Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
Fórum

Os jornalistas como "marcas" e a tentação de concorrerem com os Media

As alterações que foram impostas ao jornalismo pela chegada da Internet seguiram o caminho de uma escalada. Primeiro tratava-se apenas de um meio mais abrangente, que podia incorporar conteúdos de todos os que já existiam. Uma vez instaladas as redes sociais, o jornalismo viu-se na necessidade de lá ir à procura das audiências perdidas e passou a escrever “mais para os algoritmos do que para os leitores”. A questão de fundo passou a ser a da visibilidade.
“Não adianta fazer o melhor jornalismo do mundo se ninguém o lê, e agora isso só acontece se pagarmos para sermos vistos. É o paradoxo actual: são precisas ‘visitas’ para que a publicidade seja rentável, e é preciso pagar publicidade para poder ser visto.” É esta a reflexão inicial de um longo texto sobre os jornalistas (também vistos como "marcas") e as redes sociais, publicado em Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor, o jornalista Borja Ventura, docente em duas Universidades de Madrid, conta que o choque inicial, na adaptação dos media à nova tecnologia, foi o da concorrência. Primeiro, concorrentes eram os outros jornais ou estações de rádio e TV, mas logo a seguir era a própria audiência, que começava a “transformar-se em emissora, além de receptora”. 

Foram poucos os autores de blogs que conseguiram alcançar alguma rentabilidade económica à custa dos grandes meios, mas fixaram “novas dependências”: a audiência dos meios digitais já não dependia só dos leitores, mas também dos que os comentavam. 

“Houve casos em que o conteúdo jornalístico original passava para segundo plano, porque uma parte da audiência estava mais interessada pelo debate gerado na área de comentários do que pelos argumentos trocados no corpo do artigo”. 

Com o tempo, muitos media “absorveram ou adquiriram aquelas páginas independentes que traziam conteúdo interessante, como secções ou colunas”. Mas no fundo não ganharam a batalha, tiveram é que “adoptar muitas práticas que lhes eram alheias”. 

“Aquilo que os blogs tinham tentado, acabaram por consegui-lo as redes sociais: dotar a audiência de espaços próprios em que pode partilhar, comentar e contactar. (...) Os utentes deixaram de ir aos media ler, escutar ou ver conteúdo, e começaram a levar o conteúdo para os seus próprios espaços para o ver, partilhar e comentar.” 

Depois, foram os media que se aproximaram das redes sociais, em parte como “caçadores de tendências”, procurando ver de que temas falavam as pessoas, para os pôr na sua agenda “com a esperança de trazer de volta essa audiência perdida”. 

“Assim, por critérios exclusivos de audiência, os chamados [temas] ‘virais’ e os conteúdos surgidos nessas redes  - trending topics, vídeos de YouTube e comentários no Instagram -  começaram a ocupar um espaço que nunca antes tinham conseguido.” (...) 

As redes sociais tornaram-se então os intermediários entre os media e as suas audiências. Quando vieram a Google e o Facebook, “os media tinham entregado [tudo], desde os procedimentos aos conteúdos, a troco de alcançarem a audiência que tinham perdido”. (...) A realidade, agora, é que “a maioria [dos utentes] chega aos media através das redes sociais”. 

A segunda parte do trabalho de Borja Ventura trata depois, em pormenor, um problema grave que afecta as redacções e está a ser debatido, pelos efeitos perversos, mesmo que involuntários, que traz consigo: o de muitos jornalistas se assumirem, eles mesmos, como “marcas” dentro da “marca” maior que é o seu próprio jornal ou estação emissora, tornando-se concorrentes internos. 

“O problema inerente às redes sociais é que não existe dissociação possível entre os conceitos de pessoa  - com as suas opiniões e ideias -  e de profissional (ou, pelo menos, não é o mais frequente).” 

Mas alguns jornais, “especialmente no mundo anglo-saxónico, colocaram em vigor estritas directrizes e normas de cumprimento obrigatório para os seus funcionários. Assim, o perfil social dos membros de um meio de comunicação não pertence ao profissional, mas sim ao meio. Há casos em que que o nome do perfil não é sequer o do profissional, mas sim do profissional com alguma referência ao meio ou ao programa em que trabalha”. (...) 

Um dos exemplos mais recentes é o do código publicado por The New York Times a 13 de Outubro de 2017, onde se estabelece que, se os seus jornalistas “são entendidos como parciais, ou se editorializam nas redes sociais, isso pode prejudicar a credibilidade da redacção inteira”. Este tema foi na altura referido no nosso site

“Por isso ficam proibidos de mostrar expressamente o seu apoio a candidatos ou ideologias, bem como de emitir opiniões políticas.” (...) 

Borja Ventura reflecte longamente sobre os vários lados desta questão, abordando também os casos e os modos como ela se coloca na Espanha. Compara depois as diferenças entre Twitter e Facebook, como meios de comunicação instantânea, e os diferentes problemas que colocam ao jornalismo profissional. 

E conclui com uma síntese que remata numa pergunta: 

“Os jornalistas são, apesar dessa busca de singularidade em mostrarem-se como pessoas, mais uma peça da engrenagem que vincula a criação de opinião com o tratamento da actualidade. A presença e participação subjectiva de jornalistas nas redes amplifica, portanto, essa lógica, embora não a crie.” 

“Talvez por isso, antes de culpar os indivíduos por mostrarem as suas ideias, haveria que pensar em como contribuem os colectivos  - as empresas de media -  para a construção dessa subjectividade. Se aceitamos e defendemos os editoriais, as colunas de opinião e os espaços de debate, por que não as opiniões pessoais de um jornalista em particular?” 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas

 

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


ver mais >
Opinião
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
Agenda
28
Out
Fotojornalismo e Direitos de Autor
09:00 @ Cenjor, Lisboa
01
Nov
1º Congresso Internacional de Rádios Lusófonas
14:30 @ Angra do Heroísmo, Açores
19
Nov
Connections Europe
09:00 @ Marriott Hotel, Amsterdão
21
Nov