Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Media

A sorte ou a desgraça de um jornal ser comprado por um milionário

Um multi-milionário que compra um jornal em dificuldades pode ser uma bênção ou uma maldição. Pode ser um visionário ou um iludido, convencido de que sabe tudo mesmo fora do seu elemento. Pode levar ao desastre. Há exemplos recentes, nos Estados Unidos, e um jornalista e docente na Northeastern University, Dan Kennedy, escreveu um livro comparando várias destas situações. Quando Patrick Soon-Chiong adquiriu o Los Angeles Times, alguns dos jornalistas da casa contaram-lhe como tinham ficado tristes, em 2013, quando Jeff Bezos comprou The Washington Post em vez do jornal deles. Pode um multi-milionário “consertar” o negócio de uma empresa noticiosa, nestes tempos difíceis?

Dan Kennedy explica que “Bezos tem sido um sucesso animador por motivos que não são facilmente repetíveis. Outros proprietários ricos, mesmo com a melhor das intenções, têm descoberto que a sorte em declínio do negócio dos jornais pode ser gerida, não revertida. Não se trata de dizer que não há passos que se possam dar no sentido de repor os jornais num caminho financeiro mais sólido. Mas não há curas milagrosas.” 

“Bezos tem uma grande auto-estima, mas tem revelado uma autêntica humildade na condução do Post  - especialmente na parte jornalística, onde deixou que seja o director executivo, Marty Baron, a fazer o seu trabalho sem interferência. Com mais jornalistas e mais recursos, Baron tem conseguido reinventar o Post, devolvendo-o aos tempos gloriosos dos anos 70 e 80, quando ele competia de frente com The New York Times.” (...) 

“O que Bezos tem feito é trazer desenvolvimento tecnológico e experiência dos consumidores, duas lições que ele aprendeu à frente da Amazon. Teria sido um desastre se Bezos ordenasse ao Baron que fizesse esta reportagem em vez daquela. (...) The Washington Post, hoje, não é só uma grande empresa noticiosa. É também uma locomotiva tecnológica.” (...) 

Infelizmente, segundo Dan Kennedy, nem todos os donos ricos de outros jornais têm conseguido imitar Bezos. “’Dar a volta’” a um grande jornal regional como o Boston Globe, por exemplo, é quase impossível. Nos seus primeiros anos ao leme, John Henry desenvolveu vários projectos digitais e expandiu secções impressas, mas acabou por voltar atrás e despedir pessoal. Agora está a ter algum êxito com as assinaturas digitais pagas, mas as novas instalações de impressão, projectadas para custarem menos e servirem a outros jornais, têm sido afectadas por problemas.” (...) 

O seu comentário a respeito de Los Angeles Times é que, mesmo em anos em que foi detido por propritários de má qualidade, o jornal conseguiu continuar a fazer um trabalho excelente, pelo que “não será necessário um esforço hercúleo para o pôr no bom caminho”. 

“Se Patrick Soo-Siong estiver disposto a subsidiar os prejuízos enquanto dá aos seus executivos o tempo e os recursos de que precisam para encontrar um novo modelo de negócio, deixando trabalhar a redacção com a independência de que precisa, estará a prestar um enorme serviço, tal como fizeram Jeff Bezos e John Henry. Todos esperamos que seja exactamente isto o que ele tem em mente.” 

 

Mais informação no Poynter.org, onde se encontra outro texto recente sobre esta mesma matéria

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Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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