Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
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A “guerra pela verdade” em livro de jornalista sobre os Media e Trump

Foi lançado mais um livro sobre a Casa Branca de Donald Trump e, desta vez, é a nosso respeito  - é sobre jornais e jornalistas. O novo Presidente dos EUA disse na sede da CIA, nos primeiros dias do seu mandato, que estava “em guerra com os media”. Este livro, do jornalista Howard Kurtz, põe em título que se trata de uma guerra “sobre a verdade”: Media Madness: Donald Trump, The Press and The War Over The Truth. As primeiras recensões da obra, já conhecidas, nem sempre estão de acordo sobre os termos fortes deste longo título  - guerra, loucura e verdade -  mas coincidem na descrição de um ambiente de caos e imprevisibilidade que desgasta todos os membros da equipa.

Segundo a primeira apresentação da obra em The Washington Post, publicada uma semana antes do lançamento  - e que aqui citamos do Expresso -  o autor conta que “a equipa de Trump cunhou um novo termo secreto para se referir ao comportamento do líder  — ‘transtorno do desafio’. A expressão faz referência à compulsão do Presidente para fazer exactamente o oposto daquilo que os seus conselheiros dizem ser o melhor, deixando esses mesmos conselheiros a tentar apanhar as peças no rescaldo de cada decisão”. (...) 

Isso aconteceu, por exemplo, “num sábado de manhã em Março, quando Trump lançou um ataque a Obama no Twitter, acusando-o  - sem quaisquer provas -  de ter ordenado escutas à sua sede de campanha para as presidenciais de 2016. ‘Ninguém na Casa Branca sabia o que fazer’, escreve Kurtz.” 

“Priebus, que deixaria de ser chefe do gabinete de Trump em Julho, viu o seu telefone ser inundado de chamadas e mensagens de texto às quais não sabia como reagir. ‘Priebus sabia que a equipa ia ter de se organizar para provar que o tweet era correcto’, o oposto daquilo que costuma ser o processo de decisões nestes cenários.” (...) 

“Apesar de Kurtz parecer, por vezes, oferecer um retrato mais abonatório dos funcionários da Casa Branca do que outros relatos nos media, também capta a forma como a Casa Branca tem estado a contorcer-se para executar as tarefas mais básicas e como os conselheiros [de Trump] têm reagido aos caprichos de um Presidente difícil de controlar”, aponta o Washington Post com base nos excertos do livro.” (...) 

“Nos excertos da obra, outra das personagens que ganha destaque é a conselheira Kellyanne Conway, responsável por cunhar o termo  ‘factos alternativos’ para defender as mentiras do Presidente Trump e apresentada no livro como uma das pessoas com mais capacidades para o acalmar.” (...) 

Outra resenha sobre o livro, publicada no mesmo Washington Post na véspera do lançamento e assinada por Margaret Sullivan, a editora sobre media neste jornal, contesta a afirmação  - feita pelo próprio autor, Howard Kurtz -  de que há de facto uma guerra entre o Presidente e a Imprensa nacional. 

“Eu não concordo  - diz -  e suspeito que Kurtz, um jornalista experimentado que esteve décadas no Washington Post, sabe que não é verdade.” 

“Isto não é realmente guerra, mas por vezes é uma coisa quase tão desagradável: uma co-dependência. O que se passa actualmente entre Trump e a Imprensa é que ele  - como outros políticos antes dele -  precisa de um inimigo conveniente para manter em brasa a sua base de apoiantes.” (...) 

“Quanto aos jornalistas, podem ficar preocupados com o dano das constantes acusações de fake news que Trump faz ao seu ofício, o que é uma preocupação legítima. Na sua maior parte, no entanto, estão a tentar fazer a cobertura dele, não a deitá-lo abaixo. (Como disse o editor do Washington Post, Martin Baron, ‘Nós não estamos em guerra; estamos a trabalhar.’) Mas é aqui que entra a co-dependência: estão a aproveitar toda a vantagem do modo como Trump chama a atenção para o seu trabalho; segundo as suas próprias palavras, ele é ‘uma máquina de audiências’.” (...) 

Margaret Sullivan acha que a “lealdade” de Howard Kurtz aos seus actuais patrões da Fox News “é evidente desde o início” e critica o modo como defende Kellyanne Conway na criação da famosa expressão “factos alternativos” (admite mesmo que podíamos ser tentados a vê-la como uma “co-autora” do livro). Comparando Media Madness com Fire and Fury, é de opinião que esta segunda obra “é muito mais amável para com a administração de Trump”. (...) 

Também o diário britânico The Guardian publica uma apresentação do livro, pelo chefe da sua delegação em Washington, David Smith. 

O seu artigo descreve Donald Trump como “obcecado com os media, que mede a lealdade dos membros da sua equipa pelo modo como o defendem na televisão”. 

Segundo conta, Kurtz afirma que “a sua sensibilidade à cobertura pelos media é única na história presidencial dos EUA”, indo ao ponto de encarregar o então secretário de Imprensa, Sean Spicer, de telefonar aos que o tinham defendido, com o cumprimento de que o Presidente achava que tinham feito “bom trabalho”. Quando Trump via alguma reportagem que considerava injusta para si, usava o Twitter para achincalhar o programa, ou a rede televisiva em causa. 

O texto que citamos conta ainda que Kurt Bardella (que foi porta-voz da conservadora Breitbart News e é agora colaborador no HuffPost e na USA Today) afirmou, sobre este livro, que “Kurtz é um narrador quase tão simpático como Trump e a sua Administração poderiam encontrar”, mesmo quando “retrata uma Casa Branca que não faz ideia do que está a fazer”. (...) 

Ainda segundo Bardella, Kurtz mostra “uma equipa cercada, não pelos media mas pelo seu próprio chefe”:

“As cenas descritas por Kurtz ilustram o motivo pelo qual a Casa Branca tem pouca ou nenhuma credibilidade  - sobretudo porque, seja o que for que eles digam, é provável que o chefe os venha a contradizer.” (...) 


Mais informação no Expresso, no Washington Post e em The Guardian. Ler também no espaço de Opinião deste site crónica de J. Botelho Tomé sobre o mesmo livro

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
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1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...