Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Colectânea

Quando as "fake news" se tornam uma indústria organizada

Quando se fala em fake news, pensamos primeiro em hackers individuais e na sua instrumentalização por políticos tornados trolls da Internet, conflituosos e interessados em impor de modo agressivo os seus “factos alternativos”. Mas há situações em que a produção se torna uma autêntica indústria organizada, com “arquitectos” permanentes  - que podem ser, fora dessa actividade, profissionais integrados em trabalhos respeitáveis. Dois investigadores curiosos, de uma universidade britânica e de outra nos EUA, foram ver o que se passa por detrás das campanhas de desinformação nas Filipinas e ficaram surpreendidos com o que encontraram. O seu estudo, Architects of Networked Disinformation, está disponível.

“Nenhuma tecnologia foi transformada em arma a uma escala tão global e nunca vista como a das redes sociais. Várias abordagens de investigação procuram agora entender como é que os computadores portáteis e os smartphones em todo o mundo são usados para manipular o debate público, sequestrar a agenda dos media de referência e influenciar resultados políticos”  -  afirma-se na introdução deste trabalho.

Jonathan Ong, da University of Massachussetts Amherst, nos Estados Unidos, e Jason Cabañes, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, levaram a cabo uma investigação que durou um ano inteiro, entrevistando estes “arquitectos da desinformação” e fazendo a observação online das contas falsas operadas por eles.

Descobriram que se trata de “uma hierarquia profissionalizada de operadores políticos que mantêm os seus empregos normais como executivos de publicidade e relações públicas, programadores de computador e funcionários administrativos de [instâncias] políticas”.

“Nós tínhamos, no início, a curiosidade de conhecer o tipo de pessoas que se tornam ‘trolls remunerados’ e de saber de que modo conseguem viver com esse estigma”  - diz Jonathan Ong. “Ao conhecermos as pessoas por detrás de contas falsas no Facebook, descobrimos que há de facto uma hierarquia profissionalizada, com estrategos de publicidade e relações públicas no topo.”

O sumário deste estudo identifica sete conclusões principais:

1.    – Está disseminado [nas Filipinas] o uso de contas falsas e influencers remunerados por operações políticas, no Facebook e no Twitter. Vários partidos políticos, tanto a nível nacional como local, fazem uso destes “exércitos dos clicks”. (…)

2.    – Os políticos empregam frequentemente estrategos de campanha provenientes das agências locais de publicidade e relações públicas, como ‘arquitectos’ dirigentes para as campanhas de desinformação pela Internet. (…)

3.    – Estes estrategos de publicidade e relações públicas delegam a responsabilidade do marketing político, recorrendo maciçamente ao trabalho dos influencers digitais (que têm desde 50 mil até dois milhões de seguidores no Facebook e Twitter) e de operadores de contas falsas a nível comunitário (que operam manualmente perfis falsos para se infiltrarem em grupos e páginas noticiosas)  - e muito residualmente a robots automatizados. Há diversos níveis de pagamento para cada um destes grupos de pessoas. (…)

4.    – Os trabalhadores da desinformação são motivados de modos diferentes, tanto a nível financeiro, como político, social ou psicológico. “A infraestrutura da desinformação pela Internet está construída sobre uma relação de colegialidades competitivas. As pessoas que entrevistámos são em primeiro lugar levadas por motivações financeiras, mas na maioria estão de facto politicamente alinhadas com o seu cliente”. (…)

5.    – O trabalho de operar contas falsas para políticos implica modos semelhantes de ‘sempre online’, ou flexível, e modelos de (auto)-exploração, como outro trabalho freelance online. No entanto, é acompanhado pelo esforço emocional de stress, para o justificar, tanto perante os outros como perante si mesmo. (…)

6.    – Estas campanhas de desinformação operam com duas dinâmicas opostas: por um lado, “participação e cooperação colectiva entre trabalhadores da desinformação que são informados por um script comum”; por outro, “a ‘viralidade’ volátil que assenta na intuição e criatividade individual dos trabalhadores, na forma de traduzirem um script para posts nas redes sociais, que atingem uma divulgação máxima, mesmo que não controlada”. (…)

7.    – Embora ninguém realmente admita que é um troll, toda a gente na hierarquia da desinformação parece envolver-se em vários graus de trolling. (…)

Mais informação no Poynter.org, que contém os links para a síntese e o relatório na íntegra, em PDF

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


ver mais >
Opinião
Costuma dizer-se que “no melhor pano cai a nódoa”. E assim aconteceu com o prestigiado jornal americano “The New New York Times” ao decidir publicar, como opinião, um artigo não assinado com o sugestivo titulo “I Am Part of the Resistance Inside the Trump Administration”, que dispensa tradução. Depois do saudável movimento, que congregou, recentemente, 350 jornais americanos, em resposta ao apelo do The Boston Globe,...
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
Agenda
20
Set
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
24
Set
Ateliê de Jornalismo Televisivo
09:00 @ Cenjor, Lisboa
24
Set
25
Set
The Radio Show
09:00 @ Orlando, Florida, USA