Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Fórum

Quando as redes sociais se convertem em fontes de jornalistas

A rede Twitter está a mudar os hábitos de trabalho de muitos jornalistas, que passaram a utilizá-la como fonte de notícias. Se uma história se converte em trending topic, parece inevitável que os jornalistas façam eco dela. Segundo The New York Times, “tornou-se um espaço onde muitos jornalistas constroem inconscientemente uma cosmovisão, onde vão buscar um sentido sobre aquilo que é importante e merece cobertura, e aquilo que não é”. Mas um único utente pode criar muitas contas e há programas que multiplicam exponencialmente os tweets. Se o perigo do Facebook é a divulgação de histórias falsas, o do Twitter é o de ser “uma fábrica de pessoas falsas”. Estas questões são abordadas num estudo de Félix Bahón, jornalista e investigador, na 35ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O artigo do NYT, que aqui citamos, adverte que “o interesse concentrado sobre o Facebook fez com que esta outra rede social passasse despercebida”. A maior atenção que se lhe dá agora provém, naturalmente, do facto de ser a preferida de Donald Trump e de muitos outros dirigentes políticos e pessoas famosas em todo o mundo. 

“O sistema permite construir a ilusão de popularidade para um candidato ou para uma ideia determinada. A plataforma também encoraja o fervor pelas métricas, porque cada tweet vem com um número que contabiliza os likes e as partilhas conseguidas. Os jornalistas interiorizaram estas métricas como se fossem reflexo do mundo real.” (...) 

Segundo Félix Bahón, na Espanha as pessoas ainda se lembram de como, em 2014, “a conta de Twitter de Mariano Rajoy teve um incremento suspeito de admiradores fantasmas; não eram outra coisa senão perfis controlados por máquinas. Cerca de 60 mil seguidores do presidente do Governo espanhol eram árabes”. 

“No ano passado, Albert Rivera, dirigente do Ciudadanos, gerou 269 mil interacções no Facebook. A notícia mais replicada foi que o seu partido ia recuperar o serviço militar para os jovens ni-nis (os que não estudam nem têm trabalho). Na mesma plataforma, centenas de milhares de utentes partilharam que o Partido Popular não queria operários na Universidade, ou que o Podemos pretendia proibir as procissões para não ofender os muçulmanos.” (...) 

O segundo tema tratado pelo longo estudo de Félix Bahón passa do Twitter para outra forma de engano a que o jornalismo também está exposto: a mais recente tecnologia desenvolvida no terreno da inteligência artificial “permite criar vídeos falsos extremamente convincentes”. Citando Ian Goodfellow, investigador científico da Google Brain, “isto fará com que a sociedade acabe por se habituar a consumir imagens falsas, tal como já o fez com o uso indevido do Photoshop”. 

Félix Bahón acrescenta: 

“O séc. XX foi o da imagem, do ‘ver para crer’. O começo do séc. XXI apresenta-se como o da era do cepticismo. Não só as notícias e as imagens podem ser falsas, como também os vídeos. Goodfellow acredita que num futuro próximo haverá investigadores ou agentes de qualquer outro país manipulando imagens e áudios de políticos.” 

Um exemplo conhecido, de uma declaração do ex-Presidente Barack Obama, pode ser visto em futureoffakenews.com

Intitulada “Um futuro cheio de mentiras”, a terceira secção do estudo que citamos refere-se às defesas possíveis contra estas ameaças e ao recente relatório do Conselho Europeu  - Information Disorder, que apela a todos os governos no sentido de actuarem contra a difusão de boatos, advertindo que o auge do WhatsApp e outros sistemas privados de mensagens facilita a proliferação de notícias e vídeos falsos. 

“Os jornalistas, como profissionais da comunicação, também devem preparar-se. É preciso ter em conta que, ao contrário deles, os utentes não desejam histórias verdadeiras. Desde que encaixem na sua visão do mundo, é suficiente. Uma mensagem escrita com sentido de humor por alguém que inspira confiança, sobretudo se toca no universo emocional, é susceptível de se tornar ‘viral’. A razão não intervém.” (...) 

Outros temas incluídos neste estudo tratam dos comentários supostamente verdadeiros, mas na realidade fabricados para gerar “correntes de opinião favoráveis a uma marca, um partido ou uma ideia”;  do Reddit, utilizado por The Washington Post como fórum para interagir com os leitores;  do manual interno criado por The New York Times para que os seus redactores saibam como proceder nas redes sociais;  e do modo como os media de informação financeira procuram também adaptar-se a este novo tipo de globalização informativa. 

Os sete artigos encontram-se acessíveis, pela ordem aqui descrita, num único documento que pode ser recolhido em PDF, na edição referida de Cuadernos de Periodistas.

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
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