Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Media

Eleição de Trump fortaleceu relação da Imprensa com sociedade

Sobre o presente e o futuro do jornalismo, em tempo de crise do seu modelo económico, de notícias falsas e polarização política globalizada, Steve Coll, director da Escola de Jornalismo da Columbia University, em Nova Iorque, tem diversas notícias a comunicar-nos. A parte boa é que a capacidade de processamento de um grande volume de dados levou à colaboração entre dezenas de jornais, “todos guardando os mesmos segredos e publicando ao mesmo tempo”  - como aconteceu com os Panama Papers. A parte má é que é muito difícil manter a qualidade no meio desta exigência de “mais volume e velocidade de notícias”. E a parte pior é que o fabrico de notícias falsas vai agravar-se ainda mais, segundo os próprios profissionais de Silicon Valley. Mas o jornalismo profissional “ainda cumpre um papel poderoso”, e vai sobreviver.

A entrevista que citamos decorreu em São Paulo, durante o 1º Seminário Internacional de Jornalismo ESPM/Columbia Journalism School, em Outubro de 2017, e vem transcrita no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria. 

Sobre o que mudou na forma de fazer jornalismo, Steve Coll sublinha “o poder que as redes sociais assumiram na distribuição dos media em vários países”:

“Isso fez com que jornais, revistas, rádios e emissoras de TV perdessem muito do controlo na distribuição do seu conteúdo. Os jornais costumavam controlar seu relacionamento com os leitores a ponto de saírem para comprar os jornais em bancas! Agora, eles dependem de plataformas como Facebook, Snap ou YouTube para falar com o seu público.” (...) 

Quanto ao impacto da revolução digital, o entrevistado afirma:

“Na era do Big Data, é difícil para o jornalista levar adiante sua função democrática e constitucional de informar se não souber examinar da maneira correcta os dados e algoritmos que estão sendo utilizados e seus impactos na sociedade. É preciso literalmente olhar por baixo dos códigos e ver como eles são feitos. Os tribunais americanos estão usando softwares de algoritmo para determinar sentenças baseadas em indicações de como alguns criminosos irão reagir, se podem ou não retornar ao crime. Isso mostra que os processos de engenharia utilizados nos códigos das chamadas fake news podem influenciar a opinião pública.” (...) 

Sobre o ritmo imposto agora aos profissionais, a situação é delicada:

“Se você olhar de uma maneira mais ampla para a indústria de jornais e revistas, o desafio óbvio é manter a qualidade dentro de uma demanda por mais volume e velocidade de notícias. Cada um desenvolveu uma estratégia para fazer frente a esses novos canais investindo mais do que de facto gostariam em mecanismos de controlo de qualidade. Exemplos de erros catastróficos no jornalismo nos mostram que, muitas vezes, eles ocorrem não por questão de recursos, mas de atenção e de priorizar a qualidade.” (...) 

A Escola de Jornalismo da Columbia University , como conta, dobrou a carga horária de ensino de jornalismo de investigação. À pergunta sobre se isso implica que “os jornalistas mais antigos terão que voltar à escola”, Steve Coll responde: 

“No meu entendimento, teremos cada vez mais equipas colaborativas com perfis que se complementam. Existe muito espaço para os jornalistas investigativos à moda antiga exercerem o seu trabalho de apurar, identificar fontes e lidar com situações de risco. A demanda pelas qualidades dos jornalistas experientes não desapareceu. Mas haverá mais colaboração com jornalistas com capacidade de trabalhar com dados e novas tecnologias.” (...) 

“Quando comecei, tive a sorte de trabalhar em uma redacção estável, que dava oportunidade aos jornalistas mais jovens para se desenvolver e aprender o ofício, sabendo que muitos desses profissionais ficariam ali por mais 20 ou 30 anos. Então, a empresa tirava proveito da experiência que esse profissional adquiria ao longo do tempo. Hoje, você pode ter experiências excitantes, mas não encontrará esse tipo de estabilidade. Jovens profissionais terão que aprender a se virar sozinhos sem uma rede de proteção.” (...) 

Finalmente, e sobre a situação presente nos Estados Unidos, a sua expectativa é de preocupação:

“A situação piorou, porque este Presidente continua tratando os jornalistas como desonestos, inimigos do povo e antipatriotas. O nível de excitação de extremistas contra o jornalismo abre caminho para uma escalada de violência. Eu não me surpreenderia se víssemos algum incidente, um assassinato ou outro tipo de violência contra jornalistas. Inimaginável que o próprio Presidente trate um grupo de pessoas e seu papel na sociedade de modo tão irresponsável sem consequências.” (...)

Sobre se a liberdade de Imprensa está “sob ataque no mundo”:

“Com certeza está sob ataque nos Estados Unidos. À eleição de Trump se seguiu a ascensão de políticos autoritários em diversas sociedades, aumentando o risco à liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, isso fez crescer o tom de ameaça ao jornalismo, mas, por outro lado, fortaleceu a relação da Imprensa com a sociedade civil e os leitores dos meios mais sérios. Estamos em um momento de conflito: é a primeira vez que um governo se opõe directamente ao trabalho do jornalismo.” (...)

 

A entrevista na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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