null, 26 de Maio, 2019
Media

No jornalismo pode perder-se dinheiro com os velhos ou com os novos...

Havia 70 jornalistas na redacção quando Ben Conarck, um repórter de casos de polícia, começou a trabalhar, há um ano e meio, no Florida Times-Union. Depois de terem sido despedidos mais dez, na última semana, o número deles anda agora pelas quatro dezenas. É uma história semelhante a tantas outras, em que os jornais tentam sobreviver cortando bocados de si mesmos. Mas “podem as redacções fazer autênticas mudanças sob a ameaça constante dos despedimentos?” No fundo, cada uma está a procurar “uma nova narrativa sobre o seu próprio caso”, partindo da situação de uma indústria moribunda para se encontrar num processo de reinvenção.

A reportagem que citamos é de Kristen Hare, do Poynter Institute, e reune uma quantidade de casos exemplares deste esforço de “reinvenção” em curso no jornalismo local, talvez o mais “massacrado” nos últimos anos nos Estados Unidos.

 

“As pessoas nas nossas redacções precisam de acreditar nessa narrativa, e isso é duro, agora, porque aquilo a que estão a assistir é ao processo de morrer. Estão a ver os despedimentos e os cortes, e as coisas que já não podemos fazer mas estávamos habituados a poder”  -  conta Robyn Tomlin, editora do Dallas Morning News.

 

No fundo, a própria designação do que está a acontecer é um esforço e um problema. Como explica Kristen Hare:

 

“O ‘ajustamento de dimensão’ [right-sizing, no original] é um termo empresarial incruento para um processo que é agonizante, confuso e desmoralizante. Mas temos estado a ouvi-lo vezes sem conta numa década de aflição financeira de uma indústria que tenta transformar-se.”  (...)

 

“Durante anos, os cortes pareciam conduzidos por motivos puramente financeiros, destinados a reduzir custos nas redacções onde o que era novo não estava a crescer suficientemente depressa para substituir o antigo. Esses cortes lançaram muitas pessoas para fora das redacções (o Facebook Group sobre o Plano B para jornalistas despedidos chegou aos 12 mil membros). Alguns editores saíram, ou foram despedidos, para não terem de continuar a cortar. Os despedimentos não pararam mas, recentemente, parecem um pouco mais estratégicos, embora não sejam menos dolorosos.” (...)

 

Howard Gensler, que foi presidente da Newspaper Guild of Greater Philadelphia (e é um dos que aceitaram rescisão de contrato), diz:

 

“Se as empresas se limitam a despedir, penso que se torna muito difícil, em termos do moral e da motivação da força de trabalho que fica, continuar a fazer mudanças, quando se torna claro que a última ronda de mudanças não alcançou o objectivo, ou então não seria necessária nova ronda de mudanças.” (...)

 

A chegada de novos elementos, mais jovens, pode ajudar a mudar a cultura local, mas saber se vai ter benefício financeiro é outra coisa, diz Gensler:

“Pode acontecer. Mas, até agora, não é muito evidente. Pode perder-se dinheiro com os velhos. E pode perder-se dinheiro com os novos.” (...)

 

Robyn Tomlin conta que, quando começou no jornalismo, a palavra ‘inovação’ significava “coisas brilhantes e reluzentes”. Agora significa “de que modo construímos um caminho para a sustentabilidade.” (...)

 

E não há “receitas” seguras. Pelo lado positivo, a reportagem de Kristen Hare identifica um esforço na direcção de obter mais assinantes, uma insistência na noção de “fazer bom jornalismo” e de pensar que não estamos a trabalhar para os nossos patrões mas sim “para os colegas ao nosso lado e para os leitores daquilo que fazemos”. (...)

 

A reportagem na íntegra, no Poynter.org

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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