Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Tecnologias

Nova revista digital que... implica sair da Internet

Nasceu uma revista online que só se pode abrir... desligando a Internet. É mesmo isso. Quando se entra na Disconnect aparece um aviso a explicar: “Por favor desligue-se da Internet. Esta é uma revista exclusivamente offline de comentário, ficção e poesia.” Depois de o fazermos, o site apresenta-se na sua inteireza, muito semelhante a qualquer outra revista online. Tem pequenas histórias, poemas e ensaios, incluindo um onde se explica que, “devido à nossa crescente dependência e ao valor que temos para a Internet, o verdadeiro privilégio do futuro é como nos desligarmos e distanciarmos dela”.

Para chegarmos aqui é mesmo preciso suspendermos a ligação Wi-Fi. Não há mágica em nada disto, e a pequena “batota “ é explicada no artigo que citamos. “Todo o conteúdo da revista é descarregado quando o utente faz a primeira entrada no site, mas fica impedido de ser visto enquanto o browser não disser que está desligado. A revista inteira não tem mais do que uns 250 Kb (o ‘tamanho’ de uma pequena fotografia), porque tem poucas imagens e nenhum anúncio.” 

No fundo, o criador da Disconnect, um programador chamado Chris Bolin, tira partido das próprias funções e possibilidades do sistema para criar uma experiência de “saída” voluntária. E não se trata de um “negacionista” da Internet: 

“O tema desta edição é muito directo: os seres humanos e a nossa tecnologia. Todos os artigos descrevem um encontro com a tecnologia, seja ele intencional ou inconsequente, construtivo ou devastador. Vão lá encontrar um poema sobre uma conflituosa fome de silêncio, uma história sobre a ‘monetização’ dos mortos e uma exposição sobre o futuro das novas divisões [fronteiras] digitais.” 

O ensaio Escape: The next Digital Divide começa precisamente por esta frase: “Nós podemos ser capazes de aceder e fazer sentido [do uso] da Internet. Mas sair dela está a tornar-se um privilégio.” Outra frase do mesmo texto: “Nós lutamos por sair da Internet porque nos tornámos como ratos de laboratório, condicionados a ficar à espera da recompensa.” 

Chris Bolin diz que foi levado a criar The Disconnect, em parte porque deu conta da sua própria tendência para uma espécie de dependência da Internet, em que a pessoa acaba “a saltar de link para link sem qualquer propósito, até ver que passou horas nisto”. 

A Internet é uma grande ferramenta para procurar informação  - diz ainda. “Mas não foi realmente pensada para as pessoas  - ou antes, foi pensada para pessoas perfeitas. Se nós fôssemos máquinas, podíamos decidir quais daqueles links são realmente importantes para o nosso trabalho, e seguir só esses.” 

“Mas, para seres humanos, o desconhecido é sempre mais interessante, e então abrimos um link noutro sítio, e depois mais... É como a emoção da caça.” (...) 

Ironia final: Chris Bolin não instalou, deliberadamente, qualquer ferramenta de medida de tráfego, como a Google Analytics, porque o tema da revista é precisamente o desconectar-se. Mas recentemente passou os olhos pelos dados do servidor que usa para hospedar a revista e descobriu que tinham aparecido mais de 50 mil visitantes únicos só nas primeiras duas semanas...

 

O artigo citado, na Columbia Journalism Review

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media. É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira. É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco...
Augusto Cid, uma obra quase monumental
António Gomes de Almeida
Com o falecimento de Augusto Cid, desaparece um dos mais conhecidos desenhadores de Humor portugueses, com uma obra que pode considerar-se quase monumental. Desenhou milhares de cartoons, fez livros, e até teve a suprema honra de ver parte da sua obra apreendida – depois do 25 de Abril (!) – e tornou-se conhecido, entre outras, por estas duas razões: pelas piadas sibilinas lançadas contra o general Ramalho Eanes, e por fazer parte do combativo grupo das...
Uma edição fraca
Manuel Falcão
Já se sabe que a revista “Monocle” é uma grande utilizadora criativa do conceito de conteúdos patrocinados, frequentemente dissimulados de forma editorial elegante e sedutora. O grafismo da revista continua contemporâneo, apesar de não ter tido muitas evoluções desde que foi lançada em 2007. Em contrapartida, o espaço ocupado por conteúdos patrocinados tem vindo sempre a aumentar, por vezes demais, até se...
Duas atitudes face ao jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
No recente encontro em Roma, no Vaticano, sobre o dramático caso dos abusos sexuais por elementos do clero católico, a vários níveis, ouviram-se vozes agradecendo a jornalistas que investigaram e divulgaram abusos. É uma justa atitude.  Dir-se-á que alguns jornalistas terão procurado o escândalo e, também, denegrir a imagem da Igreja. Talvez. Mas o verdadeiro escândalo é que padres, bispos e cardeais, em vez de...
Jornalismo a meia-haste
Graça Franco
Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O...
Agenda
30
Mar
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
31
Mar
Radiodays Europe
09:00 @ Lausanne, Suiça
01
Abr
Digital Media Europe 2019
09:00 @ Viena,Áustria
08
Abr
25
Abr
Social Media Camp
09:00 @ Victoria, Canada