Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Colectânea

Quando as "fake news" se tornam uma indústria organizada

Quando se fala em fake news, pensamos primeiro em hackers individuais e na sua instrumentalização por políticos tornados trolls da Internet, conflituosos e interessados em impor de modo agressivo os seus “factos alternativos”. Mas há situações em que a produção se torna uma autêntica indústria organizada, com “arquitectos” permanentes  - que podem ser, fora dessa actividade, profissionais integrados em trabalhos respeitáveis. Dois investigadores curiosos, de uma universidade britânica e de outra nos EUA, foram ver o que se passa por detrás das campanhas de desinformação nas Filipinas e ficaram surpreendidos com o que encontraram. O seu estudo, Architects of Networked Disinformation, está disponível.

“Nenhuma tecnologia foi transformada em arma a uma escala tão global e nunca vista como a das redes sociais. Várias abordagens de investigação procuram agora entender como é que os computadores portáteis e os smartphones em todo o mundo são usados para manipular o debate público, sequestrar a agenda dos media de referência e influenciar resultados políticos”  -  afirma-se na introdução deste trabalho.

Jonathan Ong, da University of Massachussetts Amherst, nos Estados Unidos, e Jason Cabañes, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, levaram a cabo uma investigação que durou um ano inteiro, entrevistando estes “arquitectos da desinformação” e fazendo a observação online das contas falsas operadas por eles.

Descobriram que se trata de “uma hierarquia profissionalizada de operadores políticos que mantêm os seus empregos normais como executivos de publicidade e relações públicas, programadores de computador e funcionários administrativos de [instâncias] políticas”.

“Nós tínhamos, no início, a curiosidade de conhecer o tipo de pessoas que se tornam ‘trolls remunerados’ e de saber de que modo conseguem viver com esse estigma”  - diz Jonathan Ong. “Ao conhecermos as pessoas por detrás de contas falsas no Facebook, descobrimos que há de facto uma hierarquia profissionalizada, com estrategos de publicidade e relações públicas no topo.”

O sumário deste estudo identifica sete conclusões principais:

1.    – Está disseminado [nas Filipinas] o uso de contas falsas e influencers remunerados por operações políticas, no Facebook e no Twitter. Vários partidos políticos, tanto a nível nacional como local, fazem uso destes “exércitos dos clicks”. (…)

2.    – Os políticos empregam frequentemente estrategos de campanha provenientes das agências locais de publicidade e relações públicas, como ‘arquitectos’ dirigentes para as campanhas de desinformação pela Internet. (…)

3.    – Estes estrategos de publicidade e relações públicas delegam a responsabilidade do marketing político, recorrendo maciçamente ao trabalho dos influencers digitais (que têm desde 50 mil até dois milhões de seguidores no Facebook e Twitter) e de operadores de contas falsas a nível comunitário (que operam manualmente perfis falsos para se infiltrarem em grupos e páginas noticiosas)  - e muito residualmente a robots automatizados. Há diversos níveis de pagamento para cada um destes grupos de pessoas. (…)

4.    – Os trabalhadores da desinformação são motivados de modos diferentes, tanto a nível financeiro, como político, social ou psicológico. “A infraestrutura da desinformação pela Internet está construída sobre uma relação de colegialidades competitivas. As pessoas que entrevistámos são em primeiro lugar levadas por motivações financeiras, mas na maioria estão de facto politicamente alinhadas com o seu cliente”. (…)

5.    – O trabalho de operar contas falsas para políticos implica modos semelhantes de ‘sempre online’, ou flexível, e modelos de (auto)-exploração, como outro trabalho freelance online. No entanto, é acompanhado pelo esforço emocional de stress, para o justificar, tanto perante os outros como perante si mesmo. (…)

6.    – Estas campanhas de desinformação operam com duas dinâmicas opostas: por um lado, “participação e cooperação colectiva entre trabalhadores da desinformação que são informados por um script comum”; por outro, “a ‘viralidade’ volátil que assenta na intuição e criatividade individual dos trabalhadores, na forma de traduzirem um script para posts nas redes sociais, que atingem uma divulgação máxima, mesmo que não controlada”. (…)

7.    – Embora ninguém realmente admita que é um troll, toda a gente na hierarquia da desinformação parece envolver-se em vários graus de trolling. (…)

Mais informação no Poynter.org, que contém os links para a síntese e o relatório na íntegra, em PDF

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
Um relatório recente sobre os princípios de actuação mais frequentes dos maiores publishers digitais dá algumas indicações que vale a pena ter em conta. O estudo “Digital Publishers Report”, divulgado pelo site Digiday, analisa as práticas de uma centena de editores e destaca alguns factores que, na sua opinião, permitem obter os melhores resultados. O estudo estima que as receitas provenientes de conteúdo digital...
E lá se foi mais um daqueles Artistas geniais que tornam a existência humana mais suportável… Guillermo Mordillo era um daqueles raríssimos autores que não precisam de palavras para nos revelarem os aspectos mais evidentes, e também os mais escondidos, das nossas vidas – os alegres, os menos alegres, os cómicos, os ridículos, até os trágicos -- com um traço redondo, que dava aos seus bonecos uma vivacidade...
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set