Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
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A “personalização” das notícias pode tornar-se um "pau de dois bicos"...

Foram as empresas tecnológicas, como Google e Facebook  - e não os media tradicionais -  que tornaram possível o noticiário “personalizado”. Mas agora são estes que apostam cada vez mais em conteúdos escolhidos deste modo, para trazer mais audiência aos seus sites e conservá-la. O problema é que isto acaba por criar uma “câmara de ressonância”: no fundo, “consumimos notícias preparadas de modo a serem saborosas”. Esta reflexão é o ponto de partida de um texto de Adrienne Lafrance, directora da revista The Atlantic  -  que aqui citamos da sua tradução para os Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O artigo foi originalmente publicado, em Outubro de 2017, na Nieman Reports, da Nieman Foundation for Journalism, da Universidade de Harvard, nos EUA. Está datado, mas não desactualizado, porque tudo o que tem acontecido com as redes sociais, nas últimas semanas, já vinha de trás e é nele bem documentado. 

A autora chama a atenção para um dos mais recentes desenvolvimentos na interacção entre as redes sociais baseadas nas grandes plataformas tecnológicas e os dispositivos domésticos de reconhecimento da voz humana

“Enquanto os sistemas de consulta de dados se tornam mais sofisticados, os softwares de reconhecimento de voz avançam e as empresas tecnológicas aproveitam a personalização para obter lucro, este fenómeno será cada vez mais intenso. Isto é potencialmente alarmante, dado o crescimento dos websites  - os que estão focados na informação e os outros -  que habitam nos extremos políticos e que, no Facebook, podem facilmente ser confundidos com fontes válidas de notícias. Quando os utentes podem personalizar as suas notícias, e fazê-lo a partir destes extremos políticos e sociais, o discurso cívico pode ressentir-se.” (...) 

“Os algoritmos que filtram a informação, sejam das grandes empresas tecnológicas ou dos meios de comunicação, são a base dos intentos da personalização, embora os jornalistas e as tecnológicas abordem este terreno de modos muito diferentes.”

“Os media distribuem informação que é verdadeira e, com sorte, interessante. As empresas tecnológicas, como Google e Facebook, permitem distribuir informação que é interessante e, com sorte, verdadeira. As tecnológicas emergentes só vão agravar os problemas que já existem com a informação-lixo que aparece por meio dos algoritmos.” 

Sobre este ponto, a autora cita Tamar Charney, chefe de redacção da NPR One, a aplicação para dispositivos móveis da National Public Radio, quando disse que o algoritmo “é, na realidade, uma moderna ferramenta editorial”. (...) 

“Assim, enquanto a NPR One permite que os ouvintes escolham as histórias ‘não essenciais’ que mais se ajustam aos interesses de cada um  - como, por exemplo, críticas musicais, ou notícias de desporto, ou entrevistas com artistas -  e decide segundo o nível de escutas que fazem sobre determinados temas, aumentando ou diminuindo as actualizações, os editores humanos decidem, em última instância, o que precisamos de ouvir.”  (...) 

E esta questão pode ser motivo de reacções dos próprios utentes, como verificou The New York Times com a sua introdução de “características personalizáveis” na página de entrada. 

“A última Provedora do Leitor, Liz Spayd, comentou as alterações num artigo publicado em Março, explicando que havia muitos leitores descontentes com os esforços do jornal por oferecer experiências mais individuais de leitura e por documentar e partilhar a actividade dos seus assinantes com eles. ‘Eu pago uma assinatura por uma razão: o critério e a experiência dos editores e jornalistas que tornam grande este jornal. Não tentem ser o Facebook... Sejam The New York Times e façam-no bem’  - comentou um dos leitores.” 

“‘Não tentem ser o Facebook’  - foi um comentário repetido entre os que se queixaram. A rede social já teve a sua boa dose de problemas na gestão de notícias no intento de ser ‘o jornal mais personalizado do mundo’, como o seu máximo responsável, Mark Zuckerberg, a definiu em 2013. Por não falar das notícias falsas que proliferam entre os seus utentes, a secção Trending topics passou uns meses muito duros em 2016.” (...) 

“Na Google e no Facebook, o algoritmo que determina o que vemos é invisível. ‘Estamos a ser treinados para manter uma relação com a inteligência artificial’, afirma Amy Webb, fundadora do Instituto Future Today e professora associada da Escola de Negócios Stern, da Universidade de Nova Iorque." 

“Isto é muito mais catastrófico para os meios de comunicação do que foi a chegada da Internet. Ao menos, com a Internet havia opções. O ecossistema de voz não é construído desta forma. Está a ser construído para ter a informação de que preciso de uma forma agradável.” 

“Amy Webb afirma que a voz é a próxima grande ameaça do jornalismo, mas oferece aos media a oportunidade de desempenharem um papel muito maior no dia a dia das pessoas.” 

A sugestão deixada aos utentes é que forcem o diálogo com o aparelho, exigindo escolhas concretas: “Talvez queira ter uma conversa com The Atlantic, mas não com USA Today, porque não estou disposta a pagar por isso”, diz Amy Webb.

“Isto tem muito a ver com a tecnologia, mas também com a gestão, porque de repente há vinte diferentes tipos de postos de trabalho que são necessários, e não estão lá.” (...) 

“O uso dos interfaces de voz por parte dos media coloca uma quantidade de questões éticas relacionadas com a recolha dos dados, a privacidade e a segurança. Não sabemos exactamente que dados recolhem estes aparelhos de cada pessoa  - muito poucas lêem as políticas de privacidade das empresas -  mas, se os smartphones nos ensinaram alguma coisa, a resposta dura é: tudo quanto puderem.” (...)

 

O artigo citado, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
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