Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
Tecnologias

Nova revista digital que... implica sair da Internet

Nasceu uma revista online que só se pode abrir... desligando a Internet. É mesmo isso. Quando se entra na Disconnect aparece um aviso a explicar: “Por favor desligue-se da Internet. Esta é uma revista exclusivamente offline de comentário, ficção e poesia.” Depois de o fazermos, o site apresenta-se na sua inteireza, muito semelhante a qualquer outra revista online. Tem pequenas histórias, poemas e ensaios, incluindo um onde se explica que, “devido à nossa crescente dependência e ao valor que temos para a Internet, o verdadeiro privilégio do futuro é como nos desligarmos e distanciarmos dela”.

Para chegarmos aqui é mesmo preciso suspendermos a ligação Wi-Fi. Não há mágica em nada disto, e a pequena “batota “ é explicada no artigo que citamos. “Todo o conteúdo da revista é descarregado quando o utente faz a primeira entrada no site, mas fica impedido de ser visto enquanto o browser não disser que está desligado. A revista inteira não tem mais do que uns 250 Kb (o ‘tamanho’ de uma pequena fotografia), porque tem poucas imagens e nenhum anúncio.” 

No fundo, o criador da Disconnect, um programador chamado Chris Bolin, tira partido das próprias funções e possibilidades do sistema para criar uma experiência de “saída” voluntária. E não se trata de um “negacionista” da Internet: 

“O tema desta edição é muito directo: os seres humanos e a nossa tecnologia. Todos os artigos descrevem um encontro com a tecnologia, seja ele intencional ou inconsequente, construtivo ou devastador. Vão lá encontrar um poema sobre uma conflituosa fome de silêncio, uma história sobre a ‘monetização’ dos mortos e uma exposição sobre o futuro das novas divisões [fronteiras] digitais.” 

O ensaio Escape: The next Digital Divide começa precisamente por esta frase: “Nós podemos ser capazes de aceder e fazer sentido [do uso] da Internet. Mas sair dela está a tornar-se um privilégio.” Outra frase do mesmo texto: “Nós lutamos por sair da Internet porque nos tornámos como ratos de laboratório, condicionados a ficar à espera da recompensa.” 

Chris Bolin diz que foi levado a criar The Disconnect, em parte porque deu conta da sua própria tendência para uma espécie de dependência da Internet, em que a pessoa acaba “a saltar de link para link sem qualquer propósito, até ver que passou horas nisto”. 

A Internet é uma grande ferramenta para procurar informação  - diz ainda. “Mas não foi realmente pensada para as pessoas  - ou antes, foi pensada para pessoas perfeitas. Se nós fôssemos máquinas, podíamos decidir quais daqueles links são realmente importantes para o nosso trabalho, e seguir só esses.” 

“Mas, para seres humanos, o desconhecido é sempre mais interessante, e então abrimos um link noutro sítio, e depois mais... É como a emoção da caça.” (...) 

Ironia final: Chris Bolin não instalou, deliberadamente, qualquer ferramenta de medida de tráfego, como a Google Analytics, porque o tema da revista é precisamente o desconectar-se. Mas recentemente passou os olhos pelos dados do servidor que usa para hospedar a revista e descobriu que tinham aparecido mais de 50 mil visitantes únicos só nas primeiras duas semanas...

 

O artigo citado, na Columbia Journalism Review

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Portanto, uma espécie de “contrato social”, pelo lado do meio de comunicação e dos seus jornalistas, e uma espécie de “conversão pessoal”, pelo lado dos leitores. É esta a linha desenvolvida por um recente estudo do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA, aqui comentado em artigo publicado na 36ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

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