Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

Leitores "online" estão a mudar a cultura do jornalismo

O diário The Guardian e o semanário Observer, nas suas edições em papel, correspondem naturalmente à cultura da área geográfica em que nasceram e são distribuídos. A edição digital projecta-se para os Estados Unidos e a Austrália, tornando inevitável o desenvolvimento de uma cultura jornalística distinta, “enriquecida por uma audiência que está ligada pela língua inglesa mas que, de muitos outros modos, é culturalmente diferente”. Paul Chadwick, o provedor do leitor a nível global, considera-se privilegiado por poder assistir ao seu crescimento, dando conta das diversas pressões e sensibilidades envolvidas neste processo.

Para ter uma ideia das proporções, note-se que a tiragem média diária do Guardian, de segunda a sábado, é de 151.625 exemplares. A do Observer, aos domingos, é de 175.401. Mas o seu conteúdo nas plataformas digitais é usado, em todo o mundo, por cerca de 140 milhões de visitantes únicos por mês. 

Como explica Paul Chadwick, “isto tem as suas pressões”: 

“Em alguns países, certas palavras ou imagens são mais ofensivas do que noutros. Que sensibilidades devem prevalecer? Nesta era de sentimento nacionalista poderoso, expressões de orgulho e de rivalidade podem ser apaixonadamente debatidas por meio de um serviço jornalístico digital em que ambos os lados se sentem em casa, num certo sentido de conforto virtual. Que lealdades deverão ceder, ou aparentar fazê-lo?” (...) 

Na impossibilidade de responder pessoalmente a todos os reparos, o provedor e a sua equipa de apoio assumem um critério de proporcionalidade definido em sete pontos:

  1. – A seriedade do assunto.
  2. – A verosimilhança do dano.
  3. – O potencial de engano.
  4. – A proximidade da pessoa à substância do assunto apresentado.
  5. -  Até que ponto a matéria específica indica uma causa sistémica.
  6. – A escala da resposta da audiência ao assunto.
  7. – O grau de risco de dano para a reputação do Guardian/Observer.

A concluir, o provedor afirma que nenhum destes pontos da lista tem precedência exclusiva, e que o velho imperativo continua, de proporcionar uma autêntica auto-regulação e manter o jornalismo livre de regulação específica do governo. 

O artigo citado, em The Guardian

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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