Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Media

Eleição de Trump fortaleceu relação da Imprensa com sociedade

Sobre o presente e o futuro do jornalismo, em tempo de crise do seu modelo económico, de notícias falsas e polarização política globalizada, Steve Coll, director da Escola de Jornalismo da Columbia University, em Nova Iorque, tem diversas notícias a comunicar-nos. A parte boa é que a capacidade de processamento de um grande volume de dados levou à colaboração entre dezenas de jornais, “todos guardando os mesmos segredos e publicando ao mesmo tempo”  - como aconteceu com os Panama Papers. A parte má é que é muito difícil manter a qualidade no meio desta exigência de “mais volume e velocidade de notícias”. E a parte pior é que o fabrico de notícias falsas vai agravar-se ainda mais, segundo os próprios profissionais de Silicon Valley. Mas o jornalismo profissional “ainda cumpre um papel poderoso”, e vai sobreviver.

A entrevista que citamos decorreu em São Paulo, durante o 1º Seminário Internacional de Jornalismo ESPM/Columbia Journalism School, em Outubro de 2017, e vem transcrita no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria. 

Sobre o que mudou na forma de fazer jornalismo, Steve Coll sublinha “o poder que as redes sociais assumiram na distribuição dos media em vários países”:

“Isso fez com que jornais, revistas, rádios e emissoras de TV perdessem muito do controlo na distribuição do seu conteúdo. Os jornais costumavam controlar seu relacionamento com os leitores a ponto de saírem para comprar os jornais em bancas! Agora, eles dependem de plataformas como Facebook, Snap ou YouTube para falar com o seu público.” (...) 

Quanto ao impacto da revolução digital, o entrevistado afirma:

“Na era do Big Data, é difícil para o jornalista levar adiante sua função democrática e constitucional de informar se não souber examinar da maneira correcta os dados e algoritmos que estão sendo utilizados e seus impactos na sociedade. É preciso literalmente olhar por baixo dos códigos e ver como eles são feitos. Os tribunais americanos estão usando softwares de algoritmo para determinar sentenças baseadas em indicações de como alguns criminosos irão reagir, se podem ou não retornar ao crime. Isso mostra que os processos de engenharia utilizados nos códigos das chamadas fake news podem influenciar a opinião pública.” (...) 

Sobre o ritmo imposto agora aos profissionais, a situação é delicada:

“Se você olhar de uma maneira mais ampla para a indústria de jornais e revistas, o desafio óbvio é manter a qualidade dentro de uma demanda por mais volume e velocidade de notícias. Cada um desenvolveu uma estratégia para fazer frente a esses novos canais investindo mais do que de facto gostariam em mecanismos de controlo de qualidade. Exemplos de erros catastróficos no jornalismo nos mostram que, muitas vezes, eles ocorrem não por questão de recursos, mas de atenção e de priorizar a qualidade.” (...) 

A Escola de Jornalismo da Columbia University , como conta, dobrou a carga horária de ensino de jornalismo de investigação. À pergunta sobre se isso implica que “os jornalistas mais antigos terão que voltar à escola”, Steve Coll responde: 

“No meu entendimento, teremos cada vez mais equipas colaborativas com perfis que se complementam. Existe muito espaço para os jornalistas investigativos à moda antiga exercerem o seu trabalho de apurar, identificar fontes e lidar com situações de risco. A demanda pelas qualidades dos jornalistas experientes não desapareceu. Mas haverá mais colaboração com jornalistas com capacidade de trabalhar com dados e novas tecnologias.” (...) 

“Quando comecei, tive a sorte de trabalhar em uma redacção estável, que dava oportunidade aos jornalistas mais jovens para se desenvolver e aprender o ofício, sabendo que muitos desses profissionais ficariam ali por mais 20 ou 30 anos. Então, a empresa tirava proveito da experiência que esse profissional adquiria ao longo do tempo. Hoje, você pode ter experiências excitantes, mas não encontrará esse tipo de estabilidade. Jovens profissionais terão que aprender a se virar sozinhos sem uma rede de proteção.” (...) 

Finalmente, e sobre a situação presente nos Estados Unidos, a sua expectativa é de preocupação:

“A situação piorou, porque este Presidente continua tratando os jornalistas como desonestos, inimigos do povo e antipatriotas. O nível de excitação de extremistas contra o jornalismo abre caminho para uma escalada de violência. Eu não me surpreenderia se víssemos algum incidente, um assassinato ou outro tipo de violência contra jornalistas. Inimaginável que o próprio Presidente trate um grupo de pessoas e seu papel na sociedade de modo tão irresponsável sem consequências.” (...)

Sobre se a liberdade de Imprensa está “sob ataque no mundo”:

“Com certeza está sob ataque nos Estados Unidos. À eleição de Trump se seguiu a ascensão de políticos autoritários em diversas sociedades, aumentando o risco à liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, isso fez crescer o tom de ameaça ao jornalismo, mas, por outro lado, fortaleceu a relação da Imprensa com a sociedade civil e os leitores dos meios mais sérios. Estamos em um momento de conflito: é a primeira vez que um governo se opõe directamente ao trabalho do jornalismo.” (...)

 

A entrevista na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
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“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
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