Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
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A notícia que todos leram mas não foi escrita por ninguém...

Antes da Internet, quem quisesse informar-se tinha de fazer um esforço de busca  -  ir a um quiosque comprar o jornal, ligar o rádio ou a televisão. “Agora é a informação que nos procura, mesmo que não queiramos.” Por meio de avisos e notificações, “os conteúdos lutam por captar a nossa atenção” em todo o lado. Ainda podemos desligar os aparelhos mas, “no futuro, nem sequer haverá essa escapatória”. Estaremos sempre rodeados de ecrãs, que “virão ao nosso encontro a cada passo”. Todos os aparelhos estarão interligados. É nestes termos que está a ser imaginada a “Internet das coisas” e o seu efeito sobre a informação e o jornalismo. A reflexão é de Ramón Salaverría, docente na Universidade de Navarra.

O texto deste autor, publicado em Cuadernos de Periodistas nº 35, da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  começa por um exemplo significativo, o da “primeira notícia que, tendo sido escrita por um robot, conseguiu situar-se como informação principal do site de um grande jornal, o Los Angeles Times”. 

Em 14 de Março de 2014, a rede de sismógrafos da Califórnia registou um tremor que, pela sua intensidade, teve magnitude suficiente para desencadear um aviso automático, que foi recebido por muitos órgãos de informação. Mas, “às seis da manhã, com as redacções praticamente vazias, eram poucos os meios capazes de fazerem eco da notícia”. 

À excepção do Times, que já tinha um sistema de redacção automática de notícias mediante uma aplicação algorítmica  - aquilo a que chamamos um robot... “Como os robots não se importam de acordar cedo, o do Times recebeu o aviso e compôs uma nota curta, de 102 palavras”, que começava assim: 

“Um terramoto de magnitude 4,7 foi registado hoje, segunda de manhã, a cinco milhas de Westwood, Califórnia, segundo o Serviço Geológico dos EUA. O abalo ocorreu às 6h.25, a uma profundidade de cinco milhas.” (...) 

Esta informação apareceu de imediato na Net e, naturalmente, os primeiros interessados em saber mais eram os residentes do distrito de Westwood, que começaram a teclar em todas as direcções. Como a nota de Los Angeles Times era a única àquela hora, recebeu tantas visitas e partilhas que teve efeito de bola de neve: o sistema de gestão de conteúdos do jornal, programado para dar mais destaque às notícias com mais visitas, puxou-a para o primeiro lugar. Como conta Ramón Salaverría: 

“Tinha acontecido o inédito  -  uma informação que não tinha sido noticiada por ‘ninguém’, nem escrita por ‘ninguém’, nem publicada por ‘ninguém’, era a notícia que estava a ser lida por ‘toda a gente’.” (...) 

E este efeito de sermos “encontrados” pela notícia automática passa-se cada vez mais nos dispositivos móveis. Segundo o mais recente relatório Digital News Report – España 2017, coordenado pela Universidade de Navarra, “em conjunto, os telemóveis e tablets (com 47%) ultrapassaram pela primeira vez, em 2017, o computador (com 46%) como dispositivo principal no acesso às notícias.” 

E, como explica a seguir, esta “não é a estação de chegada” porque, a seguir aos dispositivos móveis, vem aí a Internet das Coisas, em que quase todos os aparelhos estarão interligados e terão, além da sua função original, a possibilidade de serem “receptores e fontes de informação”  -  além de a registarem de modo continuo. “Estaremos permanentemente monitorizados.” (...) 

“Num simpósio organizado no Rio de Janeiro pela Universidade de Harvard, em Novembro de 2017, peritos dos cinco continentes estiveram de acordo em assinalar o sector dos media e do jornalismo como um dos que, com a educação, a saúde e os negócios, será mais transformado por estas tecnologias nos próximos anos.” (...) 

O que se segue, no trabalho que citamos, é um desenvolvimento de previsão de coisas possíveis, nem todas boas, nem todas más  -  quase todas já em começo de realização.

 

O texto na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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