Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Cartoon

Banda desenhada turca mostra sociedade resignada e com medo

O livro de banda desenhada “Contes ordinaires d’une société résignée”, do caricaturista turco Ersin Karabulut, foi publicado em França a 21 de Fevereiro  - e apenas cinco dias depois eram condenados a prisão perpétua, na Turquia, o escritor Ahmet Altan, o seu irmão Mehmet Altan e outros jornalistas da oposição.

A ilustração da capa, imagem impressionante de uma cidade em que toda a gente se atira dos telhados, sugere “as patologias e os fantasmas que assombram a sociedade turca, traumatizada pela violência e a insegurança, resignada perante um poder político cada vez mais intrusivo e autoritário”.

Reconhecido como um dos grandes autores da banda desenhada turca, Ersin Karabulut é também o chefe de redacção da revista satírica Uykusuz, que continua a sair, mas tendo os seus colaboradores uma atenção extrema às sensibilidades presentes na sociedade da Turquia  - que pode chegar à autocensura. 

Segundo Le Monde, que aqui citamos, os “Contos ordinários de uma sociedade resignada” têm um grafismo realista e “as histórias são fantásticas, um pouco à maneira de Edgar Allan Poe; Ersin Karabulut descreve nelas o medo e a resignação”. 

Num dos quinze contos, intitulado “Monochrome”, a população é incitada, em nome do êxito social, a vestir-se e a colorir a pele de cinzento. “Única cor politicamente correcta, o cinzento ocupa o terreno a tal ponto que os ‘dissidentes’, vestidos de roupas coloridas, são chamados à ordem nos transportes colectivos.” 

“Os ‘incolores’, agora chamados ‘libertados’, são cada vez mais, e toda a gente quer ser como eles. O partido do cinzento toma conta do meio ambiente. As árvores são pintadas de cinzento, o mar é tingido de cinzento. Só o céu mantém a sua cor de origem, basta levantar a cabeça para se dar conta disso.” (...) 

Numa entrevista dada em Fevereiro à revista L’Obs, Ersin Karabulut mantém a esperança: 

“Eu gosto da sociedade turca, das nossas ruas, da nossa população. Mas penso que a Turquia está desorientada. Porque não há ódio entre os religiosos e os seculares, nem entre Turcos e Curdos. Não creio nisso. Nós não somos hostis uns contra os outros. Mas as pessoas não estão felizes nem optimistas quanto à sua vida. (...) Mas eu quero permanecer optimista e continuar a pensar que as coisas vão evoluir.” (...) 

Sobre os cuidados que é levada a ter a Imprensa satírica, o autor descreve o mecanismo de autocensura instalado: 

“Por exemplo, se nós desenharmos o Presidente na capa da revista, os proprietários dos postos de venda, ou dos quiosques, já não colocam o jornal em exposição. Os compradores não o vêem, logo não o compram. Não porque possa acontecer que venha um agente da autoridade discutir com o vendedor, mas por autocensura. Eles próprios criam este medo.” 

“Por outro lado, nós somos prudentes. Podemos continuar a desenhar caricaturas, mas prestamos atenção, não queremos insultar ninguém. Procuramos ser sensíveis aos valores da sociedade turca.” 

“Pessoalmente, eu penso que tudo pode ser desenhado e escrito. É o meu ideal. Devemos poder exprimir o conjunto das nossas opiniões. Mas compreendo também que há diferenças culturais na Turquia. A sociedade é complicada e eu procuro manter-me sensível a este contexto. Às vezes é difícil, mas sinto orgulho porque continuamos a publicar a Uykusuz, procurando defender as nossas ideias.” (...)

 

Mais informação em Le Monde  e em L’Obs

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

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