Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Fórum

Quando as redes sociais se convertem em fontes de jornalistas

A rede Twitter está a mudar os hábitos de trabalho de muitos jornalistas, que passaram a utilizá-la como fonte de notícias. Se uma história se converte em trending topic, parece inevitável que os jornalistas façam eco dela. Segundo The New York Times, “tornou-se um espaço onde muitos jornalistas constroem inconscientemente uma cosmovisão, onde vão buscar um sentido sobre aquilo que é importante e merece cobertura, e aquilo que não é”. Mas um único utente pode criar muitas contas e há programas que multiplicam exponencialmente os tweets. Se o perigo do Facebook é a divulgação de histórias falsas, o do Twitter é o de ser “uma fábrica de pessoas falsas”. Estas questões são abordadas num estudo de Félix Bahón, jornalista e investigador, na 35ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O artigo do NYT, que aqui citamos, adverte que “o interesse concentrado sobre o Facebook fez com que esta outra rede social passasse despercebida”. A maior atenção que se lhe dá agora provém, naturalmente, do facto de ser a preferida de Donald Trump e de muitos outros dirigentes políticos e pessoas famosas em todo o mundo. 

“O sistema permite construir a ilusão de popularidade para um candidato ou para uma ideia determinada. A plataforma também encoraja o fervor pelas métricas, porque cada tweet vem com um número que contabiliza os likes e as partilhas conseguidas. Os jornalistas interiorizaram estas métricas como se fossem reflexo do mundo real.” (...) 

Segundo Félix Bahón, na Espanha as pessoas ainda se lembram de como, em 2014, “a conta de Twitter de Mariano Rajoy teve um incremento suspeito de admiradores fantasmas; não eram outra coisa senão perfis controlados por máquinas. Cerca de 60 mil seguidores do presidente do Governo espanhol eram árabes”. 

“No ano passado, Albert Rivera, dirigente do Ciudadanos, gerou 269 mil interacções no Facebook. A notícia mais replicada foi que o seu partido ia recuperar o serviço militar para os jovens ni-nis (os que não estudam nem têm trabalho). Na mesma plataforma, centenas de milhares de utentes partilharam que o Partido Popular não queria operários na Universidade, ou que o Podemos pretendia proibir as procissões para não ofender os muçulmanos.” (...) 

O segundo tema tratado pelo longo estudo de Félix Bahón passa do Twitter para outra forma de engano a que o jornalismo também está exposto: a mais recente tecnologia desenvolvida no terreno da inteligência artificial “permite criar vídeos falsos extremamente convincentes”. Citando Ian Goodfellow, investigador científico da Google Brain, “isto fará com que a sociedade acabe por se habituar a consumir imagens falsas, tal como já o fez com o uso indevido do Photoshop”. 

Félix Bahón acrescenta: 

“O séc. XX foi o da imagem, do ‘ver para crer’. O começo do séc. XXI apresenta-se como o da era do cepticismo. Não só as notícias e as imagens podem ser falsas, como também os vídeos. Goodfellow acredita que num futuro próximo haverá investigadores ou agentes de qualquer outro país manipulando imagens e áudios de políticos.” 

Um exemplo conhecido, de uma declaração do ex-Presidente Barack Obama, pode ser visto em futureoffakenews.com

Intitulada “Um futuro cheio de mentiras”, a terceira secção do estudo que citamos refere-se às defesas possíveis contra estas ameaças e ao recente relatório do Conselho Europeu  - Information Disorder, que apela a todos os governos no sentido de actuarem contra a difusão de boatos, advertindo que o auge do WhatsApp e outros sistemas privados de mensagens facilita a proliferação de notícias e vídeos falsos. 

“Os jornalistas, como profissionais da comunicação, também devem preparar-se. É preciso ter em conta que, ao contrário deles, os utentes não desejam histórias verdadeiras. Desde que encaixem na sua visão do mundo, é suficiente. Uma mensagem escrita com sentido de humor por alguém que inspira confiança, sobretudo se toca no universo emocional, é susceptível de se tornar ‘viral’. A razão não intervém.” (...) 

Outros temas incluídos neste estudo tratam dos comentários supostamente verdadeiros, mas na realidade fabricados para gerar “correntes de opinião favoráveis a uma marca, um partido ou uma ideia”;  do Reddit, utilizado por The Washington Post como fórum para interagir com os leitores;  do manual interno criado por The New York Times para que os seus redactores saibam como proceder nas redes sociais;  e do modo como os media de informação financeira procuram também adaptar-se a este novo tipo de globalização informativa. 

Os sete artigos encontram-se acessíveis, pela ordem aqui descrita, num único documento que pode ser recolhido em PDF, na edição referida de Cuadernos de Periodistas.

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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