Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Tecnologias

Nova revista digital que... implica sair da Internet

Nasceu uma revista online que só se pode abrir... desligando a Internet. É mesmo isso. Quando se entra na Disconnect aparece um aviso a explicar: “Por favor desligue-se da Internet. Esta é uma revista exclusivamente offline de comentário, ficção e poesia.” Depois de o fazermos, o site apresenta-se na sua inteireza, muito semelhante a qualquer outra revista online. Tem pequenas histórias, poemas e ensaios, incluindo um onde se explica que, “devido à nossa crescente dependência e ao valor que temos para a Internet, o verdadeiro privilégio do futuro é como nos desligarmos e distanciarmos dela”.

Para chegarmos aqui é mesmo preciso suspendermos a ligação Wi-Fi. Não há mágica em nada disto, e a pequena “batota “ é explicada no artigo que citamos. “Todo o conteúdo da revista é descarregado quando o utente faz a primeira entrada no site, mas fica impedido de ser visto enquanto o browser não disser que está desligado. A revista inteira não tem mais do que uns 250 Kb (o ‘tamanho’ de uma pequena fotografia), porque tem poucas imagens e nenhum anúncio.” 

No fundo, o criador da Disconnect, um programador chamado Chris Bolin, tira partido das próprias funções e possibilidades do sistema para criar uma experiência de “saída” voluntária. E não se trata de um “negacionista” da Internet: 

“O tema desta edição é muito directo: os seres humanos e a nossa tecnologia. Todos os artigos descrevem um encontro com a tecnologia, seja ele intencional ou inconsequente, construtivo ou devastador. Vão lá encontrar um poema sobre uma conflituosa fome de silêncio, uma história sobre a ‘monetização’ dos mortos e uma exposição sobre o futuro das novas divisões [fronteiras] digitais.” 

O ensaio Escape: The next Digital Divide começa precisamente por esta frase: “Nós podemos ser capazes de aceder e fazer sentido [do uso] da Internet. Mas sair dela está a tornar-se um privilégio.” Outra frase do mesmo texto: “Nós lutamos por sair da Internet porque nos tornámos como ratos de laboratório, condicionados a ficar à espera da recompensa.” 

Chris Bolin diz que foi levado a criar The Disconnect, em parte porque deu conta da sua própria tendência para uma espécie de dependência da Internet, em que a pessoa acaba “a saltar de link para link sem qualquer propósito, até ver que passou horas nisto”. 

A Internet é uma grande ferramenta para procurar informação  - diz ainda. “Mas não foi realmente pensada para as pessoas  - ou antes, foi pensada para pessoas perfeitas. Se nós fôssemos máquinas, podíamos decidir quais daqueles links são realmente importantes para o nosso trabalho, e seguir só esses.” 

“Mas, para seres humanos, o desconhecido é sempre mais interessante, e então abrimos um link noutro sítio, e depois mais... É como a emoção da caça.” (...) 

Ironia final: Chris Bolin não instalou, deliberadamente, qualquer ferramenta de medida de tráfego, como a Google Analytics, porque o tema da revista é precisamente o desconectar-se. Mas recentemente passou os olhos pelos dados do servidor que usa para hospedar a revista e descobriu que tinham aparecido mais de 50 mil visitantes únicos só nas primeiras duas semanas...

 

O artigo citado, na Columbia Journalism Review

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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