Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Leitores "online" estão a mudar a cultura do jornalismo

O diário The Guardian e o semanário Observer, nas suas edições em papel, correspondem naturalmente à cultura da área geográfica em que nasceram e são distribuídos. A edição digital projecta-se para os Estados Unidos e a Austrália, tornando inevitável o desenvolvimento de uma cultura jornalística distinta, “enriquecida por uma audiência que está ligada pela língua inglesa mas que, de muitos outros modos, é culturalmente diferente”. Paul Chadwick, o provedor do leitor a nível global, considera-se privilegiado por poder assistir ao seu crescimento, dando conta das diversas pressões e sensibilidades envolvidas neste processo.

Para ter uma ideia das proporções, note-se que a tiragem média diária do Guardian, de segunda a sábado, é de 151.625 exemplares. A do Observer, aos domingos, é de 175.401. Mas o seu conteúdo nas plataformas digitais é usado, em todo o mundo, por cerca de 140 milhões de visitantes únicos por mês. 

Como explica Paul Chadwick, “isto tem as suas pressões”: 

“Em alguns países, certas palavras ou imagens são mais ofensivas do que noutros. Que sensibilidades devem prevalecer? Nesta era de sentimento nacionalista poderoso, expressões de orgulho e de rivalidade podem ser apaixonadamente debatidas por meio de um serviço jornalístico digital em que ambos os lados se sentem em casa, num certo sentido de conforto virtual. Que lealdades deverão ceder, ou aparentar fazê-lo?” (...) 

Na impossibilidade de responder pessoalmente a todos os reparos, o provedor e a sua equipa de apoio assumem um critério de proporcionalidade definido em sete pontos:

  1. – A seriedade do assunto.
  2. – A verosimilhança do dano.
  3. – O potencial de engano.
  4. – A proximidade da pessoa à substância do assunto apresentado.
  5. -  Até que ponto a matéria específica indica uma causa sistémica.
  6. – A escala da resposta da audiência ao assunto.
  7. – O grau de risco de dano para a reputação do Guardian/Observer.

A concluir, o provedor afirma que nenhum destes pontos da lista tem precedência exclusiva, e que o velho imperativo continua, de proporcionar uma autêntica auto-regulação e manter o jornalismo livre de regulação específica do governo. 

O artigo citado, em The Guardian

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
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