Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Os gigantes da Internet promovem um modelo comercial tóxico

Os gigantes tecnológicos (sobretudo Google, Facebook e Amazon) exercem uma hegemonia esmagadora sobre a comunicação na nova era digital. Um relatório do Edelman Trust Barometer revela, na base de uma investigação sobre 28 países, que 65% da população recebe as notícias das plataformas da Internet e outros meios “agregadores”. Em 2017, passaram pela Google 89% de todas as buscas na Internet, nos EUA. No mesmo país, Facebook e Google controlam dois terços das receitas da publicidade digital. A Amazon vendeu 75% de todos os livros electrónicos. “São visíveis as dificuldades em regular estas actividades quase monopolistas. Os mecanismos tradicionais do capitalismo não parecem servir nesta nova era tecnológica. Temos um problema.” A reflexão é de Miguel Ormaetxea, editor de Media-tics.

O autor recorda que mesmo os Estados Unidos interditaram, em 1911, o monopólio da Standard Oil, que tinha chegado aos 85% de todas as vendas de gasolina no país. E em 1913 a AT&T foi obrigada a fragmentar-se em várias empresas de menor dimensão. Mas “agora temos situações ainda mais preocupantes do que as que deram lugar ao desmantelamento daqueles conglomerados semi-monopolísticos”. 

“Tudo isto coincide num momento em que é cada vez mais evidente a degradação da qualidade informativa e o aumento esmagador das notícias falsas e manipulações da Informação. Não é de estranhar que comece a enraizar-se na opinião pública que estas grandes empresas são demasiado grandes, anti-competitivas, orgulhosas e destrutivas para a democracia.” (...)

Miguel Ormaetxea lembra que a Comissão Europeia acusou a Google de usar a enorme hegemonia do Android, o seu sistema operativo móvel, para dar vantagem às suas próprias aplicações. O Senado dos EUA está a aumentar o seu escrutínio dos gigantes tecnológicos e há activistas, políticos e até executivos de empresas tecnológicas que pedem uma investigação sobre os efeitos viciantes dos smartphones e das redes sociais. 

“Google e Facebook desenvolveram um modelo comercial tóxico, dando primazia à quantidade sobre a qualidade informativa. (...) Em última instância, uma parte significativa da população vive numa ‘bolha’ de falsidades. A consequência é um público crescentemente desinformado, propenso a decisões muito perigosas.” 

A concluir, diz ainda o mesmo autor:

“O problema é que não é nada fácil regular estes titãs da tecnologia. Consegue-se regular a Amazon, que oferece preços mais baixos e entregas sem concorrência? Se a castigarmos pelo êxito, estamos a enviar uma mensagem contra a inovação a empresários e investidores. Pode dividir-se a Amazon em várias empresas? Pode regular-se a actividade dos que fazem buscas na Google como se fosse um serviço público?” 

“Talvez o problema de fundo seja que o capitalismo clássico ainda não tem boas respostas para uma era de mudanças e progresso exponencial. Amazon não é a Standard Oil nem a Google é a AT&T.”

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Por seu lado, e em resposta às recentes alterações introduzidas pelo Facebook no seu portal de fluxo de notícias, propondo-se reduzir o volume de conteúdos noticiosos e dar destaque a meios “de confiança”, Rupert Murdoch afirma que “se o Facebook quer reconhecer editores de confiança, então deveria pagar a esses publishers uma taxa de distribuição semelhante à do modelo adoptado pelas operadoras de cabo”. 

“Os publishers estão obviamente a melhorar o valor e integridade do Facebook através das suas notícias e conteúdo, mas não estão a ser adequadamente recompensados por esses serviços”, considera o chairman da News Corp, sublinhando que “os pagamentos de distribuição teriam um impacto reduzido nos lucros do Facebook mas um enorme impacto para futuro dos publishers e jornalistas”. (...) 

 

Mais informação em Media-tics e na M&P

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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