Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
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A “guerra pela verdade” em livro de jornalista sobre os Media e Trump

Foi lançado mais um livro sobre a Casa Branca de Donald Trump e, desta vez, é a nosso respeito  - é sobre jornais e jornalistas. O novo Presidente dos EUA disse na sede da CIA, nos primeiros dias do seu mandato, que estava “em guerra com os media”. Este livro, do jornalista Howard Kurtz, põe em título que se trata de uma guerra “sobre a verdade”: Media Madness: Donald Trump, The Press and The War Over The Truth. As primeiras recensões da obra, já conhecidas, nem sempre estão de acordo sobre os termos fortes deste longo título  - guerra, loucura e verdade -  mas coincidem na descrição de um ambiente de caos e imprevisibilidade que desgasta todos os membros da equipa.

Segundo a primeira apresentação da obra em The Washington Post, publicada uma semana antes do lançamento  - e que aqui citamos do Expresso -  o autor conta que “a equipa de Trump cunhou um novo termo secreto para se referir ao comportamento do líder  — ‘transtorno do desafio’. A expressão faz referência à compulsão do Presidente para fazer exactamente o oposto daquilo que os seus conselheiros dizem ser o melhor, deixando esses mesmos conselheiros a tentar apanhar as peças no rescaldo de cada decisão”. (...) 

Isso aconteceu, por exemplo, “num sábado de manhã em Março, quando Trump lançou um ataque a Obama no Twitter, acusando-o  - sem quaisquer provas -  de ter ordenado escutas à sua sede de campanha para as presidenciais de 2016. ‘Ninguém na Casa Branca sabia o que fazer’, escreve Kurtz.” 

“Priebus, que deixaria de ser chefe do gabinete de Trump em Julho, viu o seu telefone ser inundado de chamadas e mensagens de texto às quais não sabia como reagir. ‘Priebus sabia que a equipa ia ter de se organizar para provar que o tweet era correcto’, o oposto daquilo que costuma ser o processo de decisões nestes cenários.” (...) 

“Apesar de Kurtz parecer, por vezes, oferecer um retrato mais abonatório dos funcionários da Casa Branca do que outros relatos nos media, também capta a forma como a Casa Branca tem estado a contorcer-se para executar as tarefas mais básicas e como os conselheiros [de Trump] têm reagido aos caprichos de um Presidente difícil de controlar”, aponta o Washington Post com base nos excertos do livro.” (...) 

“Nos excertos da obra, outra das personagens que ganha destaque é a conselheira Kellyanne Conway, responsável por cunhar o termo  ‘factos alternativos’ para defender as mentiras do Presidente Trump e apresentada no livro como uma das pessoas com mais capacidades para o acalmar.” (...) 

Outra resenha sobre o livro, publicada no mesmo Washington Post na véspera do lançamento e assinada por Margaret Sullivan, a editora sobre media neste jornal, contesta a afirmação  - feita pelo próprio autor, Howard Kurtz -  de que há de facto uma guerra entre o Presidente e a Imprensa nacional. 

“Eu não concordo  - diz -  e suspeito que Kurtz, um jornalista experimentado que esteve décadas no Washington Post, sabe que não é verdade.” 

“Isto não é realmente guerra, mas por vezes é uma coisa quase tão desagradável: uma co-dependência. O que se passa actualmente entre Trump e a Imprensa é que ele  - como outros políticos antes dele -  precisa de um inimigo conveniente para manter em brasa a sua base de apoiantes.” (...) 

“Quanto aos jornalistas, podem ficar preocupados com o dano das constantes acusações de fake news que Trump faz ao seu ofício, o que é uma preocupação legítima. Na sua maior parte, no entanto, estão a tentar fazer a cobertura dele, não a deitá-lo abaixo. (Como disse o editor do Washington Post, Martin Baron, ‘Nós não estamos em guerra; estamos a trabalhar.’) Mas é aqui que entra a co-dependência: estão a aproveitar toda a vantagem do modo como Trump chama a atenção para o seu trabalho; segundo as suas próprias palavras, ele é ‘uma máquina de audiências’.” (...) 

Margaret Sullivan acha que a “lealdade” de Howard Kurtz aos seus actuais patrões da Fox News “é evidente desde o início” e critica o modo como defende Kellyanne Conway na criação da famosa expressão “factos alternativos” (admite mesmo que podíamos ser tentados a vê-la como uma “co-autora” do livro). Comparando Media Madness com Fire and Fury, é de opinião que esta segunda obra “é muito mais amável para com a administração de Trump”. (...) 

Também o diário britânico The Guardian publica uma apresentação do livro, pelo chefe da sua delegação em Washington, David Smith. 

O seu artigo descreve Donald Trump como “obcecado com os media, que mede a lealdade dos membros da sua equipa pelo modo como o defendem na televisão”. 

Segundo conta, Kurtz afirma que “a sua sensibilidade à cobertura pelos media é única na história presidencial dos EUA”, indo ao ponto de encarregar o então secretário de Imprensa, Sean Spicer, de telefonar aos que o tinham defendido, com o cumprimento de que o Presidente achava que tinham feito “bom trabalho”. Quando Trump via alguma reportagem que considerava injusta para si, usava o Twitter para achincalhar o programa, ou a rede televisiva em causa. 

O texto que citamos conta ainda que Kurt Bardella (que foi porta-voz da conservadora Breitbart News e é agora colaborador no HuffPost e na USA Today) afirmou, sobre este livro, que “Kurtz é um narrador quase tão simpático como Trump e a sua Administração poderiam encontrar”, mesmo quando “retrata uma Casa Branca que não faz ideia do que está a fazer”. (...) 

Ainda segundo Bardella, Kurtz mostra “uma equipa cercada, não pelos media mas pelo seu próprio chefe”:

“As cenas descritas por Kurtz ilustram o motivo pelo qual a Casa Branca tem pouca ou nenhuma credibilidade  - sobretudo porque, seja o que for que eles digam, é provável que o chefe os venha a contradizer.” (...) 


Mais informação no Expresso, no Washington Post e em The Guardian. Ler também no espaço de Opinião deste site crónica de J. Botelho Tomé sobre o mesmo livro

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Como está o papel?
Manuel Falcão
Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio. Ao ritmo a que...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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