Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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Memória de um escândalo revelado: os "Pentagon Papers" no "Diário Popular"

Francisco Sarsfield Cabral trabalhava no Diário Popular, em 1971, quando teve notícia, pelos jornais estrangeiros, de que havia nos Estados Unidos uma embaraçosa fuga de informação militar sobre a guerra no Vietname. Era aquilo que veio a ser conhecido como o escândalo dos Pentagon Papers  - documentos que provavam, já na altura, que não era possível vencer aquela guerra. As fontes eram The New York Times e The Washington Post. Sarsfield Cabral começou a traduzir artigos e o Diário Popular a publicá-los. Agora que o tema volta a ter visibilidade, no contexto de um filme sobre o segundo daqueles jornais, o Expresso falou com o protagonista desta “fuga” de informação em português, durante quase uma semana, num país que tinha a sua própria guerra no Ultramar e vigiava de perto a Imprensa. 

A primeira pergunta podia ser esta; os censores não eram sensíveis ao paralelo de situações? Francisco Sarsfield Cabral explica: 

“Tudo o que era política nacional era altamente censurado, mas os temas internacionais não. Um dos assuntos mais na berra naquela altura era precisamente a guerra do Vietname, até porque ainda havia serviço militar obrigatório nos EUA. Nós tínhamos o problema do Ultramar e das colónias e os EUA tinham a guerra.” (…) 

“Só o Diário Popular publicou partes do relatório cá. Os outros jornais não estavam muito interessados nisso na altura, ainda que cá dependêssemos muito dos americanos. Que eu me lembre, a censura não chateou nada. Nem o assunto foi muito discutido cá, apenas vagamente. Não havia correspondentes estrangeiros ou havia poucos e sabia-se pouco do que se passava lá fora. Nem sequer sei se houve negociações entre o Washington Post e o Diário Popular para publicar as traduções. Se isto teve algum impacto cá foi porque também nós tínhamos uma guerra colonial sobre a qual não se devia falar. Não foi um impacto explícito. Para nós, o Watergate foi muito mais importante, até porque aconteceu depois do 25 de Abril.” (…) 

“Mas o que achei mais curioso foi mesmo o facto de a censura não ter criado quaisquer problemas, sendo que normalmente criava.” (…) 

Sobre a noção que teria da importância e da gravidade do que estava em causa nos documentos revelados, Francisco Sarsfield Cabral afirma: 

“Eu estava consciente da fuga extraordinária de informação que estava em causa, mas não estava consciente dos dramas jurídicos e éticos por que o New York Times e o Washington Post estavam a passar. Ao fim de dois números com revelações estrondosas, o New York Times ficou proibido de publicar mais artigos sobre o assunto. Aí, Katharine Graham [herdeira e gestora do Washington Post, interpretada no filme por Meryl Streep] mostrou uma coragem fantástica, mas eu de facto não percebi isso na altura.” (…) 

Fazendo uma reflexão sobre os meios necessários para um jornalismo de investigação desta envergadura, e comparando com a situação actual, o seu comentário é pessimista: 

“Se fosse hoje, duvido que o Watergate tivesse acontecido, por falta de recursos por parte do Washington Post. Em Portugal é igual. O problema da nossa comunicação social é sobretudo um problema de falta de dinheiro, que resulta em falta de pessoas e de tempo e que torna a nossa investigação fraca. Ainda há obviamente pessoas a fazer investigação, mas são poucas e cada vez menos.” (…) 


Testemunho de Sarsfield Cabral em Opinião neste site e entrevista aqui citada, no Expresso online

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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