Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
Media

Os equívocos e o risco dos Media se tornarem Twitter-dependentes

Os órgãos de comunicação, nos Estados Unidos, tornaram-se Twitter – dependentes. Passaram a incluir tweets no texto da reportagem, com o objectivo de ilustrar o tema tratado com as opiniões das “pessoas vulgares”. O problema é que, com a comunicação digital no ponto a que chegou, podem não ser “vulgares” nem sequer “pessoas”, mas sim produtos saídos das “fábricas de trolls” já referenciadas.

No fundo, trata-se da versão digital de uma coisa que se faz há muito tempo no jornalismo  - e de que a televisão abusa -  procurando pessoas ao acaso na rua, sempre na esperança de apanhar boas frases que transportem a autoridade da vox populi. Pode correr mal, e não ser verdadeiramente representativo da opinião pública, como explica a investigadora canadiana Heidi Tworek, docente na Universidade de British Columbia.

A autora começa por assinalar que um estudo realizado por investigadores da Universidade de Madison-Wisconsin revelou que 32, em 33 grandes empresas de comunicação, tinham inserido tweets criados pela Internet Research Agency, uma organização com sede em S. Petersburgo, apoiada por cidadãos russos com ligações a Vladimir Putin. Os meios [que o fizeram] incluem títulos como os da NPR – National Public Radio e o jornal The Washington Post, até aos “nativos” digitais BuzzFeed e Salon

A vox populi, como agora a inclusão dos tweets, foi sempre vista como “uma prática problemática”: 

“Mesmo no melhor dos casos, a vox populi fornece versões ditorcidas da realidade, dando destaque a umas poucas vozes em detrimento de outras e promovendo uma falsa equivalência. Mas os media desenvolveram, nos anos 70, algumas regras informais sobre quem entrevistar na rua, e como. As redacções de hoje podiam aprender  - e melhorar -  a partir destas normas anteriores.” (...) 

Heidi Tworek recorda que mesmo a UNESCO incluíu práticas deste tipo de vox populi nos seus manuais de jornalismo para países em desenvolvimento, em meados dos anos 80: 

“Era suposto que os jornalistas que as usavam encontravam opiniões opostas sobre um assunto e incluíam um vasto leque de idades e géneros  -  mas nunca foi entendido que isso constituía uma amostra representativa. A vox populi era o oposto de um questionário científico procurando respostas estruturadas e comparáveis. Em vez disso, os repórteres procuravam soundbites expressivos vindos de cenários do quotidiano como as ruas, centros comerciais ou parques públicos. Como prevenia a UNESCO, dirigindo-se a candidatos a jornalistas: ‘O que vocês querem são boas citações, e as perguntas devem ser formuladas de modo aberto, para as encorajar’.” 

As normas da BBC sobre este método, publicadas em 2014, sublinhavam que “a vox populi é uma ferramenta de ilustração, NÃO é uma ferramenta de pesquisa”. (...) 

O seu abuso, especialmente em transmissões de rádio e televisão, torna-se “um modo de preencher tempo numa emissão”. 

“E pelo facto de incluir, geralmente, visões opostas sobre qualquer assunto, este género é frequentemente acusado de propor uma falsa equivalência, como na cobertura feita pelos media durante as eleições presidenciais de 2016 [nos EUA]. Pode também promover uma reportagem preguiçosa, quando os jornalistas utilizam pessoas na rua em vez de fontes bem informadas.” (...) 

A inserção de tweets serve frequentemente o mesmo propósito nas reportagens online. A autora do artigo que citamos adverte que a identidade dos tweeters pode ser facilmente “fabricada” e que a transcrição de um tweet com muitos reenvios e respostas dá a ideia de um grande número de concordâncias, que pode ser manipulado por robots informáticos. 

“Se os sites noticiosos querem preservar o aspecto dos tweets, mais valia incluírem capturas de ecrã removendo a parte das respostas, partilhas e favoritos. O Financial Times começou a mostrar os tweets deste modo, só com o texto.” 

“A vox populi tinha os seus problemas. Mas pelo menos apresentava pessoas reais. Já é tempo de os media trazerem os humanos de volta  - e aplicarem regras sobre o modo de garantirem que são reais.” 

