Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Cartoon

Banda desenhada turca mostra sociedade resignada e com medo

O livro de banda desenhada “Contes ordinaires d’une société résignée”, do caricaturista turco Ersin Karabulut, foi publicado em França a 21 de Fevereiro  - e apenas cinco dias depois eram condenados a prisão perpétua, na Turquia, o escritor Ahmet Altan, o seu irmão Mehmet Altan e outros jornalistas da oposição.

A ilustração da capa, imagem impressionante de uma cidade em que toda a gente se atira dos telhados, sugere “as patologias e os fantasmas que assombram a sociedade turca, traumatizada pela violência e a insegurança, resignada perante um poder político cada vez mais intrusivo e autoritário”.

Reconhecido como um dos grandes autores da banda desenhada turca, Ersin Karabulut é também o chefe de redacção da revista satírica Uykusuz, que continua a sair, mas tendo os seus colaboradores uma atenção extrema às sensibilidades presentes na sociedade da Turquia  - que pode chegar à autocensura. 

Segundo Le Monde, que aqui citamos, os “Contos ordinários de uma sociedade resignada” têm um grafismo realista e “as histórias são fantásticas, um pouco à maneira de Edgar Allan Poe; Ersin Karabulut descreve nelas o medo e a resignação”. 

Num dos quinze contos, intitulado “Monochrome”, a população é incitada, em nome do êxito social, a vestir-se e a colorir a pele de cinzento. “Única cor politicamente correcta, o cinzento ocupa o terreno a tal ponto que os ‘dissidentes’, vestidos de roupas coloridas, são chamados à ordem nos transportes colectivos.” 

“Os ‘incolores’, agora chamados ‘libertados’, são cada vez mais, e toda a gente quer ser como eles. O partido do cinzento toma conta do meio ambiente. As árvores são pintadas de cinzento, o mar é tingido de cinzento. Só o céu mantém a sua cor de origem, basta levantar a cabeça para se dar conta disso.” (...) 

Numa entrevista dada em Fevereiro à revista L’Obs, Ersin Karabulut mantém a esperança: 

“Eu gosto da sociedade turca, das nossas ruas, da nossa população. Mas penso que a Turquia está desorientada. Porque não há ódio entre os religiosos e os seculares, nem entre Turcos e Curdos. Não creio nisso. Nós não somos hostis uns contra os outros. Mas as pessoas não estão felizes nem optimistas quanto à sua vida. (...) Mas eu quero permanecer optimista e continuar a pensar que as coisas vão evoluir.” (...) 

Sobre os cuidados que é levada a ter a Imprensa satírica, o autor descreve o mecanismo de autocensura instalado: 

“Por exemplo, se nós desenharmos o Presidente na capa da revista, os proprietários dos postos de venda, ou dos quiosques, já não colocam o jornal em exposição. Os compradores não o vêem, logo não o compram. Não porque possa acontecer que venha um agente da autoridade discutir com o vendedor, mas por autocensura. Eles próprios criam este medo.” 

“Por outro lado, nós somos prudentes. Podemos continuar a desenhar caricaturas, mas prestamos atenção, não queremos insultar ninguém. Procuramos ser sensíveis aos valores da sociedade turca.” 

“Pessoalmente, eu penso que tudo pode ser desenhado e escrito. É o meu ideal. Devemos poder exprimir o conjunto das nossas opiniões. Mas compreendo também que há diferenças culturais na Turquia. A sociedade é complicada e eu procuro manter-me sensível a este contexto. Às vezes é difícil, mas sinto orgulho porque continuamos a publicar a Uykusuz, procurando defender as nossas ideias.” (...)

 

Mais informação em Le Monde  e em L’Obs

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Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

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Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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