null, 26 de Maio, 2019
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A “guerra pela verdade” em livro de jornalista sobre os Media e Trump

Foi lançado mais um livro sobre a Casa Branca de Donald Trump e, desta vez, é a nosso respeito  - é sobre jornais e jornalistas. O novo Presidente dos EUA disse na sede da CIA, nos primeiros dias do seu mandato, que estava “em guerra com os media”. Este livro, do jornalista Howard Kurtz, põe em título que se trata de uma guerra “sobre a verdade”: Media Madness: Donald Trump, The Press and The War Over The Truth. As primeiras recensões da obra, já conhecidas, nem sempre estão de acordo sobre os termos fortes deste longo título  - guerra, loucura e verdade -  mas coincidem na descrição de um ambiente de caos e imprevisibilidade que desgasta todos os membros da equipa.

Segundo a primeira apresentação da obra em The Washington Post, publicada uma semana antes do lançamento  - e que aqui citamos do Expresso -  o autor conta que “a equipa de Trump cunhou um novo termo secreto para se referir ao comportamento do líder  — ‘transtorno do desafio’. A expressão faz referência à compulsão do Presidente para fazer exactamente o oposto daquilo que os seus conselheiros dizem ser o melhor, deixando esses mesmos conselheiros a tentar apanhar as peças no rescaldo de cada decisão”. (...) 

Isso aconteceu, por exemplo, “num sábado de manhã em Março, quando Trump lançou um ataque a Obama no Twitter, acusando-o  - sem quaisquer provas -  de ter ordenado escutas à sua sede de campanha para as presidenciais de 2016. ‘Ninguém na Casa Branca sabia o que fazer’, escreve Kurtz.” 

“Priebus, que deixaria de ser chefe do gabinete de Trump em Julho, viu o seu telefone ser inundado de chamadas e mensagens de texto às quais não sabia como reagir. ‘Priebus sabia que a equipa ia ter de se organizar para provar que o tweet era correcto’, o oposto daquilo que costuma ser o processo de decisões nestes cenários.” (...) 

“Apesar de Kurtz parecer, por vezes, oferecer um retrato mais abonatório dos funcionários da Casa Branca do que outros relatos nos media, também capta a forma como a Casa Branca tem estado a contorcer-se para executar as tarefas mais básicas e como os conselheiros [de Trump] têm reagido aos caprichos de um Presidente difícil de controlar”, aponta o Washington Post com base nos excertos do livro.” (...) 

“Nos excertos da obra, outra das personagens que ganha destaque é a conselheira Kellyanne Conway, responsável por cunhar o termo  ‘factos alternativos’ para defender as mentiras do Presidente Trump e apresentada no livro como uma das pessoas com mais capacidades para o acalmar.” (...) 

Outra resenha sobre o livro, publicada no mesmo Washington Post na véspera do lançamento e assinada por Margaret Sullivan, a editora sobre media neste jornal, contesta a afirmação  - feita pelo próprio autor, Howard Kurtz -  de que há de facto uma guerra entre o Presidente e a Imprensa nacional. 

“Eu não concordo  - diz -  e suspeito que Kurtz, um jornalista experimentado que esteve décadas no Washington Post, sabe que não é verdade.” 

“Isto não é realmente guerra, mas por vezes é uma coisa quase tão desagradável: uma co-dependência. O que se passa actualmente entre Trump e a Imprensa é que ele  - como outros políticos antes dele -  precisa de um inimigo conveniente para manter em brasa a sua base de apoiantes.” (...) 

“Quanto aos jornalistas, podem ficar preocupados com o dano das constantes acusações de fake news que Trump faz ao seu ofício, o que é uma preocupação legítima. Na sua maior parte, no entanto, estão a tentar fazer a cobertura dele, não a deitá-lo abaixo. (Como disse o editor do Washington Post, Martin Baron, ‘Nós não estamos em guerra; estamos a trabalhar.’) Mas é aqui que entra a co-dependência: estão a aproveitar toda a vantagem do modo como Trump chama a atenção para o seu trabalho; segundo as suas próprias palavras, ele é ‘uma máquina de audiências’.” (...) 

Margaret Sullivan acha que a “lealdade” de Howard Kurtz aos seus actuais patrões da Fox News “é evidente desde o início” e critica o modo como defende Kellyanne Conway na criação da famosa expressão “factos alternativos” (admite mesmo que podíamos ser tentados a vê-la como uma “co-autora” do livro). Comparando Media Madness com Fire and Fury, é de opinião que esta segunda obra “é muito mais amável para com a administração de Trump”. (...) 

Também o diário britânico The Guardian publica uma apresentação do livro, pelo chefe da sua delegação em Washington, David Smith. 

O seu artigo descreve Donald Trump como “obcecado com os media, que mede a lealdade dos membros da sua equipa pelo modo como o defendem na televisão”. 

Segundo conta, Kurtz afirma que “a sua sensibilidade à cobertura pelos media é única na história presidencial dos EUA”, indo ao ponto de encarregar o então secretário de Imprensa, Sean Spicer, de telefonar aos que o tinham defendido, com o cumprimento de que o Presidente achava que tinham feito “bom trabalho”. Quando Trump via alguma reportagem que considerava injusta para si, usava o Twitter para achincalhar o programa, ou a rede televisiva em causa. 

O texto que citamos conta ainda que Kurt Bardella (que foi porta-voz da conservadora Breitbart News e é agora colaborador no HuffPost e na USA Today) afirmou, sobre este livro, que “Kurtz é um narrador quase tão simpático como Trump e a sua Administração poderiam encontrar”, mesmo quando “retrata uma Casa Branca que não faz ideia do que está a fazer”. (...) 

Ainda segundo Bardella, Kurtz mostra “uma equipa cercada, não pelos media mas pelo seu próprio chefe”:

“As cenas descritas por Kurtz ilustram o motivo pelo qual a Casa Branca tem pouca ou nenhuma credibilidade  - sobretudo porque, seja o que for que eles digam, é provável que o chefe os venha a contradizer.” (...) 


Mais informação no Expresso, no Washington Post e em The Guardian. Ler também no espaço de Opinião deste site crónica de J. Botelho Tomé sobre o mesmo livro

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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