Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Estudo

Crise de confiança afecta os Media e as redes sociais

Uma recente sondagem, a nível global, sobre a questão da confiança nos media, revela que as pessoas que não confiam são o dobro das que o fazem. Mas, como apesar disso também mostra que a confiança nos jornalistas é um pouco superior à que se tem nas “plataformas”, há empresas noticiosas que estão a receber estes dados como boas notícias. James Ball, que foi editor de projectos especiais no diário britânico The Guardian, aconselha os media de referência a não se deixarem distrair por esta “guerra a fingir com os gigantes das redes sociais”, porque a situação continua a não ser boa. Pior do que isso, uma porção significativa da audiência do jornalismo tradicional tende a “desistir” das notícias, por as achar demasiado “deprimentes” ou “tendenciosas”.

O Trust Barometer 2018 da consultora Edelman não trata só dos media, mas estuda os níveis de confiança em quatro tipos de instituições: empresas, governos, meios de comunicação e organizações não-governamentais. Vale a pena consultar o documento original e ler as curvas da evolução recente em cada um destes territórios dos 28 países avaliados (Portugal não está incluído). 

James Ball, autor do livro Post-Truth: How Bullshit Conquered the World  -  “A Pós-Verdade: como as tretas conquistaram o mundo”, chama a atenção para o equívoco de uma leitura demasiado optimista deste estudo: 

“Ao insistirem no mau resultado das redes sociais, as empresas dos media tradicionais estão a combater uma guerra errada: só porque a confiança nos gigantes das redes sociais está em queda  - o que não é surpresa depois de um ano focado em fake news, propaganda russa e ‘bolhas de filtro’ -  isso não torna, automaticamente, as coisas melhores para o jornalismo tradicional.” (...) 

“Dos que responderam ao inquérito, 66% disseram que os media estão mais interessados em atrair grandes audiências do que em fazer reportagem; 65% disseram acreditar que eles sacrificam a exactidão para serem os primeiros a dar a notícia; e 59% disseram que os media dão prioridade ao apoio de uma ideologia, acima da informação do seu público.” (...) 

Ainda segundo este autor, o que é “mais alarmante” é que um terço da população do Reino Unido está simplesmente a desistir de ler notícias, e algumas destas pessoas encontram-se no sector demográfico que é mais apetecível aos anunciantes: 

“No Reino Unido, os mais inclinados a esta ‘rejeição’ eram profissionais educados, acima dos 40 anos, vivendo em Londres e com filhos. Os seus motivos principais para ‘desligarem’ eram que as notícias são ‘demasiado deprimentes’, ‘demasiado tendenciosas’ ou ‘controladas por agendas ocultas’.” (...) 

A concluir, James Ball afirma:

“O risco, neste momento, é que os meios noticiosos se deixem distrair pelo que é, basicamente, uma guerra a fingir com os gigantes das redes sociais, olhando para essa bulha como um jogo de resultado nulo. Na verdade, o que parece é que eles estão agora agarrados uns aos outros, e vão afundar-se ou salvar-se juntos. O jornalismo não vai ser salvo pelo facto de o público estar a gostar menos do Facebook. Vai ser preciso muito mais do que isso.”

 

Mais informação no artigo citado, em The Guardian, e na M&PO 2018 Edelman Trust Barometer em PDF

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

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