null, 26 de Maio, 2019
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Os Media e o "blockchain": revolução ou oportunismo

Em épocas de crise, não entendemos bem o que se passa e temos receio do que vem a seguir. E desconfiamos de promessas de um futuro melhor ao virar da esquina, bom demais para ser verdade.

Neste princípio da revolução digital, “a extraordinária proliferação de meios não trouxe uma melhoria da qualidade informativa, antes pelo contrário”. Há 31 mil jornalistas desempregados na Espanha, proliferam as “notícias falsas” ou manipuladas, mas “começa a iluminar-se uma grande esperança disruptora, que se chama cadeia de blocos”. É esta a reflexão inicial de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, num artigo que apresenta o blockchain como podendo vir a ser “a verdadeira revolução do jornalismo”.

Os primeiros parágrafos do texto que citamos têm mais perguntas do que respostas. O principal documento de referência é o IX Relatório da Perspectivas Wellcomm 2018, sobre La comunicación en la era blockchain, que se apresenta como uma recolha de depoimentos de 20 peritos sobre esta nova tecnologia, “que tem um potencial difícil de calcular, porque ainda estamos numa fase muito inicial desta nova fronteira”. 

A sua fundadora Silvia Albert reconhece que “esta revolução que vem aí está ainda imatura e todos temos de fazer um esforço para entendê-la e segui-la”. E Rosa Matias, directora de projectos da WellComm, acrescenta que “nós, jornalistas, vamos usar blockchains do mesmo modo como há décadas usamos o correio electrónico: sem entender os meandros técnicos do seu funcionamento”. (...)

O texto de Miguel Ormaetxea dá um passo no sentido do esclarecimento quando acrescenta que a tecnologia blockchain “vai abrir a porta a novos modelos de negócio sem precedentes para os meios de comunicação, mas também para a comunicação corporativa e a publicidade”: 

“Já há plataformas blockchain que põem em contacto directo leitores com jornalistas, nas quais se produzem pequenas transacções pelo procedimento de contratos automáticos por conteúdos jornalísticos, que inclusivamente são pagos em criptomoedas. Nestas plataformas, o público poderá solicitar que se investiguem determinados temas  e os jornalistas disponíveis fornecerão os seus trabalhos, que serão remunerados de forma imediata e automática em pequenas transacções por parte dos que utilizem este material.” (...) 

Miguel Ormaetxea cita depois o website espanhol Blockchain Media, de onde retira frases como:

“O Blockchain promete deixar fora do ecossistema os agregadores de conteúdos e as associações que gerem os direitos de autor.” 

“O Blockchain descentraliza a indústria do cinema, música e televisão, outorgando aos criativos a capacidade de se relacionarem com as suas audiências e eliminarem os intermediários.” (...) 

Já existem plataformas blockchain para jornalistas, volta a dizer o autor, citando o exemplo de MetaX e de Civil, nos EUA, esta com mais de 200 jornalistas. E acrescenta: 

“As audiências dos meios de comunicação digitais são com demasiada frequência um cúmulo de falsidades auto-alimentadas. Esta tecnologia oferecerá a possibilidade de conhecer a realidade de forma incontestável.” (...) 

Miguel Ormaetxea conclui:

“Ainda é cedo para saber se estas promessas vão tornar-se realidade, mas nós, profissionais que nos dedicamos à informação e à comunicação, bem como os empresários dos meios de comunicação, faríamos bem em seguir muito de perto esta fronteira.”

 

O artigo citado, a notícia de apresentação do Relatório referido e mais informação recente sobre Blockchain, em The Guardian

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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