 

O texto original na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
As “Histórias Proibidas” dos jornalistas assassinados voltam a ser lidas Ver galeria

Em Outubro de 2017, a jornalista Daphne Caruana Galizia, que investigava as ligações políticas perigosas da corrupção na ilha de Malta, foi morta num atentado à bomba. Hoje, uma equipa de 45 jornalistas, de 18 órgãos de comunicação de todo o mundo, está a trabalhar no Projecto Daphne, uma série de artigos que possam completar a sua investigação. Este projecto inscreve-se na missão de Forbidden Stories, cujo fundador, o realizador francês Laurent Richard, reafirmou em artigo recente em The Guardian: “Vocês mataram o mesageiro, mas não conseguirão matar a mensagem.”

Jornalismo de investigação é a melhor arma contra a propaganda Ver galeria

O combate à desinformação online tornou-se o tema incontornável de todos os encontros de jornalistas. Mas um dos painéis realizados na mais recente edição do Festival Internacional de Jornalismo, em Perugia, Itália, escutou intervenções que sugerem uma atitude menos confrontacional. A ideia é que resulta melhor investir num jornalismo de investigação no terreno, mesmo que tome mais tempo, do que tentar a batalha sempre perdida de aguentar o ritmo de produção das grandes máquinas de propaganda. Falaram neste sentido vozes experimentadas, de jornalistas como Galina Timchenko, russa, fundadora e directora do website Meduza, e Natalia Anteleva, georgiana, co-fundadora e editora de Coda Story.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

ver mais >
Opinião
Se sigo a actualidade e as notícias no digital, prefiro olhar para a reflexão e a descoberta no papel. E é aí que entra a nova geração de revistas que se vai publicando e que mostra as capacidades da imprensa, que estão longe de estar esgotadas. Com criatividade, imaginação editorial e gráfica, arrojo, e alguma capacidade para encontrar nichos de público têm surgido numerosas novas...
Para Joana Marques Vidal, todo o seu mérito se resume a “ter impresso a uma pesada máquina em movimento um novo funcionamento”, mais “eficaz, mais oleado, mais interdependente entre as várias equipas especializadas, e mais responsabilizado e onde deixa transparecer uma grande proximidade entre a hierarquia e as várias instâncias envolvidas. Joana Marques Vidal nunca recebeu telefonemas de Rui Rio, ao contrário do seu antecessor. Mas...
O Poder do Dever
Luís Queirós
No passado dia 14 de março, Maria Joana Raposo Marques Vidal foi falar ao Grémio Literário no ciclo que ali decorre sob o tema: "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. Na sua longa  intervenção  falou  do Ministério Público e de Justiça e ajudou os leigos na matéria - como...
A compra do The Los Angeles Times pelo cirurgião bilionário sino-americano Patrick Soon-Shiong – dono da maior fortuna da 2ª maior cidade americana - anunciada oficialmente em 7 de Fevereiro, marca o regresso da propriedade do jornal a um residente local, depois de 18 anos de controlo por grupos de media sediados fora da Califórnia. É o mais recente capítulo dos 137 anos de história do LA Times, propriedade da família Chandler durante...
Enquanto os dados mais recentes da APCT – Associação Portuguesa de controlo de Tiragem , confirmam a agonia de alguns titulos da Imprensa diária generalista e o recuo de semanários e de news magazines, do outro lado do Atlântico acredita-se que a credibilidade será a nova “moeda de troca” do jornalismo em 2018,  conforme se prevê num texto editado pelo Centro de Periodismo Digital de Guadalajara, que pode ser consultado...
Agenda
24
Abr
Social Media Week New York 2018
09:00 @ Sheraton Times Square, Nova Iorque
24
Abr
Social Media Strategies Summit Chicago 2018
22:00 @ Union League Club, Chicago
25
Abr
8º Congresso Nacional de "Periodismo Autónomo y Freelance: ‘La revolución audiovisual’"
09:00 @ Sala de Conferências da Faculdade de Ciências de Informação, Universidade de Madrid
28
Abr
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa