Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
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Os Media e o "blockchain": revolução ou oportunismo

Em épocas de crise, não entendemos bem o que se passa e temos receio do que vem a seguir. E desconfiamos de promessas de um futuro melhor ao virar da esquina, bom demais para ser verdade.

Neste princípio da revolução digital, “a extraordinária proliferação de meios não trouxe uma melhoria da qualidade informativa, antes pelo contrário”. Há 31 mil jornalistas desempregados na Espanha, proliferam as “notícias falsas” ou manipuladas, mas “começa a iluminar-se uma grande esperança disruptora, que se chama cadeia de blocos”. É esta a reflexão inicial de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, num artigo que apresenta o blockchain como podendo vir a ser “a verdadeira revolução do jornalismo”.

Os primeiros parágrafos do texto que citamos têm mais perguntas do que respostas. O principal documento de referência é o IX Relatório da Perspectivas Wellcomm 2018, sobre La comunicación en la era blockchain, que se apresenta como uma recolha de depoimentos de 20 peritos sobre esta nova tecnologia, “que tem um potencial difícil de calcular, porque ainda estamos numa fase muito inicial desta nova fronteira”. 

A sua fundadora Silvia Albert reconhece que “esta revolução que vem aí está ainda imatura e todos temos de fazer um esforço para entendê-la e segui-la”. E Rosa Matias, directora de projectos da WellComm, acrescenta que “nós, jornalistas, vamos usar blockchains do mesmo modo como há décadas usamos o correio electrónico: sem entender os meandros técnicos do seu funcionamento”. (...)

O texto de Miguel Ormaetxea dá um passo no sentido do esclarecimento quando acrescenta que a tecnologia blockchain “vai abrir a porta a novos modelos de negócio sem precedentes para os meios de comunicação, mas também para a comunicação corporativa e a publicidade”: 

“Já há plataformas blockchain que põem em contacto directo leitores com jornalistas, nas quais se produzem pequenas transacções pelo procedimento de contratos automáticos por conteúdos jornalísticos, que inclusivamente são pagos em criptomoedas. Nestas plataformas, o público poderá solicitar que se investiguem determinados temas  e os jornalistas disponíveis fornecerão os seus trabalhos, que serão remunerados de forma imediata e automática em pequenas transacções por parte dos que utilizem este material.” (...) 

Miguel Ormaetxea cita depois o website espanhol Blockchain Media, de onde retira frases como:

“O Blockchain promete deixar fora do ecossistema os agregadores de conteúdos e as associações que gerem os direitos de autor.” 

“O Blockchain descentraliza a indústria do cinema, música e televisão, outorgando aos criativos a capacidade de se relacionarem com as suas audiências e eliminarem os intermediários.” (...) 

Já existem plataformas blockchain para jornalistas, volta a dizer o autor, citando o exemplo de MetaX e de Civil, nos EUA, esta com mais de 200 jornalistas. E acrescenta: 

“As audiências dos meios de comunicação digitais são com demasiada frequência um cúmulo de falsidades auto-alimentadas. Esta tecnologia oferecerá a possibilidade de conhecer a realidade de forma incontestável.” (...) 

Miguel Ormaetxea conclui:

“Ainda é cedo para saber se estas promessas vão tornar-se realidade, mas nós, profissionais que nos dedicamos à informação e à comunicação, bem como os empresários dos meios de comunicação, faríamos bem em seguir muito de perto esta fronteira.”

 

O artigo citado, a notícia de apresentação do Relatório referido e mais informação recente sobre Blockchain, em The Guardian

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...