Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Tecnologias

Nova revista digital que... implica sair da Internet

Nasceu uma revista online que só se pode abrir... desligando a Internet. É mesmo isso. Quando se entra na Disconnect aparece um aviso a explicar: “Por favor desligue-se da Internet. Esta é uma revista exclusivamente offline de comentário, ficção e poesia.” Depois de o fazermos, o site apresenta-se na sua inteireza, muito semelhante a qualquer outra revista online. Tem pequenas histórias, poemas e ensaios, incluindo um onde se explica que, “devido à nossa crescente dependência e ao valor que temos para a Internet, o verdadeiro privilégio do futuro é como nos desligarmos e distanciarmos dela”.

Para chegarmos aqui é mesmo preciso suspendermos a ligação Wi-Fi. Não há mágica em nada disto, e a pequena “batota “ é explicada no artigo que citamos. “Todo o conteúdo da revista é descarregado quando o utente faz a primeira entrada no site, mas fica impedido de ser visto enquanto o browser não disser que está desligado. A revista inteira não tem mais do que uns 250 Kb (o ‘tamanho’ de uma pequena fotografia), porque tem poucas imagens e nenhum anúncio.” 

No fundo, o criador da Disconnect, um programador chamado Chris Bolin, tira partido das próprias funções e possibilidades do sistema para criar uma experiência de “saída” voluntária. E não se trata de um “negacionista” da Internet: 

“O tema desta edição é muito directo: os seres humanos e a nossa tecnologia. Todos os artigos descrevem um encontro com a tecnologia, seja ele intencional ou inconsequente, construtivo ou devastador. Vão lá encontrar um poema sobre uma conflituosa fome de silêncio, uma história sobre a ‘monetização’ dos mortos e uma exposição sobre o futuro das novas divisões [fronteiras] digitais.” 

O ensaio Escape: The next Digital Divide começa precisamente por esta frase: “Nós podemos ser capazes de aceder e fazer sentido [do uso] da Internet. Mas sair dela está a tornar-se um privilégio.” Outra frase do mesmo texto: “Nós lutamos por sair da Internet porque nos tornámos como ratos de laboratório, condicionados a ficar à espera da recompensa.” 

Chris Bolin diz que foi levado a criar The Disconnect, em parte porque deu conta da sua própria tendência para uma espécie de dependência da Internet, em que a pessoa acaba “a saltar de link para link sem qualquer propósito, até ver que passou horas nisto”. 

A Internet é uma grande ferramenta para procurar informação  - diz ainda. “Mas não foi realmente pensada para as pessoas  - ou antes, foi pensada para pessoas perfeitas. Se nós fôssemos máquinas, podíamos decidir quais daqueles links são realmente importantes para o nosso trabalho, e seguir só esses.” 

“Mas, para seres humanos, o desconhecido é sempre mais interessante, e então abrimos um link noutro sítio, e depois mais... É como a emoção da caça.” (...) 

Ironia final: Chris Bolin não instalou, deliberadamente, qualquer ferramenta de medida de tráfego, como a Google Analytics, porque o tema da revista é precisamente o desconectar-se. Mas recentemente passou os olhos pelos dados do servidor que usa para hospedar a revista e descobriu que tinham aparecido mais de 50 mil visitantes únicos só nas primeiras duas semanas...

 

O artigo citado, na Columbia Journalism Review

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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