Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
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Memória de um escândalo revelado: os "Pentagon Papers" no "Diário Popular"

Francisco Sarsfield Cabral trabalhava no Diário Popular, em 1971, quando teve notícia, pelos jornais estrangeiros, de que havia nos Estados Unidos uma embaraçosa fuga de informação militar sobre a guerra no Vietname. Era aquilo que veio a ser conhecido como o escândalo dos Pentagon Papers  - documentos que provavam, já na altura, que não era possível vencer aquela guerra. As fontes eram The New York Times e The Washington Post. Sarsfield Cabral começou a traduzir artigos e o Diário Popular a publicá-los. Agora que o tema volta a ter visibilidade, no contexto de um filme sobre o segundo daqueles jornais, o Expresso falou com o protagonista desta “fuga” de informação em português, durante quase uma semana, num país que tinha a sua própria guerra no Ultramar e vigiava de perto a Imprensa. 

A primeira pergunta podia ser esta; os censores não eram sensíveis ao paralelo de situações? Francisco Sarsfield Cabral explica: 

“Tudo o que era política nacional era altamente censurado, mas os temas internacionais não. Um dos assuntos mais na berra naquela altura era precisamente a guerra do Vietname, até porque ainda havia serviço militar obrigatório nos EUA. Nós tínhamos o problema do Ultramar e das colónias e os EUA tinham a guerra.” (…) 

“Só o Diário Popular publicou partes do relatório cá. Os outros jornais não estavam muito interessados nisso na altura, ainda que cá dependêssemos muito dos americanos. Que eu me lembre, a censura não chateou nada. Nem o assunto foi muito discutido cá, apenas vagamente. Não havia correspondentes estrangeiros ou havia poucos e sabia-se pouco do que se passava lá fora. Nem sequer sei se houve negociações entre o Washington Post e o Diário Popular para publicar as traduções. Se isto teve algum impacto cá foi porque também nós tínhamos uma guerra colonial sobre a qual não se devia falar. Não foi um impacto explícito. Para nós, o Watergate foi muito mais importante, até porque aconteceu depois do 25 de Abril.” (…) 

“Mas o que achei mais curioso foi mesmo o facto de a censura não ter criado quaisquer problemas, sendo que normalmente criava.” (…) 

Sobre a noção que teria da importância e da gravidade do que estava em causa nos documentos revelados, Francisco Sarsfield Cabral afirma: 

“Eu estava consciente da fuga extraordinária de informação que estava em causa, mas não estava consciente dos dramas jurídicos e éticos por que o New York Times e o Washington Post estavam a passar. Ao fim de dois números com revelações estrondosas, o New York Times ficou proibido de publicar mais artigos sobre o assunto. Aí, Katharine Graham [herdeira e gestora do Washington Post, interpretada no filme por Meryl Streep] mostrou uma coragem fantástica, mas eu de facto não percebi isso na altura.” (…) 

Fazendo uma reflexão sobre os meios necessários para um jornalismo de investigação desta envergadura, e comparando com a situação actual, o seu comentário é pessimista: 

“Se fosse hoje, duvido que o Watergate tivesse acontecido, por falta de recursos por parte do Washington Post. Em Portugal é igual. O problema da nossa comunicação social é sobretudo um problema de falta de dinheiro, que resulta em falta de pessoas e de tempo e que torna a nossa investigação fraca. Ainda há obviamente pessoas a fazer investigação, mas são poucas e cada vez menos.” (…) 


Testemunho de Sarsfield Cabral em Opinião neste site e entrevista aqui citada, no Expresso online

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Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
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