Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Fórum

Os Media e o "blockchain": revolução ou oportunismo

Em épocas de crise, não entendemos bem o que se passa e temos receio do que vem a seguir. E desconfiamos de promessas de um futuro melhor ao virar da esquina, bom demais para ser verdade.

Neste princípio da revolução digital, “a extraordinária proliferação de meios não trouxe uma melhoria da qualidade informativa, antes pelo contrário”. Há 31 mil jornalistas desempregados na Espanha, proliferam as “notícias falsas” ou manipuladas, mas “começa a iluminar-se uma grande esperança disruptora, que se chama cadeia de blocos”. É esta a reflexão inicial de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics, num artigo que apresenta o blockchain como podendo vir a ser “a verdadeira revolução do jornalismo”.

Os primeiros parágrafos do texto que citamos têm mais perguntas do que respostas. O principal documento de referência é o IX Relatório da Perspectivas Wellcomm 2018, sobre La comunicación en la era blockchain, que se apresenta como uma recolha de depoimentos de 20 peritos sobre esta nova tecnologia, “que tem um potencial difícil de calcular, porque ainda estamos numa fase muito inicial desta nova fronteira”. 

A sua fundadora Silvia Albert reconhece que “esta revolução que vem aí está ainda imatura e todos temos de fazer um esforço para entendê-la e segui-la”. E Rosa Matias, directora de projectos da WellComm, acrescenta que “nós, jornalistas, vamos usar blockchains do mesmo modo como há décadas usamos o correio electrónico: sem entender os meandros técnicos do seu funcionamento”. (...)

O texto de Miguel Ormaetxea dá um passo no sentido do esclarecimento quando acrescenta que a tecnologia blockchain “vai abrir a porta a novos modelos de negócio sem precedentes para os meios de comunicação, mas também para a comunicação corporativa e a publicidade”: 

“Já há plataformas blockchain que põem em contacto directo leitores com jornalistas, nas quais se produzem pequenas transacções pelo procedimento de contratos automáticos por conteúdos jornalísticos, que inclusivamente são pagos em criptomoedas. Nestas plataformas, o público poderá solicitar que se investiguem determinados temas  e os jornalistas disponíveis fornecerão os seus trabalhos, que serão remunerados de forma imediata e automática em pequenas transacções por parte dos que utilizem este material.” (...) 

Miguel Ormaetxea cita depois o website espanhol Blockchain Media, de onde retira frases como:

“O Blockchain promete deixar fora do ecossistema os agregadores de conteúdos e as associações que gerem os direitos de autor.” 

“O Blockchain descentraliza a indústria do cinema, música e televisão, outorgando aos criativos a capacidade de se relacionarem com as suas audiências e eliminarem os intermediários.” (...) 

Já existem plataformas blockchain para jornalistas, volta a dizer o autor, citando o exemplo de MetaX e de Civil, nos EUA, esta com mais de 200 jornalistas. E acrescenta: 

“As audiências dos meios de comunicação digitais são com demasiada frequência um cúmulo de falsidades auto-alimentadas. Esta tecnologia oferecerá a possibilidade de conhecer a realidade de forma incontestável.” (...) 

Miguel Ormaetxea conclui:

“Ainda é cedo para saber se estas promessas vão tornar-se realidade, mas nós, profissionais que nos dedicamos à informação e à comunicação, bem como os empresários dos meios de comunicação, faríamos bem em seguir muito de perto esta fronteira.”

 

O artigo citado, a notícia de apresentação do Relatório referido e mais informação recente sobre Blockchain, em The Guardian

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Os actuais detentores da Global Media, proprietária do Diário de Noticias e do Jornal de Noticias, além da TSF e de outros títulos, parecem estar a especializar-se como uma espécie  de “comissão  liquidatária” da empresa. Depois de alienarem  o edifício-sede histórico do Diário de Noticias , construído de raiz para albergar aquele jornal centenário,  segundo um projecto de Pardal...
Zé Manel, o talento e a sensualidade
António Gomes de Almeida
Geralmente considerado um dos mais talentosos ilustradores portugueses, a sua arte manifestou-se sob várias facetas, desde as Capas e as Ilustrações de Livros à Banda Desenhada, aos Cartazes, ao Cartoon, à Caricatura e, até, ao Vitral. E será, provavelmente, essa dispersão por tantos meios de expressão da sua Arte que fez com que demorasse algum tempo, antes de ser tão conhecido do grande público, e de ter a...
Jornalismo a meia-haste
Graça Franco
Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O...
O problema do umbigo
Manuel Falcão
O fim da Quadratura do Círculo é o fim de uma época e o sinal de uma mudança. A SIC Notícias já não é líder no cabo, os intervenientes do programa acomodaram-se, deixou de haver valor acrescentado. Em termos de audiência, foram caindo - passar dos 50 mil espectadores já era raro e a média do último trimestre de 2018 foi 43.500, o share de audiência do programa esteve abaixo do share médio...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
Agenda
20
Fev
Social Media Week: Austin
09:00 @ Austin, Texas , EUA
26
Fev
Digital Summit Seattle
09:00 @ Seattle, EUA
02
Mar
LinkedIn para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa
04
Mar
Simpósio de Radiodifusão Digital da ABU
09:00 @ Kuala Lumpur, Malásia