Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Media

Relatório confirma agravamento das restrições aos jornalistas na China

O trabalho de um jornalista estrangeiro na China é “uma permanente corrida de obstáculos”. Em Dezembro, o Foreign Correspondents’ Club of China, “uma organização de tipo anglo-saxónico que representa os grandes media ocidentais”, publicou o seu relatório anual referente a 2017. Este documento, intitulado “Acesso Interdito  - vigilância, assédio e intimidação na deterioração das condições de reportagem na China”, descreve uma série de episódios que confirmam o agravamento de limitações que já vinham do passado recente, mas parecem estar a intensificar-se.

Segundo Le Monde, que aqui citamos, há as ameaças veladas de não-renovação do visto de residência anual e pressões no momento de a requerer, “com o responsável pelo nosso dossier lembrando-nos, com um prazer maldoso, depois de ter visto o nosso computador, onde estávamos em tal dia a determinada hora”. 

“Ou as convocatórias, decerto amigáveis, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, por motivo de artigos que desagradam ou que ‘chocam’  - como aconteceu recentemente aos nossos colegas do Monde Afrique sobre as escutas efectuadas pelas [autoridades de] Pequim na sede da União Africana.” 

“E há, por vezes, o telefonema do intérprete da Segurança do Estado   - o serviço chinês de contra-espiongagem -  para ‘beber um chá’ (ou uma cerveja) perto da nossa casa. Os oficiais são amáveis e nunca sabemos exactamente onde querem chegar.” (...) 

Notícia do Foreign Correspondents’ Club de Hong Kong diz que o relatório revela um aumento significativo no número dos correspondentes estrangeiros que acham que o seu trabalho se tornou mais difícil, “com pressão crescente das autoridades para bloquear a reportagem em áreas que consideram sensíveis, como Xinjiang, a fronteira com a Coreia do Norte e zonas industriais”. 

O inquérito que está na base do relatório foi respondido por 117 dos 218 correspondentes membros. São seis as principais conclusões:

  1. – Um número de 40% declara que as condições pioraram em 2017, comparado com os 29% do relatório de 2016.
  2. – As condições são mais difíceis em determinadas áreas, especialmente em Xinjiang, a região chinesa mais ocidental. 73% dos que lá foram contam que as autoridades e agentes de segurança lhes disseram que fazer reportagem era proibido ou restringido, comparado com 42% em 2016.
  3. – Cerca de 15% encontraram dificuldades no processo de renovação, quando tinham sido 6% no ano anterior.
  4. – Os correspondentes declaram níveis maIs elevados de preocupação quanto a vigilância e invasão de privacidade.
  5. – Cerca de metade diz que experimentou “interferência, assédio e violência física”, mais ou menos do mesmo modo que em 2016.
  6. – As fontes de informação na China continuam a sofrer consequências negativas por interagirem com jornalistas estrangeiros. 26% dos correspondentes contam que as suas fontes foram molestadas, detidas ou chamadas a interrogatório, à semelhança do ocorrido em 2016.

 

Mais informação em Le Monde  e no Foreign Correspondents’ Club de Hong Kong. O relatório na íntegra, em PDF

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...