Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
Media

O papel dos jornais e a questão do desencontro com os leitores

Vão acabar os jornais em papel? E trata-se apenas de “um problema de suporte ou há um desencontro mais profundo entre leitores e jornais?” São perguntas que se fazem todos os dias entre jornalistas, gestores das empresas de media, docentes e estudantes de jornalismo e o público a quem os jornais são destinados. Neste caso, são algumas das questões iniciais de um extenso trabalho de Alexandra Prado Coelho, na revista P2 do Público de 4 de Março, que identifica os problemas de fundo e recolhe, dos seus entrevistados, a sugestão das alternativas possíveis. Faz ainda outro esforço  - mais difícil em plena crise de mudanças aceleradas -  o de esclarecer equívocos.

Sobre a questão da qualidade, Paula Ribeiro, editora da revista UP, da TAP, combate o equívoco de que “ninguém quer ler”. O que se cria, como diz, é “uma pescadinha de rabo na boca, em que o jornal piora porque custa caro fazer bom, e os leitores não compram porque está pior”. 

Sobre a questão do suporte, associada a esta, Paulo Moura, jornalista e docente de Jornalismo, afirma: “Dantes, o que os jornais produziam era um bem escasso e valioso e as pessoas estavam dispostas a pagar por ele. Hoje [a informação] é um bem abundante e pouco valorizado.” Os jornais poderiam fazer a diferença em relação à pouca credibilidade de sites ou outras plataformas feitas sem critérios jornalísticos mas, para isso, “era preciso que fossem credíveis”. (…) 

Ainda sobre a viabilidade do jornal impresso, Paulo Moura é taxativo: “É um produto obsoleto, que corresponde a uma outra época, a da revolução industrial e que até em termos tecnológicos não faz qualquer sentido. Tem a ver com ritmos do passado.” 

Mas é verdade que os diferentes suportes determinam diferentes ritmos de leitura e de envolvimento do leitor. Miguel Taveira, estudante, lembra que “no computador estão sempre a acontecer milhares de coisas e a há intromissões constantes no texto que estamos a ler”. 

Mesmo alguns alunos entrevistados, do curso em que Paulo Moura é professor, sublinham essa diferença:  no online “sou constantemente distraída por outras comunicações”;  “quando lemos em papel, dedicamos mais tempo só a isso, é como ler um livro”. 

A jornalista e docente Helena Ferro de Gouveia afirma: 

“É preciso devolver a lentidão ao jornalismo. É preferível sacrificar algumas notícias, mas perder tempo a contar outras bem contadas. Infantilizaram-se os leitores, achando que eles não querem ler, mas as pessoas não são tolas e querem saber as coisas. Essa infantilização é dramática para o jornalismo. E penso que o caminho é a humanização.” (…) 

E o historiador e analista político José Pacheco Pereira sublinha a necessidade de rigor deontológico e qualidade profissional, lamentando que os jornalistas “façam muito jornalismo por telefone, tenham fontes muito escassas, estejam muito dependentes das agências de comunicação, tenham falta de imaginação e façam todos as mesmas coisas, (…) “com jornalistas a citar o Facebook e o Twitter, o que é uma coisa suicidária”. Há, diz por fim, “uma cultura do deslumbramento tecnológico que os próprios jornais alimentam”. 


No suplemento P2 do Público, a reportagem sobre o futuro dos jornais em papel.

Connosco
Aumentam assinaturas pagas de meios digitais com algumas surpresas... Ver galeria

As assinaturas pagas são a “tábua de salvação” dos jornais digitais, mas cobrar pelas notícias, neste terreno, é uma estratégia difícil de implementar. Muitos meios de comunicação hesitam em dar este passo, pelo receio de perderem leitores. No entanto, dezenas de outros tiveram êxito, seguindo estratégias diferentes e, também, com diversos graus de sucesso. A FIPP  - Federação Internacional da Imprensa Periódica -  editou recentemente o seu primeiro Global Digital Subscription Snapshot, que permite consultar a tabela com os principais meios online, comparar os seus números de assinantes e preços cobrados e, assim, obter ideias úteis para os que procuram chegar ao desejado equilíbrio financeiro sem terem de perder público.

Como captar audiência e ser fiel ao bom jornalismo Ver galeria

A crise que tem atingido os meios de comunicação, nos últimos anos, com a queda constante das receitas da publicidade e a dependência incerta da adesão dos leitores, tem conduzido editores e jornalistas a apostarem sobretudo nesta segunda direcção. Reatar relações de confiança e construir “audiências leais em torno de um jornalismo de qualidade”, parece ser o único caminho sólido, mesmo que não seja fácil. Os fundamentos da próxima geração de modelos sustentáveis de receita para os media “serão contribuições directas da sua audiência, apoiados por altos níveis de compromisso dos leitores”.

Portanto, uma espécie de “contrato social”, pelo lado do meio de comunicação e dos seus jornalistas, e uma espécie de “conversão pessoal”, pelo lado dos leitores. É esta a linha desenvolvida por um recente estudo do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA, aqui comentado em artigo publicado na 36ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

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