Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

No jornalismo pode perder-se dinheiro com os velhos ou com os novos...

Havia 70 jornalistas na redacção quando Ben Conarck, um repórter de casos de polícia, começou a trabalhar, há um ano e meio, no Florida Times-Union. Depois de terem sido despedidos mais dez, na última semana, o número deles anda agora pelas quatro dezenas. É uma história semelhante a tantas outras, em que os jornais tentam sobreviver cortando bocados de si mesmos. Mas “podem as redacções fazer autênticas mudanças sob a ameaça constante dos despedimentos?” No fundo, cada uma está a procurar “uma nova narrativa sobre o seu próprio caso”, partindo da situação de uma indústria moribunda para se encontrar num processo de reinvenção.

A reportagem que citamos é de Kristen Hare, do Poynter Institute, e reune uma quantidade de casos exemplares deste esforço de “reinvenção” em curso no jornalismo local, talvez o mais “massacrado” nos últimos anos nos Estados Unidos.

 

“As pessoas nas nossas redacções precisam de acreditar nessa narrativa, e isso é duro, agora, porque aquilo a que estão a assistir é ao processo de morrer. Estão a ver os despedimentos e os cortes, e as coisas que já não podemos fazer mas estávamos habituados a poder”  -  conta Robyn Tomlin, editora do Dallas Morning News.

 

No fundo, a própria designação do que está a acontecer é um esforço e um problema. Como explica Kristen Hare:

 

“O ‘ajustamento de dimensão’ [right-sizing, no original] é um termo empresarial incruento para um processo que é agonizante, confuso e desmoralizante. Mas temos estado a ouvi-lo vezes sem conta numa década de aflição financeira de uma indústria que tenta transformar-se.”  (...)

 

“Durante anos, os cortes pareciam conduzidos por motivos puramente financeiros, destinados a reduzir custos nas redacções onde o que era novo não estava a crescer suficientemente depressa para substituir o antigo. Esses cortes lançaram muitas pessoas para fora das redacções (o Facebook Group sobre o Plano B para jornalistas despedidos chegou aos 12 mil membros). Alguns editores saíram, ou foram despedidos, para não terem de continuar a cortar. Os despedimentos não pararam mas, recentemente, parecem um pouco mais estratégicos, embora não sejam menos dolorosos.” (...)

 

Howard Gensler, que foi presidente da Newspaper Guild of Greater Philadelphia (e é um dos que aceitaram rescisão de contrato), diz:

 

“Se as empresas se limitam a despedir, penso que se torna muito difícil, em termos do moral e da motivação da força de trabalho que fica, continuar a fazer mudanças, quando se torna claro que a última ronda de mudanças não alcançou o objectivo, ou então não seria necessária nova ronda de mudanças.” (...)

 

A chegada de novos elementos, mais jovens, pode ajudar a mudar a cultura local, mas saber se vai ter benefício financeiro é outra coisa, diz Gensler:

“Pode acontecer. Mas, até agora, não é muito evidente. Pode perder-se dinheiro com os velhos. E pode perder-se dinheiro com os novos.” (...)

 

Robyn Tomlin conta que, quando começou no jornalismo, a palavra ‘inovação’ significava “coisas brilhantes e reluzentes”. Agora significa “de que modo construímos um caminho para a sustentabilidade.” (...)

 

E não há “receitas” seguras. Pelo lado positivo, a reportagem de Kristen Hare identifica um esforço na direcção de obter mais assinantes, uma insistência na noção de “fazer bom jornalismo” e de pensar que não estamos a trabalhar para os nossos patrões mas sim “para os colegas ao nosso lado e para os leitores daquilo que fazemos”. (...)

 

A reportagem na íntegra, no Poynter.org

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