Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
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Balanço do ano brasileiro entre radicalismos e boas notícias

Um texto de balanço do ano de 2017, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil  - com o qual mantemos um acordo de parceria -  faz uma lista dos “retrocessos” e outra das “boas notícias” assinaladas. O essencial de ambas refere-se à realidade brasileira, mas a actualidade internacional está também presente. A conclusão do autor é que “neste contexto sombrio de radicalismos ideológicos, aumento da intolerância e de inúmeras incertezas, qualquer tipo de retrocesso é perfeitamente possível”. O seu voto para 2018 é que “possamos escolher democraticamente nossos representantes no parlamento e na presidência da República. Em uma época de judicialização da política, é justo que o povo, e não alguns magistrados, decida quem será o próximo líder máximo da nação”.

Na rubrica designada por “retrocessos”, a primeira lista descreve “tentativas de censurar manifestações artísticas, posicionamentos racistas, perda de direitos trabalhistas, ‘cura gay’, flexibilização da fiscalização de práticas análogas à escravidão, desmonte de políticas sociais e ensino religioso confessional nas escolas, entre outros anacronismos”. 

“A sensação que temos é que as várias formas de preconceito e todos os tipos de obscurantismo resolveram sair do armário ao mesmo tempo. Dito de outro modo, a ‘caixa de Pandora’ do extremismo foi aberta.” (...) 

O autor recorda depois as revoltas em presídios brasileiros e o facto de Michel Temer ter conseguido manter-se na Presidência da República: “Para tanto, lançou mão de um expediente bastante comum: a compra de parlamentares.” 

Lamenta a seguir, com vários exemplos, que os espaços escolares tenham funcionado como “mecanismos de reprodução para estereótipos e preconceitos sociais”. Denuncia situações semelhantes nas redes sociais, que foram “espaços privilegiados para exibição da imbecilidade humana”. A propósito do tratamento de alguns famosos na Internet, fala também da “cultura do grotesco amplamente disseminada na rede mundial de computadores”. (...) 

“Por outro lado, o ano passado também teve boas notícias, como as mobilizações femininas contra o assédio sexual, o lançamento do 38º álbum estúdio de Chico Buarque, o levante popular contra a reforma da previdência na Argentina e a publicação do excelente livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”, do cientista social Jessé Souza, obra que já pode ser considerada como seminal para se entender a sociedade brasileira.” (...) 

Cita, deste autor, que “o passado que nos domina não é a continuidade com o Portugal pré-moderno que nos legaria a corrupção só do Estado, como o culturalismo dominante até hoje entre nós nos diz”: 

“Nosso passado intocado até hoje, precisamente por seu esquecimento, é o do escravismo. Do escravismo nós herdamos o desprezo e o ódio covarde pelas classes populares, que tornaram impossível uma sociedade minimamente igualitária”. (...) 

E a concluir, voltando às notícias más, descreve a operação da Polícia Federal na Universidade Federal de Minas Gerais, “sob a acusação genérica de desvio de recursos públicos destinados à construção e implantação do Memorial da Amnistia Política do Brasil. Oito pessoas, entre elas reitor e vice-reitora, foram conduzidas coercitivamente para prestar depoimento. Todavia, a PF não esclareceu quem seriam os possíveis beneficiados desses montantes desviados.” 

“Em entrevista ao portal Brasil 247, a vice-reitora, Sandra Regina Goulart, disse que, durante o interrogatório, o delegado da PF não apresentou qualquer prova, nem mesmo informou nada sobre a investigação, ‘uma situação assustadora’, declarou. Trata-se, portanto, de uma ofensiva contra a Universidade pública, um dos poucos espaços que ainda restam para o exercício do livre pensamento.” (...) 

 

O texto de Francisco Fernandes Ladeira, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...