia incluírem capturas de ecrã removendo a parte das respostas, partilhas e favoritos. O Financial Times começou a mostrar os tweets deste modo, só com o texto.” 

“A vox populi tinha os seus problemas. Mas pelo menos apresentava pessoas reais. Já é tempo de os media trazerem os humanos de volta  - e aplicarem regras sobre o modo de garantirem que são reais.” 

 

O texto original na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
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