Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

Promoção de uma ética jornalística em nome da transparência

A proliferação de “notícias falsas” veio revalorizar a importância da ética jornalística entre os profissionais da Informação, mas também entre os leitores a quem se dirige o seu trabalho.
“A promoção de uma ética jornalística ‘aberta’ instigaria o leitor a posicionar-se, não apenas em relação aos valores morais que regem a prática da profissão, mas também a tomar conhecimento sobre as técnicas utilizadas na construção de reportagens, por exemplo. Tornar estes procedimentos mais transparentes pode ser o passo inicial de uma educação voltada para os media.” É esta a reflexão inicial do Comentário da Semana de ObjEthos, o Observatório da Ética Jornalística do Brasil.

A questão de fundo  - segundo o autor, Dairan Paul -  “não tem necessariamente a intenção de ‘capacitar’ estas pessoas [os leitores] com técnicas de apuração. Afinal, quem tem tempo para verificar todas as informações que recebe, senão o próprio jornalista?” 

“A questão me parece anterior: é preciso argumentar sobre a importância de uma informação bem apurada, e demonstrar isto na prática. Parece-me mais significativo o alto percentual de pessoas que verificam a veracidade de uma notícia mesmo após consumi-la em meios jornalísticos, do que aqueles que não o fazem com mensagens de aplicativos. Em suma, estamos tratando de uma crise de credibilidade.” (...) 

O artigo que citamos refere-se a uma pesquisa  recente, sobre o consumo de informações online, realizada pelo site brasileiro Aos Factos. “Quando questionados sobre quais características podem levantar dúvidas sobre a veracidade de uma notícia, a segunda resposta mais recorrente, entre os 805 participantes, é  - ‘jornalista não explicou como chegou a tal informação’ (29,8%). Em primeiro lugar, uma sugestão direta: ‘falta de citações para fontes ou referências’ (42,5%).” 

O autor sublinha ainda os dados sobre a verificação pelos próprios leitores: “62% questionam a veracidade de informações quando consomem notícias directamente em sites de meios tradicionais da imprensa; já 40% não se mobilizam para verificar o conteúdo que recebem via redes sociais ou aplicativos de mensagens”. 

“Este ponto é interessante à medida que parece existir uma ‘cultura de desconfiança’ mais acentuada naqueles que já têm o hábito de aceder com certa frequência a sites de meios jornalísticos. O mesmo não ocorre nas outras plataformas, normalmente aquelas que servem de prato cheio para a disseminação de rumores e boatos em grupos fechados.” (...) 

Dairan Paul cita ainda outro estudo muito recente, desta vez nos Estados Unidos  - mas comentado num site brasileiro, do Farol Jornalismo -  onde se confirma que a “alfabetização mediática” (media literacy) pode, de facto, capacitar o cidadão para uma leitura mais crítica das informações que recebe, mas isso não isenta de responsabilidades os próprios media

“Ou seja, mesmo munidos de chaves, o acesso à caixa preta do jornalismo não depende apenas dos cidadãos. É preciso focar em treinamentos de alfabetização mediática, sem dúvidas. No entanto, a campanha desenfreada de grandes meios no combate às ‘notícias falsas’ aparenta passar ao largo da sua própria responsabilidade, como se diversos factoides [fake news] não tivessem já sido fabricados por jornais outrora mais prestigiados.” 

“Os dados de Aos Factos sobre o alto número de pessoas que verificam informações provenientes de jornais parecem apontar para algo: uma revisão de valores e o pedido para que as fake news sejam combatidas não apenas pelos leitores, mas também no interior das empresas.”

 

O artigo citado, em ObjEthos, que contém os links para ambos os estudos referidos

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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