Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

O Facebook "puxa o tapete" à Imprensa após "namoro" promissor...

A mais recente mudança aplicada pelo Facebook ao conteúdo do seu News Feed “marca uma reviravolta na estratégia de fidelização do público, tornando ainda mais complexa a batalha da Imprensa para sobreviver na era digital”. E, “se o balanço do ‘namoro jornalístico’ entre Facebook e grandes jornais não foi muito promissor, os resultados da aposta publicitária pela Imprensa também não foram animadores, especialmente para as publicações menores”. As consequências de tudo isto “podem mudar os rumos da guerra surda entre Imprensa e redes sociais virtuais, porque reabrem a polémica sobre se elas podem ser consideradas meios de comunicação, ou se são apenas uma plataforma tecnológica, sem compromissos editorais ou jornalísticos”.

É esta a reflexão inicial de Carlos Castilho, jornalista e investigador académico, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria. O seu texto faz uma espécie de revisão da matéria dada sobre este problema e descreve a surpresa e alarme com que a referida mudança foi recebida pelos media que tinham arriscado muito  - demasiado -  naquela relação.

“A nova orientação editorial altera drasticamente a relação entre a rede e boa parte da Imprensa que, há pouco mais de dois anos, achou que o Facebook poderia ser uma excelente oportunidade para ampliar audiências e obter um facturamento publicitário adicional. Na época, foram muitos os que advertiram jornais, revistas e empresas de rádio ou televisão, de que a aposta na ampliação de audiência poderia ser ilusória e perigosa, pois a rede de Mark Zuckerberg passaria a controlar a relação da Imprensa com o público, sem a garantia de receitas capazes de resolver a crise no modelo de negócios dos media.” (...) 

Numa primeira fase, as audiências da fonte de notícias do Facebook estabilizaram, nos países ricos, “num patamar de 45% do total geral de acessos a este tipo de conteúdo, embora ainda seja quase duas vezes e meia maior do que no YouTube, o segundo colocado no ranking, com 18%”. (...) 

Mas a receita publicitária não acompanhou as expectativas: 

“Apenas os grandes jornais conseguiram alguma receita com anúncios na área de notícias do Facebook. Os pequenos e médios ficaram bem longe das expectativas iniciais, facto que também se repetiu na questão das audiências. Só depois é que os jornais perceberam que audiência e tráfego não significam a mesma coisa. Audiência implica fidelização de leitores, enquanto o tráfego mede apenas o número de pessoas que acedem à página, sem a preocupação de voltar. 
Facebook oferece circulação de notícias mas não audiências fiéis.” (...) 

Segundo Carlos Castilho, duas questões, bem mais sérias e complexas, passam a preocupar os utentes das grandes plataformas: 

“A primeira é sobre o controlo das redes sociais e a outra é sobre os problemas resultantes da globalização das estruturas e estratégias destas mesmas redes. A decisão do Facebook de mudar a sua estratégia de publicação de notícias, bem como outras decisões tomadas anteriormente, mostra que os utentes têm pouco poder de interferência nas opções da empresa. Isto coloca quase dois biliões e meio de pessoas, espalhadas pelo mundo, na dependência das decisões de Mark Zuckerberg, um executivo de apenas 33 anos, e dos seus assessores.” (...) 

“Ao alterar a sua estratégia editorial em função de problemas políticos e comerciais nos Estados Unidos e Europa, o Facebook impôs a nova orientação a todas as demais nações do mundo onde existem utentes da rede. No caso dos países ricos, seguramente surgirão alternativas para o que Zuckerberg já não acha mais rentável, mas na América Latina, África, Ásia e Oriente Médio, as populações ainda dependem muito do Facebook e serão empurradas para um vácuo em matéria de redes sociais.” (...) 

 

O artigo de Carlos Castilho, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...