Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Connosco

Memória de um escândalo revelado: os "Pentagon Papers" no "Diário Popular"

Francisco Sarsfield Cabral trabalhava no Diário Popular, em 1971, quando teve notícia, pelos jornais estrangeiros, de que havia nos Estados Unidos uma embaraçosa fuga de informação militar sobre a guerra no Vietname. Era aquilo que veio a ser conhecido como o escândalo dos Pentagon Papers  - documentos que provavam, já na altura, que não era possível vencer aquela guerra. As fontes eram The New York Times e The Washington Post. Sarsfield Cabral começou a traduzir artigos e o Diário Popular a publicá-los. Agora que o tema volta a ter visibilidade, no contexto de um filme sobre o segundo daqueles jornais, o Expresso falou com o protagonista desta “fuga” de informação em português, durante quase uma semana, num país que tinha a sua própria guerra no Ultramar e vigiava de perto a Imprensa. 

A primeira pergunta podia ser esta; os censores não eram sensíveis ao paralelo de situações? Francisco Sarsfield Cabral explica: 

“Tudo o que era política nacional era altamente censurado, mas os temas internacionais não. Um dos assuntos mais na berra naquela altura era precisamente a guerra do Vietname, até porque ainda havia serviço militar obrigatório nos EUA. Nós tínhamos o problema do Ultramar e das colónias e os EUA tinham a guerra.” (…) 

“Só o Diário Popular publicou partes do relatório cá. Os outros jornais não estavam muito interessados nisso na altura, ainda que cá dependêssemos muito dos americanos. Que eu me lembre, a censura não chateou nada. Nem o assunto foi muito discutido cá, apenas vagamente. Não havia correspondentes estrangeiros ou havia poucos e sabia-se pouco do que se passava lá fora. Nem sequer sei se houve negociações entre o Washington Post e o Diário Popular para publicar as traduções. Se isto teve algum impacto cá foi porque também nós tínhamos uma guerra colonial sobre a qual não se devia falar. Não foi um impacto explícito. Para nós, o Watergate foi muito mais importante, até porque aconteceu depois do 25 de Abril.” (…) 

“Mas o que achei mais curioso foi mesmo o facto de a censura não ter criado quaisquer problemas, sendo que normalmente criava.” (…) 

Sobre a noção que teria da importância e da gravidade do que estava em causa nos documentos revelados, Francisco Sarsfield Cabral afirma: 

“Eu estava consciente da fuga extraordinária de informação que estava em causa, mas não estava consciente dos dramas jurídicos e éticos por que o New York Times e o Washington Post estavam a passar. Ao fim de dois números com revelações estrondosas, o New York Times ficou proibido de publicar mais artigos sobre o assunto. Aí, Katharine Graham [herdeira e gestora do Washington Post, interpretada no filme por Meryl Streep] mostrou uma coragem fantástica, mas eu de facto não percebi isso na altura.” (…) 

Fazendo uma reflexão sobre os meios necessários para um jornalismo de investigação desta envergadura, e comparando com a situação actual, o seu comentário é pessimista: 

“Se fosse hoje, duvido que o Watergate tivesse acontecido, por falta de recursos por parte do Washington Post. Em Portugal é igual. O problema da nossa comunicação social é sobretudo um problema de falta de dinheiro, que resulta em falta de pessoas e de tempo e que torna a nossa investigação fraca. Ainda há obviamente pessoas a fazer investigação, mas são poucas e cada vez menos.” (…) 


Testemunho de Sarsfield Cabral em Opinião neste site e entrevista aqui citada, no Expresso online

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

ver mais >
Opinião
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
É inegável a importância da tomada de posição conjunta de 350 jornais americanos que, respondendo a um apelo do The Boston Globe, assinaram  editoriais simultâneos, rejeitando a política de hostilidade desencadeada pelo presidente Trump contra os media. A data de 16 de Agosto ficará para a História da Imprensa  americana ao assumir esta iniciativa solidária e absolutamente inédita, que mobilizou grandes...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...