Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Media

O papel dos jornais e a questão do desencontro com os leitores

Vão acabar os jornais em papel? E trata-se apenas de “um problema de suporte ou há um desencontro mais profundo entre leitores e jornais?” São perguntas que se fazem todos os dias entre jornalistas, gestores das empresas de media, docentes e estudantes de jornalismo e o público a quem os jornais são destinados. Neste caso, são algumas das questões iniciais de um extenso trabalho de Alexandra Prado Coelho, na revista P2 do Público de 4 de Março, que identifica os problemas de fundo e recolhe, dos seus entrevistados, a sugestão das alternativas possíveis. Faz ainda outro esforço  - mais difícil em plena crise de mudanças aceleradas -  o de esclarecer equívocos.

Sobre a questão da qualidade, Paula Ribeiro, editora da revista UP, da TAP, combate o equívoco de que “ninguém quer ler”. O que se cria, como diz, é “uma pescadinha de rabo na boca, em que o jornal piora porque custa caro fazer bom, e os leitores não compram porque está pior”. 

Sobre a questão do suporte, associada a esta, Paulo Moura, jornalista e docente de Jornalismo, afirma: “Dantes, o que os jornais produziam era um bem escasso e valioso e as pessoas estavam dispostas a pagar por ele. Hoje [a informação] é um bem abundante e pouco valorizado.” Os jornais poderiam fazer a diferença em relação à pouca credibilidade de sites ou outras plataformas feitas sem critérios jornalísticos mas, para isso, “era preciso que fossem credíveis”. (…) 

Ainda sobre a viabilidade do jornal impresso, Paulo Moura é taxativo: “É um produto obsoleto, que corresponde a uma outra época, a da revolução industrial e que até em termos tecnológicos não faz qualquer sentido. Tem a ver com ritmos do passado.” 

Mas é verdade que os diferentes suportes determinam diferentes ritmos de leitura e de envolvimento do leitor. Miguel Taveira, estudante, lembra que “no computador estão sempre a acontecer milhares de coisas e a há intromissões constantes no texto que estamos a ler”. 

Mesmo alguns alunos entrevistados, do curso em que Paulo Moura é professor, sublinham essa diferença:  no online “sou constantemente distraída por outras comunicações”;  “quando lemos em papel, dedicamos mais tempo só a isso, é como ler um livro”. 

A jornalista e docente Helena Ferro de Gouveia afirma: 

“É preciso devolver a lentidão ao jornalismo. É preferível sacrificar algumas notícias, mas perder tempo a contar outras bem contadas. Infantilizaram-se os leitores, achando que eles não querem ler, mas as pessoas não são tolas e querem saber as coisas. Essa infantilização é dramática para o jornalismo. E penso que o caminho é a humanização.” (…) 

E o historiador e analista político José Pacheco Pereira sublinha a necessidade de rigor deontológico e qualidade profissional, lamentando que os jornalistas “façam muito jornalismo por telefone, tenham fontes muito escassas, estejam muito dependentes das agências de comunicação, tenham falta de imaginação e façam todos as mesmas coisas, (…) “com jornalistas a citar o Facebook e o Twitter, o que é uma coisa suicidária”. Há, diz por fim, “uma cultura do deslumbramento tecnológico que os próprios jornais alimentam”. 


No suplemento P2 do Público, a reportagem sobre o futuro dos jornais em papel.

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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