Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Media

Os equívocos e o risco dos Media se tornarem Twitter-dependentes

Os órgãos de comunicação, nos Estados Unidos, tornaram-se Twitter – dependentes. Passaram a incluir tweets no texto da reportagem, com o objectivo de ilustrar o tema tratado com as opiniões das “pessoas vulgares”. O problema é que, com a comunicação digital no ponto a que chegou, podem não ser “vulgares” nem sequer “pessoas”, mas sim produtos saídos das “fábricas de trolls” já referenciadas.

No fundo, trata-se da versão digital de uma coisa que se faz há muito tempo no jornalismo  - e de que a televisão abusa -  procurando pessoas ao acaso na rua, sempre na esperança de apanhar boas frases que transportem a autoridade da vox populi. Pode correr mal, e não ser verdadeiramente representativo da opinião pública, como explica a investigadora canadiana Heidi Tworek, docente na Universidade de British Columbia.

A autora começa por assinalar que um estudo realizado por investigadores da Universidade de Madison-Wisconsin revelou que 32, em 33 grandes empresas de comunicação, tinham inserido tweets criados pela Internet Research Agency, uma organização com sede em S. Petersburgo, apoiada por cidadãos russos com ligações a Vladimir Putin. Os meios [que o fizeram] incluem títulos como os da NPR – National Public Radio e o jornal The Washington Post, até aos “nativos” digitais BuzzFeed e Salon

A vox populi, como agora a inclusão dos tweets, foi sempre vista como “uma prática problemática”: 

“Mesmo no melhor dos casos, a vox populi fornece versões ditorcidas da realidade, dando destaque a umas poucas vozes em detrimento de outras e promovendo uma falsa equivalência. Mas os media desenvolveram, nos anos 70, algumas regras informais sobre quem entrevistar na rua, e como. As redacções de hoje podiam aprender  - e melhorar -  a partir destas normas anteriores.” (...) 

Heidi Tworek recorda que mesmo a UNESCO incluíu práticas deste tipo de vox populi nos seus manuais de jornalismo para países em desenvolvimento, em meados dos anos 80: 

“Era suposto que os jornalistas que as usavam encontravam opiniões opostas sobre um assunto e incluíam um vasto leque de idades e géneros  -  mas nunca foi entendido que isso constituía uma amostra representativa. A vox populi era o oposto de um questionário científico procurando respostas estruturadas e comparáveis. Em vez disso, os repórteres procuravam soundbites expressivos vindos de cenários do quotidiano como as ruas, centros comerciais ou parques públicos. Como prevenia a UNESCO, dirigindo-se a candidatos a jornalistas: ‘O que vocês querem são boas citações, e as perguntas devem ser formuladas de modo aberto, para as encorajar’.” 

As normas da BBC sobre este método, publicadas em 2014, sublinhavam que “a vox populi é uma ferramenta de ilustração, NÃO é uma ferramenta de pesquisa”. (...) 

O seu abuso, especialmente em transmissões de rádio e televisão, torna-se “um modo de preencher tempo numa emissão”. 

“E pelo facto de incluir, geralmente, visões opostas sobre qualquer assunto, este género é frequentemente acusado de propor uma falsa equivalência, como na cobertura feita pelos media durante as eleições presidenciais de 2016 [nos EUA]. Pode também promover uma reportagem preguiçosa, quando os jornalistas utilizam pessoas na rua em vez de fontes bem informadas.” (...) 

A inserção de tweets serve frequentemente o mesmo propósito nas reportagens online. A autora do artigo que citamos adverte que a identidade dos tweeters pode ser facilmente “fabricada” e que a transcrição de um tweet com muitos reenvios e respostas dá a ideia de um grande número de concordâncias, que pode ser manipulado por robots informáticos. 

“Se os sites noticiosos querem preservar o aspecto dos tweets, mais valia incluírem capturas de ecrã removendo a parte das respostas, partilhas e favoritos. O Financial Times começou a mostrar os tweets deste modo, só com o texto.” 

“A vox populi tinha os seus problemas. Mas pelo menos apresentava pessoas reais. Já é tempo de os media trazerem os humanos de volta  - e aplicarem regras sobre o modo de garantirem que são reais.” 

 

O texto original na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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