Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Media

No jornalismo pode perder-se dinheiro com os velhos ou com os novos...

Havia 70 jornalistas na redacção quando Ben Conarck, um repórter de casos de polícia, começou a trabalhar, há um ano e meio, no Florida Times-Union. Depois de terem sido despedidos mais dez, na última semana, o número deles anda agora pelas quatro dezenas. É uma história semelhante a tantas outras, em que os jornais tentam sobreviver cortando bocados de si mesmos. Mas “podem as redacções fazer autênticas mudanças sob a ameaça constante dos despedimentos?” No fundo, cada uma está a procurar “uma nova narrativa sobre o seu próprio caso”, partindo da situação de uma indústria moribunda para se encontrar num processo de reinvenção.

A reportagem que citamos é de Kristen Hare, do Poynter Institute, e reune uma quantidade de casos exemplares deste esforço de “reinvenção” em curso no jornalismo local, talvez o mais “massacrado” nos últimos anos nos Estados Unidos.

 

“As pessoas nas nossas redacções precisam de acreditar nessa narrativa, e isso é duro, agora, porque aquilo a que estão a assistir é ao processo de morrer. Estão a ver os despedimentos e os cortes, e as coisas que já não podemos fazer mas estávamos habituados a poder”  -  conta Robyn Tomlin, editora do Dallas Morning News.

 

No fundo, a própria designação do que está a acontecer é um esforço e um problema. Como explica Kristen Hare:

 

“O ‘ajustamento de dimensão’ [right-sizing, no original] é um termo empresarial incruento para um processo que é agonizante, confuso e desmoralizante. Mas temos estado a ouvi-lo vezes sem conta numa década de aflição financeira de uma indústria que tenta transformar-se.”  (...)

 

“Durante anos, os cortes pareciam conduzidos por motivos puramente financeiros, destinados a reduzir custos nas redacções onde o que era novo não estava a crescer suficientemente depressa para substituir o antigo. Esses cortes lançaram muitas pessoas para fora das redacções (o Facebook Group sobre o Plano B para jornalistas despedidos chegou aos 12 mil membros). Alguns editores saíram, ou foram despedidos, para não terem de continuar a cortar. Os despedimentos não pararam mas, recentemente, parecem um pouco mais estratégicos, embora não sejam menos dolorosos.” (...)

 

Howard Gensler, que foi presidente da Newspaper Guild of Greater Philadelphia (e é um dos que aceitaram rescisão de contrato), diz:

 

“Se as empresas se limitam a despedir, penso que se torna muito difícil, em termos do moral e da motivação da força de trabalho que fica, continuar a fazer mudanças, quando se torna claro que a última ronda de mudanças não alcançou o objectivo, ou então não seria necessária nova ronda de mudanças.” (...)

 

A chegada de novos elementos, mais jovens, pode ajudar a mudar a cultura local, mas saber se vai ter benefício financeiro é outra coisa, diz Gensler:

“Pode acontecer. Mas, até agora, não é muito evidente. Pode perder-se dinheiro com os velhos. E pode perder-se dinheiro com os novos.” (...)

 

Robyn Tomlin conta que, quando começou no jornalismo, a palavra ‘inovação’ significava “coisas brilhantes e reluzentes”. Agora significa “de que modo construímos um caminho para a sustentabilidade.” (...)

 

E não há “receitas” seguras. Pelo lado positivo, a reportagem de Kristen Hare identifica um esforço na direcção de obter mais assinantes, uma insistência na noção de “fazer bom jornalismo” e de pensar que não estamos a trabalhar para os nossos patrões mas sim “para os colegas ao nosso lado e para os leitores daquilo que fazemos”. (...)

 

A reportagem na íntegra, no Poynter.org

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Como está o papel?
Manuel Falcão
Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio. Ao ritmo a que...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
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