null, 26 de Maio, 2019
Cartoon

Banda desenhada turca mostra sociedade resignada e com medo

O livro de banda desenhada “Contes ordinaires d’une société résignée”, do caricaturista turco Ersin Karabulut, foi publicado em França a 21 de Fevereiro  - e apenas cinco dias depois eram condenados a prisão perpétua, na Turquia, o escritor Ahmet Altan, o seu irmão Mehmet Altan e outros jornalistas da oposição.

A ilustração da capa, imagem impressionante de uma cidade em que toda a gente se atira dos telhados, sugere “as patologias e os fantasmas que assombram a sociedade turca, traumatizada pela violência e a insegurança, resignada perante um poder político cada vez mais intrusivo e autoritário”.

Reconhecido como um dos grandes autores da banda desenhada turca, Ersin Karabulut é também o chefe de redacção da revista satírica Uykusuz, que continua a sair, mas tendo os seus colaboradores uma atenção extrema às sensibilidades presentes na sociedade da Turquia  - que pode chegar à autocensura. 

Segundo Le Monde, que aqui citamos, os “Contos ordinários de uma sociedade resignada” têm um grafismo realista e “as histórias são fantásticas, um pouco à maneira de Edgar Allan Poe; Ersin Karabulut descreve nelas o medo e a resignação”. 

Num dos quinze contos, intitulado “Monochrome”, a população é incitada, em nome do êxito social, a vestir-se e a colorir a pele de cinzento. “Única cor politicamente correcta, o cinzento ocupa o terreno a tal ponto que os ‘dissidentes’, vestidos de roupas coloridas, são chamados à ordem nos transportes colectivos.” 

“Os ‘incolores’, agora chamados ‘libertados’, são cada vez mais, e toda a gente quer ser como eles. O partido do cinzento toma conta do meio ambiente. As árvores são pintadas de cinzento, o mar é tingido de cinzento. Só o céu mantém a sua cor de origem, basta levantar a cabeça para se dar conta disso.” (...) 

Numa entrevista dada em Fevereiro à revista L’Obs, Ersin Karabulut mantém a esperança: 

“Eu gosto da sociedade turca, das nossas ruas, da nossa população. Mas penso que a Turquia está desorientada. Porque não há ódio entre os religiosos e os seculares, nem entre Turcos e Curdos. Não creio nisso. Nós não somos hostis uns contra os outros. Mas as pessoas não estão felizes nem optimistas quanto à sua vida. (...) Mas eu quero permanecer optimista e continuar a pensar que as coisas vão evoluir.” (...) 

Sobre os cuidados que é levada a ter a Imprensa satírica, o autor descreve o mecanismo de autocensura instalado: 

“Por exemplo, se nós desenharmos o Presidente na capa da revista, os proprietários dos postos de venda, ou dos quiosques, já não colocam o jornal em exposição. Os compradores não o vêem, logo não o compram. Não porque possa acontecer que venha um agente da autoridade discutir com o vendedor, mas por autocensura. Eles próprios criam este medo.” 

“Por outro lado, nós somos prudentes. Podemos continuar a desenhar caricaturas, mas prestamos atenção, não queremos insultar ninguém. Procuramos ser sensíveis aos valores da sociedade turca.” 

“Pessoalmente, eu penso que tudo pode ser desenhado e escrito. É o meu ideal. Devemos poder exprimir o conjunto das nossas opiniões. Mas compreendo também que há diferenças culturais na Turquia. A sociedade é complicada e eu procuro manter-me sensível a este contexto. Às vezes é difícil, mas sinto orgulho porque continuamos a publicar a Uykusuz, procurando defender as nossas ideias.” (...)

 

Mais informação em Le Monde  e em L’Obs

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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