Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Cartoon

Banda desenhada turca mostra sociedade resignada e com medo

O livro de banda desenhada “Contes ordinaires d’une société résignée”, do caricaturista turco Ersin Karabulut, foi publicado em França a 21 de Fevereiro  - e apenas cinco dias depois eram condenados a prisão perpétua, na Turquia, o escritor Ahmet Altan, o seu irmão Mehmet Altan e outros jornalistas da oposição.

A ilustração da capa, imagem impressionante de uma cidade em que toda a gente se atira dos telhados, sugere “as patologias e os fantasmas que assombram a sociedade turca, traumatizada pela violência e a insegurança, resignada perante um poder político cada vez mais intrusivo e autoritário”.

Reconhecido como um dos grandes autores da banda desenhada turca, Ersin Karabulut é também o chefe de redacção da revista satírica Uykusuz, que continua a sair, mas tendo os seus colaboradores uma atenção extrema às sensibilidades presentes na sociedade da Turquia  - que pode chegar à autocensura. 

Segundo Le Monde, que aqui citamos, os “Contos ordinários de uma sociedade resignada” têm um grafismo realista e “as histórias são fantásticas, um pouco à maneira de Edgar Allan Poe; Ersin Karabulut descreve nelas o medo e a resignação”. 

Num dos quinze contos, intitulado “Monochrome”, a população é incitada, em nome do êxito social, a vestir-se e a colorir a pele de cinzento. “Única cor politicamente correcta, o cinzento ocupa o terreno a tal ponto que os ‘dissidentes’, vestidos de roupas coloridas, são chamados à ordem nos transportes colectivos.” 

“Os ‘incolores’, agora chamados ‘libertados’, são cada vez mais, e toda a gente quer ser como eles. O partido do cinzento toma conta do meio ambiente. As árvores são pintadas de cinzento, o mar é tingido de cinzento. Só o céu mantém a sua cor de origem, basta levantar a cabeça para se dar conta disso.” (...) 

Numa entrevista dada em Fevereiro à revista L’Obs, Ersin Karabulut mantém a esperança: 

“Eu gosto da sociedade turca, das nossas ruas, da nossa população. Mas penso que a Turquia está desorientada. Porque não há ódio entre os religiosos e os seculares, nem entre Turcos e Curdos. Não creio nisso. Nós não somos hostis uns contra os outros. Mas as pessoas não estão felizes nem optimistas quanto à sua vida. (...) Mas eu quero permanecer optimista e continuar a pensar que as coisas vão evoluir.” (...) 

Sobre os cuidados que é levada a ter a Imprensa satírica, o autor descreve o mecanismo de autocensura instalado: 

“Por exemplo, se nós desenharmos o Presidente na capa da revista, os proprietários dos postos de venda, ou dos quiosques, já não colocam o jornal em exposição. Os compradores não o vêem, logo não o compram. Não porque possa acontecer que venha um agente da autoridade discutir com o vendedor, mas por autocensura. Eles próprios criam este medo.” 

“Por outro lado, nós somos prudentes. Podemos continuar a desenhar caricaturas, mas prestamos atenção, não queremos insultar ninguém. Procuramos ser sensíveis aos valores da sociedade turca.” 

“Pessoalmente, eu penso que tudo pode ser desenhado e escrito. É o meu ideal. Devemos poder exprimir o conjunto das nossas opiniões. Mas compreendo também que há diferenças culturais na Turquia. A sociedade é complicada e eu procuro manter-me sensível a este contexto. Às vezes é difícil, mas sinto orgulho porque continuamos a publicar a Uykusuz, procurando defender as nossas ideias.” (...)

 

Mais informação em Le Monde  e em L’Obs

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
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Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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