Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Editores preocupados com opções noticiosas do Facebook

O Facebook anunciou recentemente uma alteração no seu portal de fluxo de notícias, de modo a fornecer aos utentes mais do conteúdo colocado por familiares e amigos, e menos do que é proveniente dos media. Para todas as empresas noticiosas que só querem sobreviver à queda da “grande falésia do Facebook em 2018”, a novidade é preocupante. Como afirma Emily Bell, jornalista de The Guardian e investigadora na Columbia Journalism University, “a retirada do Facebook de uma relação próxima com os publishers é uma notícia terrível”.

A autora, cujo artigo de Março de 2016 “Facebook is eating the world” se tornou uma referência nesta polémica  - e aqui mencionámos na altura -  dá conta de um crescente mal-estar junto de proprietários de meios de comunicação, que têm vindo a verificar uma quebra crescente no seu tráfego referido no Facebook, “em alguns sites de mais de 40%, fazendo-os pensar se a alteração [acima referida] já tinha sido posta em prática, enquanto outros estão preocupados que uma quebra ainda mais precipitada esteja a caminho”. (...)

 

Não é a primeira vez que a poderosa plataforma social faz este tipo de ajustamentos ao seu news feed. Já tinha acontecido, em Junho de 2016. Como afirma hoje Emily Bell:

 

“Nenhuma outra organização na história do mundo teve o impacto que tem o Facebook sobre o ecossistema noticioso. O meigo site de rede social que a maioria de nós usa para pôr fotografias de cãezinhos e crianças e para nos queixarmos de outras pessoas  tornou-se uma fonte crucial de tráfego para muitas empresas noticiosas digitais e a fonte primária de notícias para a maioria dos seus utentes. Mas, como sabemos agora pelas audições de Outubro no Congresso, o Facebook é também o veículo de organizações de propaganda como a Agência Russa de Investigação na Internet para tentar influenciar eleitores americanos e talvez mesmo conseguir fazê-lo.” (...)

 

“No ano passado, quando o Facebook experimentou algumas mudanças no seu algoritmo de notícias em seis pequenos mercados  - Guatemala, Eslováquia, Sérvia, Sri Lanka, Bolívia e Cambodja -  as empresas noticiosas viram a sua audiência cair mais de metade. O jornalista sérvio Stevan Dojcinovic escreveu um manifesto incisivo no New York Times, censurando Zuckerberg por estar a tratar democracias frágeis como laboratórios para os seus produtos.” (...)

 

“Em países como as Filipinas, Myanmar e o Sudão do Sul, ou democracias emergentes como a Bolívia e a Sérvia, não é ético reivindicar neutralidade da plataforma, ou avançar com a promessa de um ecossistema noticioso a funcionar e depois simplesmente retirar-se por capricho.” (...)

 

 

O artigo de Emily Bell  e mais informação no NiemanLab  e na Columbia Journalism Review

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

ver mais >
Opinião
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
É inegável a importância da tomada de posição conjunta de 350 jornais americanos que, respondendo a um apelo do The Boston Globe, assinaram  editoriais simultâneos, rejeitando a política de hostilidade desencadeada pelo presidente Trump contra os media. A data de 16 de Agosto ficará para a História da Imprensa  americana ao assumir esta iniciativa solidária e absolutamente inédita, que mobilizou grandes...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...