Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Fórum

Os Media e o "blockchain": revolução ou oportunismo

Em épocas de crise, não entendemos bem o que se passa e temos receio do que vem a seguir. E desconfiamos de promessas de um futuro melhor ao virar da esquina, bom demais para ser verdade.

Neste princípio da revolução digital, “a extraordinária proliferação de meios não trouxe uma melhoria da qualidade informativa, antes pelo contrário”. Há 31 mil jornalistas desempregados na Espanha, proliferam as “notícias falsas” ou manipuladas, mas “começa a iluminar-se uma grande esperança disruptora, que se chama cadeia de blocos”. É esta a reflexão inicial de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, num artigo que apresenta o blockchain como podendo vir a ser “a verdadeira revolução do jornalismo”.

Os primeiros parágrafos do texto que citamos têm mais perguntas do que respostas. O principal documento de referência é o IX Relatório da Perspectivas Wellcomm 2018, sobre La comunicación en la era blockchain, que se apresenta como uma recolha de depoimentos de 20 peritos sobre esta nova tecnologia, “que tem um potencial difícil de calcular, porque ainda estamos numa fase muito inicial desta nova fronteira”. 

A sua fundadora Silvia Albert reconhece que “esta revolução que vem aí está ainda imatura e todos temos de fazer um esforço para entendê-la e segui-la”. E Rosa Matias, directora de projectos da WellComm, acrescenta que “nós, jornalistas, vamos usar blockchains do mesmo modo como há décadas usamos o correio electrónico: sem entender os meandros técnicos do seu funcionamento”. (...)

O texto de Miguel Ormaetxea dá um passo no sentido do esclarecimento quando acrescenta que a tecnologia blockchain “vai abrir a porta a novos modelos de negócio sem precedentes para os meios de comunicação, mas também para a comunicação corporativa e a publicidade”: 

“Já há plataformas blockchain que põem em contacto directo leitores com jornalistas, nas quais se produzem pequenas transacções pelo procedimento de contratos automáticos por conteúdos jornalísticos, que inclusivamente são pagos em criptomoedas. Nestas plataformas, o público poderá solicitar que se investiguem determinados temas  e os jornalistas disponíveis fornecerão os seus trabalhos, que serão remunerados de forma imediata e automática em pequenas transacções por parte dos que utilizem este material.” (...) 

Miguel Ormaetxea cita depois o website espanhol Blockchain Media, de onde retira frases como:

“O Blockchain promete deixar fora do ecossistema os agregadores de conteúdos e as associações que gerem os direitos de autor.” 

“O Blockchain descentraliza a indústria do cinema, música e televisão, outorgando aos criativos a capacidade de se relacionarem com as suas audiências e eliminarem os intermediários.” (...) 

Já existem plataformas blockchain para jornalistas, volta a dizer o autor, citando o exemplo de MetaX e de Civil, nos EUA, esta com mais de 200 jornalistas. E acrescenta: 

“As audiências dos meios de comunicação digitais são com demasiada frequência um cúmulo de falsidades auto-alimentadas. Esta tecnologia oferecerá a possibilidade de conhecer a realidade de forma incontestável.” (...) 

Miguel Ormaetxea conclui:

“Ainda é cedo para saber se estas promessas vão tornar-se realidade, mas nós, profissionais que nos dedicamos à informação e à comunicação, bem como os empresários dos meios de comunicação, faríamos bem em seguir muito de perto esta fronteira.”

 

O artigo citado, a notícia de apresentação do Relatório referido e mais informação recente sobre Blockchain, em The Guardian

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Como está o papel?
Manuel Falcão
Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio. Ao ritmo a que...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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