Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Fórum

As redacções devem ser “Comunidades de Prática”

O jornalismo da era digital enfrenta os problemas de se adaptar a novas formas de produzir informações, a novas funções da notícia e a novos dispositivos electrónicos que alteram radicalmente “as normas, rotinas e valores tradicionais da profissão”. Por outro lado, “a facilidade de publicação de material informativo gerou uma grande oferta jornalística, onde a sobrevivência depende da diversificação de linhas editoriais  - o que exige pesquisa, estudo, aprendizagem e conhecimentos”.

A necessidade de responder a estas questões está a dar origem, em universidades norte-americanas e de países nórdicos da Europa, à transformação das redacções em Comunidades de Prática, nas quais “o conhecimento e a inovação resultam de uma aprendizagem desenvolvida de forma colectiva e em situações específicas”. Esta reflexão é de Carlos Castilho, jornalista e pesquisador associado do ObjEthos, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

As Comunidades de Prática “permitem que repórteres, editores, designers e programadores troquem informações sobre a melhor forma de [adaptar] as novas tecnologias à realidade de cada redacção e às especificidades do público alvo da publicação”. 

Trata-se, no fundo, de retomar o espírito de equipa e entreajuda que vigorava nas melhores redacções, em que os mais velhos eram tutores dos mais novos e o ofício se aprendia todos os dias  - mas desta vez diante de problemas inteiramente novos e sem soluções prontas a servir.   

O autor dá um exemplo brasileiro, do GPS-Jor – Novos Rumos para o Jornalismo, “desenvolvido conjuntamente pela UFSC e pelo IELUSC, de Joinville, [que] incluiu a formação de uma Comunidade de Prática entre os instrumentos usados para desenvolver colectivamente conhecimentos sobre governança em projectos jornalísticos na era digital. Trata-se de um tema ainda pouco estudado, onde os pesquisadores recorrem à produção colectiva de conhecimentos, a partir de experiências individuais”. 

Carlos Castilho parte da constatação de que “a maior parte dos resultados do processamento digital de notícias é perdido devido a dois tipos de distorções existentes dentro das redações”: 

“A primeira delas é causada pelo sistema industrial de produção em grandes e médias empresas jornalísticas, onde as redacções acabaram se transformando em ‘linhas de montagem’ de notícias. A outra distorção, surgida já na era do jornalismo digital, é o enorme desperdício de dados e informações provocado pela ausência de políticas de produção de conhecimento nas redacções.” (...) 

“Actualmente  - como afirma - as redacções vivem o conflito entre uma produção informativa socialmente relevante e a manutenção do sistema industrial, voltando para a venda da notícia como commodity [bem de consumo].” (...)

 

O artigo citado, no Observatório da Imprensa, incluindo o link para uma apresentação do conceito actual de Comunidades de Prática

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...