Quarta-feira, 18 de Julho, 2018
Media

Provedor do Leitor em vias de extinção faz falta aos Media

A palavra é sueca, mas o primeiro Ombudsman da Imprensa foi instituído há pouco mais de 50 anos nos Estados Unidos, quando a editora de dois jornais de Louisville, no Kentucky, criou o cargo de um representante dos leitores, como forma de prestação de contas independente ao seu próprio público. A Folha de S. Paulo, no Brasil, fez o mesmo em 1989, “motivada pelos sucessos das experiências do Washington Post e do El País”. The New York Times só passou a ter esta figura em 2003, mas acabou com ela em 2017, sob o argumento de que os seguidores nas redes sociais e leitores online constituem uma fiscalização “mais vigilante e poderosa do que uma pessoa sozinha jamais poderia ser”.

Mas a presente titular do cargo na Folha S. Paulo, Paula Cesarino Costa (Ombudswoman?) critica o argumento do NYT e do Washington Post (que fizera o mesmo em 2013), defendendo que, precisamente na era da “pós-verdade” e da crise dos media tradicionais, a figura do Ombudsman é útil à credibilidade dos meios e “não faz parte do problema da sua sobrevivência, mas sim da solução”. 

O primeiro problema é este, o de justificar a sua própria existência. Paula Cesarino Costa afirma que escreve para reafirmar a sua convicção de que a função do Ombudsman é necessária, “na medida em que lhe cabe criticar o jornal sob a perspectiva do leitor”. Mas o último a exercer o cargo no Washington Post, Patrick Pexton, conta que os editores perguntavam: “por que ter um Ombudsman pago para criticar o jornal, quando temos milhões de leitores fazendo isso de graça por meio das redes sociais?”

 

Hoje sabemos de sobra que não é a mesma coisa. Como explica adiante, “num jornal como a Folha, o Ombudsman da Ombudsman são os leitores aplicados, detalhistas e inquietos que a alimentam. Se um representante dos leitores não mantiver alto nível de exigência em questões sobre ética, transparência, equidade e precisão, de facto não estará à altura da função”.

 

“Como alertou um de meus antecessores, é a mais solitária das funções e, por vezes, frustrante. Exige dedicação e tempo e, de facto, é em geral vista com antipatia pelos profissionais do jornalismo.” (...)

 

Noutro ponto da sua reflexão, afirma:

 

“Os desafios imediatos da função que exerço podem ser resumidos em três pontos predominantes:

1) o mundo mudou na velocidade da informação, na administração do tempo e na forma de consumo de notícias; e os jornais ainda estão tacteando os caminhos jornalísticos, financeiros e administrativos para se adequarem a essas mudanças;

2) em geral, os jornais estão superficiais, sendo construídos por pautas pouco criativas e pouco surpreendentes, agarradas a narrativas ultrapassadas no estilo e no formato;

3) em tempos de radicalização, o exercício do jornalismo com equilíbrio, resguardando a diferença entre opinião, análise e informação, tornou-se valor raro e de difícil qualificação.” (...)

 

Trazendo esta reflexão para o caso português, podemos confirmar que também entre nós estão a desaparecer os Provedores do Leitor, como nos casos citados de dois dos maiores jornais de referência nos Estados Unidos  - o país onde começaram.

 

Paula Cesarino Costa recorda o título do artigo inaugural do primeiro Ombudsman no Brasil, Caio Túlio Costa: “Quando alguém é pago para defender o leitor”.

 

O seu texto, na íntegra, na edição brasileira da Columbia Journalism Review, citado no Observatório da Imprensa  -  com o qual mantemos um acordo de parceria

 

Connosco
Aumentam assinaturas pagas de meios digitais com algumas surpresas... Ver galeria

As assinaturas pagas são a “tábua de salvação” dos jornais digitais, mas cobrar pelas notícias, neste terreno, é uma estratégia difícil de implementar. Muitos meios de comunicação hesitam em dar este passo, pelo receio de perderem leitores. No entanto, dezenas de outros tiveram êxito, seguindo estratégias diferentes e, também, com diversos graus de sucesso. A FIPP  - Federação Internacional da Imprensa Periódica -  editou recentemente o seu primeiro Global Digital Subscription Snapshot, que permite consultar a tabela com os principais meios online, comparar os seus números de assinantes e preços cobrados e, assim, obter ideias úteis para os que procuram chegar ao desejado equilíbrio financeiro sem terem de perder público.

Como captar audiência e ser fiel ao bom jornalismo Ver galeria

A crise que tem atingido os meios de comunicação, nos últimos anos, com a queda constante das receitas da publicidade e a dependência incerta da adesão dos leitores, tem conduzido editores e jornalistas a apostarem sobretudo nesta segunda direcção. Reatar relações de confiança e construir “audiências leais em torno de um jornalismo de qualidade”, parece ser o único caminho sólido, mesmo que não seja fácil. Os fundamentos da próxima geração de modelos sustentáveis de receita para os media “serão contribuições directas da sua audiência, apoiados por altos níveis de compromisso dos leitores”.

Portanto, uma espécie de “contrato social”, pelo lado do meio de comunicação e dos seus jornalistas, e uma espécie de “conversão pessoal”, pelo lado dos leitores. É esta a linha desenvolvida por um recente estudo do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA, aqui comentado em artigo publicado na 36ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

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