Quinta-feira, 9 de Abril, 2020
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Os jornalistas como "marcas" e a tentação de concorrerem com os Media

As alterações que foram impostas ao jornalismo pela chegada da Internet seguiram o caminho de uma escalada. Primeiro tratava-se apenas de um meio mais abrangente, que podia incorporar conteúdos de todos os que já existiam. Uma vez instaladas as redes sociais, o jornalismo viu-se na necessidade de lá ir à procura das audiências perdidas e passou a escrever “mais para os algoritmos do que para os leitores”. A questão de fundo passou a ser a da visibilidade.
“Não adianta fazer o melhor jornalismo do mundo se ninguém o lê, e agora isso só acontece se pagarmos para sermos vistos. É o paradoxo actual: são precisas ‘visitas’ para que a publicidade seja rentável, e é preciso pagar publicidade para poder ser visto.” É esta a reflexão inicial de um longo texto sobre os jornalistas (também vistos como "marcas") e as redes sociais, publicado em Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor, o jornalista Borja Ventura, docente em duas Universidades de Madrid, conta que o choque inicial, na adaptação dos media à nova tecnologia, foi o da concorrência. Primeiro, concorrentes eram os outros jornais ou estações de rádio e TV, mas logo a seguir era a própria audiência, que começava a “transformar-se em emissora, além de receptora”. 

Foram poucos os autores de blogs que conseguiram alcançar alguma rentabilidade económica à custa dos grandes meios, mas fixaram “novas dependências”: a audiência dos meios digitais já não dependia só dos leitores, mas também dos que os comentavam. 

“Houve casos em que o conteúdo jornalístico original passava para segundo plano, porque uma parte da audiência estava mais interessada pelo debate gerado na área de comentários do que pelos argumentos trocados no corpo do artigo”. 

Com o tempo, muitos media “absorveram ou adquiriram aquelas páginas independentes que traziam conteúdo interessante, como secções ou colunas”. Mas no fundo não ganharam a batalha, tiveram é que “adoptar muitas práticas que lhes eram alheias”. 

“Aquilo que os blogs tinham tentado, acabaram por consegui-lo as redes sociais: dotar a audiência de espaços próprios em que pode partilhar, comentar e contactar. (...) Os utentes deixaram de ir aos media ler, escutar ou ver conteúdo, e começaram a levar o conteúdo para os seus próprios espaços para o ver, partilhar e comentar.” 

Depois, foram os media que se aproximaram das redes sociais, em parte como “caçadores de tendências”, procurando ver de que temas falavam as pessoas, para os pôr na sua agenda “com a esperança de trazer de volta essa audiência perdida”. 

“Assim, por critérios exclusivos de audiência, os chamados [temas] ‘virais’ e os conteúdos surgidos nessas redes  - trending topics, vídeos de YouTube e comentários no Instagram -  começaram a ocupar um espaço que nunca antes tinham conseguido.” (...) 

As redes sociais tornaram-se então os intermediários entre os media e as suas audiências. Quando vieram a Google e o Facebook, “os media tinham entregado [tudo], desde os procedimentos aos conteúdos, a troco de alcançarem a audiência que tinham perdido”. (...) A realidade, agora, é que “a maioria [dos utentes] chega aos media através das redes sociais”. 

A segunda parte do trabalho de Borja Ventura trata depois, em pormenor, um problema grave que afecta as redacções e está a ser debatido, pelos efeitos perversos, mesmo que involuntários, que traz consigo: o de muitos jornalistas se assumirem, eles mesmos, como “marcas” dentro da “marca” maior que é o seu próprio jornal ou estação emissora, tornando-se concorrentes internos. 

“O problema inerente às redes sociais é que não existe dissociação possível entre os conceitos de pessoa  - com as suas opiniões e ideias -  e de profissional (ou, pelo menos, não é o mais frequente).” 

