Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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A “guerra pela verdade” em livro de jornalista sobre os Media e Trump

Foi lançado mais um livro sobre a Casa Branca de Donald Trump e, desta vez, é a nosso respeito  - é sobre jornais e jornalistas. O novo Presidente dos EUA disse na sede da CIA, nos primeiros dias do seu mandato, que estava “em guerra com os media”. Este livro, do jornalista Howard Kurtz, põe em título que se trata de uma guerra “sobre a verdade”: Media Madness: Donald Trump, The Press and The War Over The Truth. As primeiras recensões da obra, já conhecidas, nem sempre estão de acordo sobre os termos fortes deste longo título  - guerra, loucura e verdade -  mas coincidem na descrição de um ambiente de caos e imprevisibilidade que desgasta todos os membros da equipa.

Segundo a primeira apresentação da obra em The Washington Post, publicada uma semana antes do lançamento  - e que aqui citamos do Expresso -  o autor conta que “a equipa de Trump cunhou um novo termo secreto para se referir ao comportamento do líder  — ‘transtorno do desafio’. A expressão faz referência à compulsão do Presidente para fazer exactamente o oposto daquilo que os seus conselheiros dizem ser o melhor, deixando esses mesmos conselheiros a tentar apanhar as peças no rescaldo de cada decisão”. (...) 

Isso aconteceu, por exemplo, “num sábado de manhã em Março, quando Trump lançou um ataque a Obama no Twitter, acusando-o  - sem quaisquer provas -  de ter ordenado escutas à sua sede de campanha para as presidenciais de 2016. ‘Ninguém na Casa Branca sabia o que fazer’, escreve Kurtz.” 

“Priebus, que deixaria de ser chefe do gabinete de Trump em Julho, viu o seu telefone ser inundado de chamadas e mensagens de texto às quais não sabia como reagir. ‘Priebus sabia que a equipa ia ter de se organizar para provar que o tweet era correcto’, o oposto daquilo que costuma ser o processo de decisões nestes cenários.” (...) 

“Apesar de Kurtz parecer, por vezes, oferecer um retrato mais abonatório dos funcionários da Casa Branca do que outros relatos nos media, também capta a forma como a Casa Branca tem estado a contorcer-se para executar as tarefas mais básicas e como os conselheiros [de Trump] têm reagido aos caprichos de um Presidente difícil de controlar”, aponta o Washington Post com base nos excertos do livro.” (...) 

“Nos excertos da obra, outra das personagens que ganha destaque é a conselheira Kellyanne Conway, responsável por cunhar o termo  ‘factos alternativos’ para defender as mentiras do Presidente Trump e apresentada no livro como uma das pessoas com mais capacidades para o acalmar.” (...) 

Outra resenha sobre o livro, publicada no mesmo Washington Post na véspera do lançamento e assinada por Margaret Sullivan, a editora sobre media neste jornal, contesta a afirmação  - feita pelo próprio autor, Howard Kurtz -  de que há de facto uma guerra entre o Presidente e a Imprensa nacional. 

“Eu não concordo  - diz -  e suspeito que Kurtz, um jornalista experimentado que esteve décadas no Washington Post, sabe que não é verdade.” 

“Isto não é realmente guerra, mas por vezes é uma coisa quase tão desagradável: uma co-dependência. O que se passa actualmente entre Trump e a Imprensa é que ele  - como outros políticos antes dele -  precisa de um inimigo conveniente para manter em brasa a sua base de apoiantes.” (...) 

“Quanto aos jornalistas, podem ficar preocupados com o dano das constantes acusações de fake news que Trump faz ao seu ofício, o que é uma preocupação legítima. Na sua maior parte, no entanto, estão a tentar fazer a cobertura dele, não a deitá-lo abaixo. (Como disse o editor do Washington Post, Martin Baron, ‘Nós não estamos em guerra; estamos a trabalhar.’) Mas é aqui que entra a co-dependência: estão a aproveitar toda a vantagem do modo como Trump chama a atenção para o seu trabalho; segundo as suas próprias palavras, ele é ‘uma máquina de audiências’.” (...) 

Margaret Sullivan acha que a “lealdade” de Howard Kurtz aos seus actuais patrões da Fox News “é evidente desde o início” e critica o modo como defende Kellyanne Conway na criação da famosa expressão “factos alternativos” (admite mesmo que podíamos ser tentados a vê-la como uma “co-autora” do livro). Comparando Media Madness com Fire and Fury, é de opinião que esta segunda obra “é muito mais amável para com a administração de Trump”. (...) 

Também o diário britânico The Guardian publica uma apresentação do livro, pelo chefe da sua delegação em Washington, David Smith. 

O seu artigo descreve Donald Trump como “obcecado com os media, que mede a lealdade dos membros da sua equipa pelo modo como o defendem na televisão”. 

Segundo conta, Kurtz afirma que “a sua sensibilidade à cobertura pelos media é única na história presidencial dos EUA”, indo ao ponto de encarregar o então secretário de Imprensa, Sean Spicer, de telefonar aos que o tinham defendido, com o cumprimento de que o Presidente achava que tinham feito “bom trabalho”. Quando Trump via alguma reportagem que considerava injusta para si, usava o Twitter para achincalhar o programa, ou a rede televisiva em causa. 

O texto que citamos conta ainda que Kurt Bardella (que foi porta-voz da conservadora Breitbart News e é agora colaborador no HuffPost e na USA Today) afirmou, sobre este livro, que “Kurtz é um narrador quase tão simpático como Trump e a sua Administração poderiam encontrar”, mesmo quando “retrata uma Casa Branca que não faz ideia do que está a fazer”. (...) 

Ainda segundo Bardella, Kurtz mostra “uma equipa cercada, não pelos media mas pelo seu próprio chefe”:

“As cenas descritas por Kurtz ilustram o motivo pelo qual a Casa Branca tem pouca ou nenhuma credibilidade  - sobretudo porque, seja o que for que eles digam, é provável que o chefe os venha a contradizer.” (...) 


Mais informação no Expresso, no Washington Post e em The Guardian. Ler também no espaço de Opinião deste site crónica de J. Botelho Tomé sobre o mesmo livro

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Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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