Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Colectânea

Quando as "fake news" se tornam uma indústria organizada

Quando se fala em fake news, pensamos primeiro em hackers individuais e na sua instrumentalização por políticos tornados trolls da Internet, conflituosos e interessados em impor de modo agressivo os seus “factos alternativos”. Mas há situações em que a produção se torna uma autêntica indústria organizada, com “arquitectos” permanentes  - que podem ser, fora dessa actividade, profissionais integrados em trabalhos respeitáveis. Dois investigadores curiosos, de uma universidade britânica e de outra nos EUA, foram ver o que se passa por detrás das campanhas de desinformação nas Filipinas e ficaram surpreendidos com o que encontraram. O seu estudo, Architects of Networked Disinformation, está disponível.

“Nenhuma tecnologia foi transformada em arma a uma escala tão global e nunca vista como a das redes sociais. Várias abordagens de investigação procuram agora entender como é que os computadores portáteis e os smartphones em todo o mundo são usados para manipular o debate público, sequestrar a agenda dos media de referência e influenciar resultados políticos”  -  afirma-se na introdução deste trabalho.

Jonathan Ong, da University of Massachussetts Amherst, nos Estados Unidos, e Jason Cabañes, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, levaram a cabo uma investigação que durou um ano inteiro, entrevistando estes “arquitectos da desinformação” e fazendo a observação online das contas falsas operadas por eles.

Descobriram que se trata de “uma hierarquia profissionalizada de operadores políticos que mantêm os seus empregos normais como executivos de publicidade e relações públicas, programadores de computador e funcionários administrativos de [instâncias] políticas”.

“Nós tínhamos, no início, a curiosidade de conhecer o tipo de pessoas que se tornam ‘trolls remunerados’ e de saber de que modo conseguem viver com esse estigma”  - diz Jonathan Ong. “Ao conhecermos as pessoas por detrás de contas falsas no Facebook, descobrimos que há de facto uma hierarquia profissionalizada, com estrategos de publicidade e relações públicas no topo.”

O sumário deste estudo identifica sete conclusões principais:

1.    – Está disseminado [nas Filipinas] o uso de contas falsas e influencers remunerados por operações políticas, no Facebook e no Twitter. Vários partidos políticos, tanto a nível nacional como local, fazem uso destes “exércitos dos clicks”. (…)

2.    – Os políticos empregam frequentemente estrategos de campanha provenientes das agências locais de publicidade e relações públicas, como ‘arquitectos’ dirigentes para as campanhas de desinformação pela Internet. (…)

3.    – Estes estrategos de publicidade e relações públicas delegam a responsabilidade do marketing político, recorrendo maciçamente ao trabalho dos influencers digitais (que têm desde 50 mil até dois milhões de seguidores no Facebook e Twitter) e de operadores de contas falsas a nível comunitário (que operam manualmente perfis falsos para se infiltrarem em grupos e páginas noticiosas)  - e muito residualmente a robots automatizados. Há diversos níveis de pagamento para cada um destes grupos de pessoas. (…)

4.    – Os trabalhadores da desinformação são motivados de modos diferentes, tanto a nível financeiro, como político, social ou psicológico. “A infraestrutura da desinformação pela Internet está construída sobre uma relação de colegialidades competitivas. As pessoas que entrevistámos são em primeiro lugar levadas por motivações financeiras, mas na maioria estão de facto politicamente alinhadas com o seu cliente”. (…)

5.    – O trabalho de operar contas falsas para políticos implica modos semelhantes de ‘sempre online’, ou flexível, e modelos de (auto)-exploração, como outro trabalho freelance online. No entanto, é acompanhado pelo esforço emocional de stress, para o justificar, tanto perante os outros como perante si mesmo. (…)

6.    – Estas campanhas de desinformação operam com duas dinâmicas opostas: por um lado, “participação e cooperação colectiva entre trabalhadores da desinformação que são informados por um script comum”; por outro, “a ‘viralidade’ volátil que assenta na intuição e criatividade individual dos trabalhadores, na forma de traduzirem um script para posts nas redes sociais, que atingem uma divulgação máxima, mesmo que não controlada”. (…)

7.    – Embora ninguém realmente admita que é um troll, toda a gente na hierarquia da desinformação parece envolver-se em vários graus de trolling. (…)

Mais informação no Poynter.org, que contém os links para a síntese e o relatório na íntegra, em PDF

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...