Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Fecham mais jornais nos EUA e projectos de reportagem em risco

Demissões, despedimentos e fecho de jornais não são novidade, mas parece que há cada vez mais. “Ou talvez seja uma coisa que vem por ondas e, se for assim, estamos a atravessar uma das grandes”. Todos os dias aparecem mais casos, e há o receio de que a recente decisão do Facebook de reduzir a prioridade do material noticioso na plataforma venha acelerar os estragos. A reflexão é de Mathew Ingram, redactor principal da Columbia Journalism Review para o digital.

O primeiro exemplo que relata é o de que, precisamente um dia depois de a CJR ter publicado um texto sobre as dificuldades de alguns jornalistas estrangeiros em venderem o seu material freelance, o director do International Reporting Project (da Fundação New America) anunciou que este projecto vai fechar. 

“O IRP financiou jornalismo, durante mais de duas décadas, em mais de 115 países. Não foi explicado o motivo desta decisão.”

“Entretanto, estão em curso demissões significativas na Digital First Media, uma cadeia de jornais, muitos deles na Califórmia, entre os quais The Orange County Register. A secção em Los Angeles da Society for Professional Journalists  exprimiu, em comunicado, a sua ‘tristeza, frustração e consternação’ pelos cortes no Southern California News Group, daquela empresa. 

“As pessoas queixam-se frequentemente de uma governação local indiferente e irresponsável, e o desaparecimento do jornalismo local é uma parte importante do motivo por que isto ocorre”  - afirma a SPJ

Os cortes também chegaram ao maior jornal do estado do Oregon, The Oregonian, “com mais de onze membros da equipa a perderem o emprego, na sexta vaga de despedimentos ali ocorrida nos últimos anos”. Numa mensagem à redacção, o próprio editor, Mark Katches, desabafa: “Vocês estão provavelmente a interrogar-se sobre quando é que estes cortes vão acabar... Eu gostava de poder responder a isso.”

E acrescenta:

“Embora tenhamos conseguido progressos no aumento da nossa audiência digital, produzindo ao mesmo tempo um jornalismo importante e que ganha prémios, o retrato da receita continua a pôr problemas à nossa empresa.” (...) 

Entre outros exemplos que acrescenta a este mau cenário, o texto de Mthew Ingram aponta: 

O fecho das delegações no estrangeiro  - ainda não anunciado oficialmente -  da revista Foreign Policy, “historicamente um dos mais fiáveis destinos para freelancers que desejem escrever reportagens internacionais investigadas em profundidade”. 

O Charleston Gazette-Mail, um jornal de propriedade familiar na Virgínia Ocidental, que no ano passado tinha ganho um Prémio Pulitzer de jornalismo de investigação, requereu declaração de falência. A Wheeling Newspapers, que publica semanários em várias cidades da região, é o candidato mais provável à sua aquisição. 

Farhad Manjoo, do New York Times, responsabiliza a indústria da publicidade por tudo o que de mau acontece na Internet, dizendo que ela “recolhe e cataloga constantemente dados sobre o nosso comportamento, cria incentivos para ‘monetizar’ os nossos desejos mais privados e depois, com frequência abre brechas que as pessoas mais sombrias têm o maior interesse em explorar”. (...)

 

O texto citado, na Columbia Journalism Review

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

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