Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Fórum

A notícia que todos leram mas não foi escrita por ninguém...

Antes da Internet, quem quisesse informar-se tinha de fazer um esforço de busca  -  ir a um quiosque comprar o jornal, ligar o rádio ou a televisão. “Agora é a informação que nos procura, mesmo que não queiramos.” Por meio de avisos e notificações, “os conteúdos lutam por captar a nossa atenção” em todo o lado. Ainda podemos desligar os aparelhos mas, “no futuro, nem sequer haverá essa escapatória”. Estaremos sempre rodeados de ecrãs, que “virão ao nosso encontro a cada passo”. Todos os aparelhos estarão interligados. É nestes termos que está a ser imaginada a “Internet das coisas” e o seu efeito sobre a informação e o jornalismo. A reflexão é de Ramón Salaverría, docente na Universidade de Navarra.

O texto deste autor, publicado em Cuadernos de Periodistas nº 35, da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  começa por um exemplo significativo, o da “primeira notícia que, tendo sido escrita por um robot, conseguiu situar-se como informação principal do site de um grande jornal, o Los Angeles Times”. 

Em 14 de Março de 2014, a rede de sismógrafos da Califórnia registou um tremor que, pela sua intensidade, teve magnitude suficiente para desencadear um aviso automático, que foi recebido por muitos órgãos de informação. Mas, “às seis da manhã, com as redacções praticamente vazias, eram poucos os meios capazes de fazerem eco da notícia”. 

À excepção do Times, que já tinha um sistema de redacção automática de notícias mediante uma aplicação algorítmica  - aquilo a que chamamos um robot... “Como os robots não se importam de acordar cedo, o do Times recebeu o aviso e compôs uma nota curta, de 102 palavras”, que começava assim: 

“Um terramoto de magnitude 4,7 foi registado hoje, segunda de manhã, a cinco milhas de Westwood, Califórnia, segundo o Serviço Geológico dos EUA. O abalo ocorreu às 6h.25, a uma profundidade de cinco milhas.” (...) 

Esta informação apareceu de imediato na Net e, naturalmente, os primeiros interessados em saber mais eram os residentes do distrito de Westwood, que começaram a teclar em todas as direcções. Como a nota de Los Angeles Times era a única àquela hora, recebeu tantas visitas e partilhas que teve efeito de bola de neve: o sistema de gestão de conteúdos do jornal, programado para dar mais destaque às notícias com mais visitas, puxou-a para o primeiro lugar. Como conta Ramón Salaverría: 

“Tinha acontecido o inédito  -  uma informação que não tinha sido noticiada por ‘ninguém’, nem escrita por ‘ninguém’, nem publicada por ‘ninguém’, era a notícia que estava a ser lida por ‘toda a gente’.” (...) 

E este efeito de sermos “encontrados” pela notícia automática passa-se cada vez mais nos dispositivos móveis. Segundo o mais recente relatório Digital News Report – España 2017, coordenado pela Universidade de Navarra, “em conjunto, os telemóveis e tablets (com 47%) ultrapassaram pela primeira vez, em 2017, o computador (com 46%) como dispositivo principal no acesso às notícias.” 

E, como explica a seguir, esta “não é a estação de chegada” porque, a seguir aos dispositivos móveis, vem aí a Internet das Coisas, em que quase todos os aparelhos estarão interligados e terão, além da sua função original, a possibilidade de serem “receptores e fontes de informação”  -  além de a registarem de modo continuo. “Estaremos permanentemente monitorizados.” (...) 

“Num simpósio organizado no Rio de Janeiro pela Universidade de Harvard, em Novembro de 2017, peritos dos cinco continentes estiveram de acordo em assinalar o sector dos media e do jornalismo como um dos que, com a educação, a saúde e os negócios, será mais transformado por estas tecnologias nos próximos anos.” (...) 

O que se segue, no trabalho que citamos, é um desenvolvimento de previsão de coisas possíveis, nem todas boas, nem todas más  -  quase todas já em começo de realização.

 

O texto na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...