Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Colectânea

Controlar os abusos “online” sem ferir a liberdade de expressão

A moderação de conteúdos falsos, abusivos ou ilegais, não é um problema exclusivo das plataformas que operam as grandes redes sociais  -  mas, à medida que elas cresceram, assim aumentou também a respectiva dimensão. É verdade que têm estado a tentar responder ao problema, mas as suas estratégias parecem inconsistentes e muitas vezes incompreensíveis às pessoas que servem. Para complicar as coisas, os utentes, as plataformas e os governos, todos têm “agendas” diferentes sobre o assunto.
Não é fácil encontrar consenso sobre o melhor modo de fazer moderação de conteúdos online, como ficou claro numa recente mesa redonda entre especialistas da tecnologia digital, jornalistas, juristas e académicos, realizada numa escola de Jornalismo da Califórnia e intitulada “Controlling the Conversation: The Ethics of Social Platforms and Content Moderation”.

As dificuldades começam, desde logo, pela enorme quantidade de material que circula nas redes. Como explicou Sarah Roberts, da Universidade de Los Angeles, muitos problemas “podiam ter sido evitados se as plataformas tivessem crescido de modo mais responsável e transparente”. A moderação de conteúdos complicados “devia ter sido inserida nos seus produtos, em vez de ser tratada como uma questão a ver depois”. 

Jack Dorsey, um dos criadores do Twitter, pronunciou-se recentemente (numa série de tweets) sobre o desejo da sua empresa de “melhorar a saúde colectiva, abertura e civilidade da conversação pública” que a plataforma opera, e de assumir as suas responsabilidades públicas neste sentido. O artigo que citamos conta que não é a primeira vez que o Twitter procura “controlar os conteúdos abusivos, e os esforços anteriores tiveram resultados diversos”. 

Também Abhi Chaudhuri, da Google, declara o desejo de construir ferramentas para “conter o discurso de ódio e os conteúdos tóxicos”, mantendo a diversidade de opiniões e empatia entre as pessoas. 

Mas as plataformas são apenas uma parte da equação. Os intervenientes convidados para esta conferência propuseram diversos caminhos para que tanto os utentes como os editores e os governos possam contribuir para melhorar a qualidade da conversação online

Na Europa, vários governos estão a dar passos no sentido da regulação das plataformas  - e a própria Comissão Europeia se pronunciou recentemente sobre esta matéria, como aqui referimos. 

Mas a América, como disse com ironia Emily Bell, continua a funcionar na confiança de que “o mercado livre vai proteger uma pluralidade de vozes nos media e elevar o que é bom acima do que é mau”...    

Por último, é preciso ver em que condições trabalham os referidos moderadores de conteúdos. Alguns estão instalados em escritórios em Silicon Valley, mas muitos outros em espaços de call center na Índia ou nas Filipinas: 

“O seu trabalho tende a ser mal pago, de baixo estatuto e mentalmente exigente, enquanto os moderadores vêem o que há de pior na Internet. Como disse Anita Gupta, da revista The Atlantic, os operadores devem planear fluxos de material que tenham tudo isto em conta (para que as partes mais difíceis do trabalho sejam partilhadas) e providenciar recursos adequados de saúde mental para evitar o esgotamento.”

 

O artigo citado, na Columbia Journalism Review

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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