Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Media

A sorte ou a desgraça de um jornal ser comprado por um milionário

Um multi-milionário que compra um jornal em dificuldades pode ser uma bênção ou uma maldição. Pode ser um visionário ou um iludido, convencido de que sabe tudo mesmo fora do seu elemento. Pode levar ao desastre. Há exemplos recentes, nos Estados Unidos, e um jornalista e docente na Northeastern University, Dan Kennedy, escreveu um livro comparando várias destas situações. Quando Patrick Soon-Chiong adquiriu o Los Angeles Times, alguns dos jornalistas da casa contaram-lhe como tinham ficado tristes, em 2013, quando Jeff Bezos comprou The Washington Post em vez do jornal deles. Pode um multi-milionário “consertar” o negócio de uma empresa noticiosa, nestes tempos difíceis?

Dan Kennedy explica que “Bezos tem sido um sucesso animador por motivos que não são facilmente repetíveis. Outros proprietários ricos, mesmo com a melhor das intenções, têm descoberto que a sorte em declínio do negócio dos jornais pode ser gerida, não revertida. Não se trata de dizer que não há passos que se possam dar no sentido de repor os jornais num caminho financeiro mais sólido. Mas não há curas milagrosas.” 

“Bezos tem uma grande auto-estima, mas tem revelado uma autêntica humildade na condução do Post  - especialmente na parte jornalística, onde deixou que seja o director executivo, Marty Baron, a fazer o seu trabalho sem interferência. Com mais jornalistas e mais recursos, Baron tem conseguido reinventar o Post, devolvendo-o aos tempos gloriosos dos anos 70 e 80, quando ele competia de frente com The New York Times.” (...) 

“O que Bezos tem feito é trazer desenvolvimento tecnológico e experiência dos consumidores, duas lições que ele aprendeu à frente da Amazon. Teria sido um desastre se Bezos ordenasse ao Baron que fizesse esta reportagem em vez daquela. (...) The Washington Post, hoje, não é só uma grande empresa noticiosa. É também uma locomotiva tecnológica.” (...) 

Infelizmente, segundo Dan Kennedy, nem todos os donos ricos de outros jornais têm conseguido imitar Bezos. “’Dar a volta’” a um grande jornal regional como o Boston Globe, por exemplo, é quase impossível. Nos seus primeiros anos ao leme, John Henry desenvolveu vários projectos digitais e expandiu secções impressas, mas acabou por voltar atrás e despedir pessoal. Agora está a ter algum êxito com as assinaturas digitais pagas, mas as novas instalações de impressão, projectadas para custarem menos e servirem a outros jornais, têm sido afectadas por problemas.” (...) 

O seu comentário a respeito de Los Angeles Times é que, mesmo em anos em que foi detido por propritários de má qualidade, o jornal conseguiu continuar a fazer um trabalho excelente, pelo que “não será necessário um esforço hercúleo para o pôr no bom caminho”. 

“Se Patrick Soo-Siong estiver disposto a subsidiar os prejuízos enquanto dá aos seus executivos o tempo e os recursos de que precisam para encontrar um novo modelo de negócio, deixando trabalhar a redacção com a independência de que precisa, estará a prestar um enorme serviço, tal como fizeram Jeff Bezos e John Henry. Todos esperamos que seja exactamente isto o que ele tem em mente.” 

 

Mais informação no Poynter.org, onde se encontra outro texto recente sobre esta mesma matéria

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...