Mas alguns jornais, “especialmente no mundo anglo-saxónico, colocaram em vigor estritas directrizes e normas de cumprimento obrigatório para os seus funcionários. Assim, o perfil social dos membros de um meio de comunicação não pertence ao profissional, mas sim ao meio. Há casos em que que o nome do perfil não é sequer o do profissional, mas sim do profissional com alguma referência ao meio ou ao programa em que trabalha”. (...) 

Um dos exemplos mais recentes é o do código publicado por The New York Times a 13 de Outubro de 2017, onde se estabelece que, se os seus jornalistas “são entendidos como parciais, ou se editorializam nas redes sociais, isso pode prejudicar a credibilidade da redacção inteira”. Este tema foi na altura referido no nosso site

“Por isso ficam proibidos de mostrar expressamente o seu apoio a candidatos ou ideologias, bem como de emitir opiniões políticas.” (...) 

Borja Ventura reflecte longamente sobre os vários lados desta questão, abordando também os casos e os modos como ela se coloca na Espanha. Compara depois as diferenças entre Twitter e Facebook, como meios de comunicação instantânea, e os diferentes problemas que colocam ao jornalismo profissional. 

E conclui com uma síntese que remata numa pergunta: 

“Os jornalistas são, apesar dessa busca de singularidade em mostrarem-se como pessoas, mais uma peça da engrenagem que vincula a criação de opinião com o tratamento da actualidade. A presença e participação subjectiva de jornalistas nas redes amplifica, portanto, essa lógica, embora não a crie.” 

“Talvez por isso, antes de culpar os indivíduos por mostrarem as suas ideias, haveria que pensar em como contribuem os colectivos  - as empresas de media -  para a construção dessa subjectividade. Se aceitamos e defendemos os editoriais, as colunas de opinião e os espaços de debate, por que não as opiniões pessoais de um jornalista em particular?” 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas

 

Connosco
Editores descontentes com projecto de apoio aos jornais "à medida das televisões" Ver galeria

Na sequência de apelos de várias empresas mediáticas, o Governo está, finalmente, a preparar um conjunto de medidas de apoio aos “media”, gravemente afectados pela crise instalada no país, na sequência da pandemia de Covid-19. 

Tudo indica, contudo, que o pacote destinado a compensar a quebra de receitas de circulação e publicidade não irá ao encontro das necessidades dos editores de jornais e revistas nem, tão pouco, de quem as distribui.

Isto porque as medidas que o Governo está a preparar terão como base a quebra de receitas da publicidade, omitindo, porém, o valor perdido com a diminuição abrupta na circulação, problema que não afecta as televisões.
"O pacote, como está neste momento, é feito à medida das televisões, porque não tem em conta os jornais e revistas, os meios mais prejudicados com a crise de saúde e económica que estamos a viver", explicou Afonso Camões, administrador do Grupo Global Media. "Sem imprensa escrita, é ,em primeira e última análise, o direito à informação, o Estado de direito e a Democracia que ficam em causa".

Perseguição à imprensa gera divisão ideológica no Brasil Ver galeria

Apesar dos esforços dos “media” para alcançar um consenso perante a pandemia do coronavírus, o discurso do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem contribuído para a polarização ideológica dos cidadãos, referiu Francisco Fernandes Ladeira, num artigo publicado no Observatório da Imprensa.

Isto porque, segundo Ladeira, Bolsonaro tem contrariado as directivas da imprensa para a contenção do coronavírus, apontadas pela OMS e pelo próprio ministério da Saúde brasileiro, acusando os “media” de disseminarem o pânico, deliberadamente, e sem fundamento.
Até meados do mês de Março, com a divulgação dos primeiros casos de covid-19 no Brasil, havia um relativo consenso entre a população sobre a quarentena transversal ser a melhor alternativa para evitar a rápida propagação do coronavírus.
Porém, devido aos discursos “inflamados” do Presidente os “media” têm sido descredibilizados. Essas premissas incentivaram, mesmo, aviolência sob jornalistas, que têm encontrado cada vez mais obstáculos ao exercício da profissão.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


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15
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Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun