Segunda-feira, 25 de Junho, 2018
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Memória de um escândalo revelado: os "Pentagon Papers" no "Diário Popular"

Francisco Sarsfield Cabral trabalhava no Diário Popular, em 1971, quando teve notícia, pelos jornais estrangeiros, de que havia nos Estados Unidos uma embaraçosa fuga de informação militar sobre a guerra no Vietname. Era aquilo que veio a ser conhecido como o escândalo dos Pentagon Papers  - documentos que provavam, já na altura, que não era possível vencer aquela guerra. As fontes eram The New York Times e The Washington Post. Sarsfield Cabral começou a traduzir artigos e o Diário Popular a publicá-los. Agora que o tema volta a ter visibilidade, no contexto de um filme sobre o segundo daqueles jornais, o Expresso falou com o protagonista desta “fuga” de informação em português, durante quase uma semana, num país que tinha a sua própria guerra no Ultramar e vigiava de perto a Imprensa. 

A primeira pergunta podia ser esta; os censores não eram sensíveis ao paralelo de situações? Francisco Sarsfield Cabral explica: 

“Tudo o que era política nacional era altamente censurado, mas os temas internacionais não. Um dos assuntos mais na berra naquela altura era precisamente a guerra do Vietname, até porque ainda havia serviço militar obrigatório nos EUA. Nós tínhamos o problema do Ultramar e das colónias e os EUA tinham a guerra.” (…) 

“Só o Diário Popular publicou partes do relatório cá. Os outros jornais não estavam muito interessados nisso na altura, ainda que cá dependêssemos muito dos americanos. Que eu me lembre, a censura não chateou nada. Nem o assunto foi muito discutido cá, apenas vagamente. Não havia correspondentes estrangeiros ou havia poucos e sabia-se pouco do que se passava lá fora. Nem sequer sei se houve negociações entre o Washington Post e o Diário Popular para publicar as traduções. Se isto teve algum impacto cá foi porque também nós tínhamos uma guerra colonial sobre a qual não se devia falar. Não foi um impacto explícito. Para nós, o Watergate foi muito mais importante, até porque aconteceu depois do 25 de Abril.” (…) 

“Mas o que achei mais curioso foi mesmo o facto de a censura não ter criado quaisquer problemas, sendo que normalmente criava.” (…) 

Sobre a noção que teria da importância e da gravidade do que estava em causa nos documentos revelados, Francisco Sarsfield Cabral afirma: 

“Eu estava consciente da fuga extraordinária de informação que estava em causa, mas não estava consciente dos dramas jurídicos e éticos por que o New York Times e o Washington Post estavam a passar. Ao fim de dois números com revelações estrondosas, o New York Times ficou proibido de publicar mais artigos sobre o assunto. Aí, Katharine Graham [herdeira e gestora do Washington Post, interpretada no filme por Meryl Streep] mostrou uma coragem fantástica, mas eu de facto não percebi isso na altura.” (…) 

Fazendo uma reflexão sobre os meios necessários para um jornalismo de investigação desta envergadura, e comparando com a situação actual, o seu comentário é pessimista: 

“Se fosse hoje, duvido que o Watergate tivesse acontecido, por falta de recursos por parte do Washington Post. Em Portugal é igual. O problema da nossa comunicação social é sobretudo um problema de falta de dinheiro, que resulta em falta de pessoas e de tempo e que torna a nossa investigação fraca. Ainda há obviamente pessoas a fazer investigação, mas são poucas e cada vez menos.” (…) 


Testemunho de Sarsfield Cabral em Opinião neste site e entrevista aqui citada, no Expresso online

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Historiadora Bettany Hughes distinguida com Prémio Europeu Helena Vaz da Silva 2018 Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hughes, também editora e apresentadora de programas de televisão e rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018, segundo foi anunciado pelo respectivo júri. A escolha “tem por objectivo homenagear a personalidade excepcional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante”, tendo ainda em conta a necessidade “vital de construir uma visão da nossa identidade multifacetada”, numa era de nacionalismos e populismos, como se lê na declaração agora divulgada. A cerimónia de entrega do Prémio realiza-se no dia 15 de Novembro deste ano na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Agência “Xinhua” em vantagem na ‘inteligência artificial’ Ver galeria

No início do ano, a Xinhua, maior agência noticiosa estatal da China, divulgou o desenvolvimento de aplicação da ‘inteligência artificial’ para construir “um novo tipo de redacção, baseada na tecnologia de informação e utilizando colaboração entre o homem e a máquina”. Estava então a equipar-se com a plataforma Media Brain, que aplica a parafernália corrente designada por IA (inteligência artificial), Internet das coisas, big data e cloud computing a todas as fases da produção de notícias, desde a criação dos leads à agregação, edição, distribuição e análise de feedback.

Agora anunciou um update ao Media Brain, que vai usar MGC – machine generated content  para uma produção noticiosa de alta velocidade, que pode criar um vídeo de modo automático em cerca de dez segundos. O presidente da Xinhua, Cai Mingzaho, disse que a agência usará a IA para criar uma “informação individualizada e personalizada” que pode tomar muitas formas, desde portais noticiosos personalizados até títulos e artigos ajustados para leitores individuais  -  “e, provavelmente, para propaganda”. A informação é de um artigo de Kelsey Ables, assistente editorial na Columbia Journalism Review.
O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

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Opinião
Ao ler no centenário “Diário de Noticias” a noticia da extinção formal da sua edição em papel, de Segunda–Feira a Sábado , a partir de Julho, fica a saber-se que o seu actual director, o  jornalista Ferreira Fernandes, entrou em “oito cafés(…) a caminho do cinema S. Jorge onde decorreu a apresentação do novo jornal” e só “contou três pessoas a ler o jornal em...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
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Jornalistas assassinados na UE
Francisco Sarsfield Cabral
A 3 de Maio celebra-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A ideia de uma organização, patrocinada pela Unesco, para defender a liberdade de informação partiu de um grupo de jornalistas independentes em 1976.O encontro deste ano, no Ghana, dará especial atenção à independência do sistema judicial e à importância de assegurar que serão legalmente investigados e condenados crimes contra jornalistas. Foi,...
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