Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

Eleição de Trump fortaleceu relação da Imprensa com sociedade

Sobre o presente e o futuro do jornalismo, em tempo de crise do seu modelo económico, de notícias falsas e polarização política globalizada, Steve Coll, director da Escola de Jornalismo da Columbia University, em Nova Iorque, tem diversas notícias a comunicar-nos. A parte boa é que a capacidade de processamento de um grande volume de dados levou à colaboração entre dezenas de jornais, “todos guardando os mesmos segredos e publicando ao mesmo tempo”  - como aconteceu com os Panama Papers. A parte má é que é muito difícil manter a qualidade no meio desta exigência de “mais volume e velocidade de notícias”. E a parte pior é que o fabrico de notícias falsas vai agravar-se ainda mais, segundo os próprios profissionais de Silicon Valley. Mas o jornalismo profissional “ainda cumpre um papel poderoso”, e vai sobreviver.

A entrevista que citamos decorreu em São Paulo, durante o 1º Seminário Internacional de Jornalismo ESPM/Columbia Journalism School, em Outubro de 2017, e vem transcrita no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria. 

Sobre o que mudou na forma de fazer jornalismo, Steve Coll sublinha “o poder que as redes sociais assumiram na distribuição dos media em vários países”:

“Isso fez com que jornais, revistas, rádios e emissoras de TV perdessem muito do controlo na distribuição do seu conteúdo. Os jornais costumavam controlar seu relacionamento com os leitores a ponto de saírem para comprar os jornais em bancas! Agora, eles dependem de plataformas como Facebook, Snap ou YouTube para falar com o seu público.” (...) 

Quanto ao impacto da revolução digital, o entrevistado afirma:

“Na era do Big Data, é difícil para o jornalista levar adiante sua função democrática e constitucional de informar se não souber examinar da maneira correcta os dados e algoritmos que estão sendo utilizados e seus impactos na sociedade. É preciso literalmente olhar por baixo dos códigos e ver como eles são feitos. Os tribunais americanos estão usando softwares de algoritmo para determinar sentenças baseadas em indicações de como alguns criminosos irão reagir, se podem ou não retornar ao crime. Isso mostra que os processos de engenharia utilizados nos códigos das chamadas fake news podem influenciar a opinião pública.” (...) 

Sobre o ritmo imposto agora aos profissionais, a situação é delicada:

“Se você olhar de uma maneira mais ampla para a indústria de jornais e revistas, o desafio óbvio é manter a qualidade dentro de uma demanda por mais volume e velocidade de notícias. Cada um desenvolveu uma estratégia para fazer frente a esses novos canais investindo mais do que de facto gostariam em mecanismos de controlo de qualidade. Exemplos de erros catastróficos no jornalismo nos mostram que, muitas vezes, eles ocorrem não por questão de recursos, mas de atenção e de priorizar a qualidade.” (...) 

A Escola de Jornalismo da Columbia University , como conta, dobrou a carga horária de ensino de jornalismo de investigação. À pergunta sobre se isso implica que “os jornalistas mais antigos terão que voltar à escola”, Steve Coll responde: 

“No meu entendimento, teremos cada vez mais equipas colaborativas com perfis que se complementam. Existe muito espaço para os jornalistas investigativos à moda antiga exercerem o seu trabalho de apurar, identificar fontes e lidar com situações de risco. A demanda pelas qualidades dos jornalistas experientes não desapareceu. Mas haverá mais colaboração com jornalistas com capacidade de trabalhar com dados e novas tecnologias.” (...) 

“Quando comecei, tive a sorte de trabalhar em uma redacção estável, que dava oportunidade aos jornalistas mais jovens para se desenvolver e aprender o ofício, sabendo que muitos desses profissionais ficariam ali por mais 20 ou 30 anos. Então, a empresa tirava proveito da experiência que esse profissional adquiria ao longo do tempo. Hoje, você pode ter experiências excitantes, mas não encontrará esse tipo de estabilidade. Jovens profissionais terão que aprender a se virar sozinhos sem uma rede de proteção.” (...) 

Finalmente, e sobre a situação presente nos Estados Unidos, a sua expectativa é de preocupação:

“A situação piorou, porque este Presidente continua tratando os jornalistas como desonestos, inimigos do povo e antipatriotas. O nível de excitação de extremistas contra o jornalismo abre caminho para uma escalada de violência. Eu não me surpreenderia se víssemos algum incidente, um assassinato ou outro tipo de violência contra jornalistas. Inimaginável que o próprio Presidente trate um grupo de pessoas e seu papel na sociedade de modo tão irresponsável sem consequências.” (...)

Sobre se a liberdade de Imprensa está “sob ataque no mundo”:

“Com certeza está sob ataque nos Estados Unidos. À eleição de Trump se seguiu a ascensão de políticos autoritários em diversas sociedades, aumentando o risco à liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, isso fez crescer o tom de ameaça ao jornalismo, mas, por outro lado, fortaleceu a relação da Imprensa com a sociedade civil e os leitores dos meios mais sérios. Estamos em um momento de conflito: é a primeira vez que um governo se opõe directamente ao trabalho do jornalismo.” (...)

 

A entrevista na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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