Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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Os jornalistas como "marcas" e a tentação de concorrerem com os Media

As alterações que foram impostas ao jornalismo pela chegada da Internet seguiram o caminho de uma escalada. Primeiro tratava-se apenas de um meio mais abrangente, que podia incorporar conteúdos de todos os que já existiam. Uma vez instaladas as redes sociais, o jornalismo viu-se na necessidade de lá ir à procura das audiências perdidas e passou a escrever “mais para os algoritmos do que para os leitores”. A questão de fundo passou a ser a da visibilidade.
“Não adianta fazer o melhor jornalismo do mundo se ninguém o lê, e agora isso só acontece se pagarmos para sermos vistos. É o paradoxo actual: são precisas ‘visitas’ para que a publicidade seja rentável, e é preciso pagar publicidade para poder ser visto.” É esta a reflexão inicial de um longo texto sobre os jornalistas (também vistos como "marcas") e as redes sociais, publicado em Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor, o jornalista Borja Ventura, docente em duas Universidades de Madrid, conta que o choque inicial, na adaptação dos media à nova tecnologia, foi o da concorrência. Primeiro, concorrentes eram os outros jornais ou estações de rádio e TV, mas logo a seguir era a própria audiência, que começava a “transformar-se em emissora, além de receptora”. 

Foram poucos os autores de blogs que conseguiram alcançar alguma rentabilidade económica à custa dos grandes meios, mas fixaram “novas dependências”: a audiência dos meios digitais já não dependia só dos leitores, mas também dos que os comentavam. 

“Houve casos em que o conteúdo jornalístico original passava para segundo plano, porque uma parte da audiência estava mais interessada pelo debate gerado na área de comentários do que pelos argumentos trocados no corpo do artigo”. 

Com o tempo, muitos media “absorveram ou adquiriram aquelas páginas independentes que traziam conteúdo interessante, como secções ou colunas”. Mas no fundo não ganharam a batalha, tiveram é que “adoptar muitas práticas que lhes eram alheias”. 

“Aquilo que os blogs tinham tentado, acabaram por consegui-lo as redes sociais: dotar a audiência de espaços próprios em que pode partilhar, comentar e contactar. (...) Os utentes deixaram de ir aos media ler, escutar ou ver conteúdo, e começaram a levar o conteúdo para os seus próprios espaços para o ver, partilhar e comentar.” 

Depois, foram os media que se aproximaram das redes sociais, em parte como “caçadores de tendências”, procurando ver de que temas falavam as pessoas, para os pôr na sua agenda “com a esperança de trazer de volta essa audiência perdida”. 

“Assim, por critérios exclusivos de audiência, os chamados [temas] ‘virais’ e os conteúdos surgidos nessas redes  - trending topics, vídeos de YouTube e comentários no Instagram -  começaram a ocupar um espaço que nunca antes tinham conseguido.” (...) 

As redes sociais tornaram-se então os intermediários entre os media e as suas audiências. Quando vieram a Google e o Facebook, “os media tinham entregado [tudo], desde os procedimentos aos conteúdos, a troco de alcançarem a audiência que tinham perdido”. (...) A realidade, agora, é que “a maioria [dos utentes] chega aos media através das redes sociais”. 

A segunda parte do trabalho de Borja Ventura trata depois, em pormenor, um problema grave que afecta as redacções e está a ser debatido, pelos efeitos perversos, mesmo que involuntários, que traz consigo: o de muitos jornalistas se assumirem, eles mesmos, como “marcas” dentro da “marca” maior que é o seu próprio jornal ou estação emissora, tornando-se concorrentes internos. 

“O problema inerente às redes sociais é que não existe dissociação possível entre os conceitos de pessoa  - com as suas opiniões e ideias -  e de profissional (ou, pelo menos, não é o mais frequente).” 

Mas alguns jornais, “especialmente no mundo anglo-saxónico, colocaram em vigor estritas directrizes e normas de cumprimento obrigatório para os seus funcionários. Assim, o perfil social dos membros de um meio de comunicação não pertence ao profissional, mas sim ao meio. Há casos em que que o nome do perfil não é sequer o do profissional, mas sim do profissional com alguma referência ao meio ou ao programa em que trabalha”. (...) 

Um dos exemplos mais recentes é o do código publicado por The New York Times a 13 de Outubro de 2017, onde se estabelece que, se os seus jornalistas “são entendidos como parciais, ou se editorializam nas redes sociais, isso pode prejudicar a credibilidade da redacção inteira”. Este tema foi na altura referido no nosso site

“Por isso ficam proibidos de mostrar expressamente o seu apoio a candidatos ou ideologias, bem como de emitir opiniões políticas.” (...) 

Borja Ventura reflecte longamente sobre os vários lados desta questão, abordando também os casos e os modos como ela se coloca na Espanha. Compara depois as diferenças entre Twitter e Facebook, como meios de comunicação instantânea, e os diferentes problemas que colocam ao jornalismo profissional. 

E conclui com uma síntese que remata numa pergunta: 

“Os jornalistas são, apesar dessa busca de singularidade em mostrarem-se como pessoas, mais uma peça da engrenagem que vincula a criação de opinião com o tratamento da actualidade. A presença e participação subjectiva de jornalistas nas redes amplifica, portanto, essa lógica, embora não a crie.” 

“Talvez por isso, antes de culpar os indivíduos por mostrarem as suas ideias, haveria que pensar em como contribuem os colectivos  - as empresas de media -  para a construção dessa subjectividade. Se aceitamos e defendemos os editoriais, as colunas de opinião e os espaços de debate, por que não as opiniões pessoais de um jornalista em particular?” 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas

 

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Simpósio de Radiodifusão Digital da ABU
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