Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Provedor do Leitor em vias de extinção faz falta aos Media

A palavra é sueca, mas o primeiro Ombudsman da Imprensa foi instituído há pouco mais de 50 anos nos Estados Unidos, quando a editora de dois jornais de Louisville, no Kentucky, criou o cargo de um representante dos leitores, como forma de prestação de contas independente ao seu próprio público. A Folha de S. Paulo, no Brasil, fez o mesmo em 1989, “motivada pelos sucessos das experiências do Washington Post e do El País”. The New York Times só passou a ter esta figura em 2003, mas acabou com ela em 2017, sob o argumento de que os seguidores nas redes sociais e leitores online constituem uma fiscalização “mais vigilante e poderosa do que uma pessoa sozinha jamais poderia ser”.

Mas a presente titular do cargo na Folha S. Paulo, Paula Cesarino Costa (Ombudswoman?) critica o argumento do NYT e do Washington Post (que fizera o mesmo em 2013), defendendo que, precisamente na era da “pós-verdade” e da crise dos media tradicionais, a figura do Ombudsman é útil à credibilidade dos meios e “não faz parte do problema da sua sobrevivência, mas sim da solução”. 

O primeiro problema é este, o de justificar a sua própria existência. Paula Cesarino Costa afirma que escreve para reafirmar a sua convicção de que a função do Ombudsman é necessária, “na medida em que lhe cabe criticar o jornal sob a perspectiva do leitor”. Mas o último a exercer o cargo no Washington Post, Patrick Pexton, conta que os editores perguntavam: “por que ter um Ombudsman pago para criticar o jornal, quando temos milhões de leitores fazendo isso de graça por meio das redes sociais?”

 

Hoje sabemos de sobra que não é a mesma coisa. Como explica adiante, “num jornal como a Folha, o Ombudsman da Ombudsman são os leitores aplicados, detalhistas e inquietos que a alimentam. Se um representante dos leitores não mantiver alto nível de exigência em questões sobre ética, transparência, equidade e precisão, de facto não estará à altura da função”.

 

“Como alertou um de meus antecessores, é a mais solitária das funções e, por vezes, frustrante. Exige dedicação e tempo e, de facto, é em geral vista com antipatia pelos profissionais do jornalismo.” (...)

 

Noutro ponto da sua reflexão, afirma:

 

“Os desafios imediatos da função que exerço podem ser resumidos em três pontos predominantes:

1) o mundo mudou na velocidade da informação, na administração do tempo e na forma de consumo de notícias; e os jornais ainda estão tacteando os caminhos jornalísticos, financeiros e administrativos para se adequarem a essas mudanças;

2) em geral, os jornais estão superficiais, sendo construídos por pautas pouco criativas e pouco surpreendentes, agarradas a narrativas ultrapassadas no estilo e no formato;

3) em tempos de radicalização, o exercício do jornalismo com equilíbrio, resguardando a diferença entre opinião, análise e informação, tornou-se valor raro e de difícil qualificação.” (...)

 

Trazendo esta reflexão para o caso português, podemos confirmar que também entre nós estão a desaparecer os Provedores do Leitor, como nos casos citados de dois dos maiores jornais de referência nos Estados Unidos  - o país onde começaram.

 

Paula Cesarino Costa recorda o título do artigo inaugural do primeiro Ombudsman no Brasil, Caio Túlio Costa: “Quando alguém é pago para defender o leitor”.

 

O seu texto, na íntegra, na edição brasileira da Columbia Journalism Review, citado no Observatório da Imprensa  -  com o qual mantemos um acordo de parceria

 

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media. É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira. É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco...
Augusto Cid, uma obra quase monumental
António Gomes de Almeida
Com o falecimento de Augusto Cid, desaparece um dos mais conhecidos desenhadores de Humor portugueses, com uma obra que pode considerar-se quase monumental. Desenhou milhares de cartoons, fez livros, e até teve a suprema honra de ver parte da sua obra apreendida – depois do 25 de Abril (!) – e tornou-se conhecido, entre outras, por estas duas razões: pelas piadas sibilinas lançadas contra o general Ramalho Eanes, e por fazer parte do combativo grupo das...
Uma edição fraca
Manuel Falcão
Já se sabe que a revista “Monocle” é uma grande utilizadora criativa do conceito de conteúdos patrocinados, frequentemente dissimulados de forma editorial elegante e sedutora. O grafismo da revista continua contemporâneo, apesar de não ter tido muitas evoluções desde que foi lançada em 2007. Em contrapartida, o espaço ocupado por conteúdos patrocinados tem vindo sempre a aumentar, por vezes demais, até se...
Duas atitudes face ao jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
No recente encontro em Roma, no Vaticano, sobre o dramático caso dos abusos sexuais por elementos do clero católico, a vários níveis, ouviram-se vozes agradecendo a jornalistas que investigaram e divulgaram abusos. É uma justa atitude.  Dir-se-á que alguns jornalistas terão procurado o escândalo e, também, denegrir a imagem da Igreja. Talvez. Mas o verdadeiro escândalo é que padres, bispos e cardeais, em vez de...
Jornalismo a meia-haste
Graça Franco
Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O...
Agenda
30
Mar
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
31
Mar
Radiodays Europe
09:00 @ Lausanne, Suiça
01
Abr
Digital Media Europe 2019
09:00 @ Viena,Áustria
08
Abr
25
Abr
Social Media Camp
09:00 @ Victoria, Canada