Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Estudo

Americanos divididos sobre a credibilidade da cobertura noticiosa

Uma maioria de 58% dos cidadãos dos EUA afirma que é mais difícil, hoje, estar bem informado, precisamente devido à grande abundância de fontes noticiosas disponíveis (apenas 38% dizem que é mais fácil). Uma vasta maioria (84%) reconhece que os media têm um papel importante a desempenhar na democracia mas, sobre se estão a fazê-lo correctamente, é outra história: só 33% têm uma opinião favorável a seu respeito; e dividem-se claramente por linhas partidárias (54% de Democratas e 15% de Republicanos). Também uma maioria muito elevada (73%) de cidadãos norte-americanos considera que a divulgação de informação inexacta pela Internet é um grave problema para a cobertura noticiosa actual. São estes alguns dos números do relatório American Views: Trust, Media and Democracy, realizado pela Gallup e a Knight Foundation, agora divulgado.

O relatório decorre de uma sondagem realizada em 2017 junto de mais de 19 mil cidadãos dos EUA, adultos maiores de 18 anos. 

Segundo o texto de apresentação da Knight Foundation, o progresso tecnológico tornou mais fácil aos americanos comunicarem entre si na busca de informação, mas esse progresso apresenta tanto desafios como oportunidades: 

“Não só há mais informação disponível, como também há mais desinformação, e muitos utentes podem não ser capazes de distinguir facilmente a diferença entre as duas.” 

Também está em declínio a confiança nos media; 45% dos inquiridos concordam que há “uma grande dose” de tendenciosismo político na cobertura noticiosa, o que representa “um aumento significativo em relação a 1989, quando apenas 25% diziam o mesmo”. De modo semelhante, menos de metade dos cidadãos consultados declarou ser capaz de identificar uma fonte de notícias objectiva. 

“Hoje, 66% dos americanos dizem que a maior parte dos media não faz correctamente a separação entre facto e opinião; em 1989, diziam isto 42%.” 

Em relação às redes sociais, há uma visão negativa quanto ao papel que Facebook e Twitter têm assumido no meio ambiente da comunicação: 

“Só 42% disseram que as plataformas das redes sociais tiveram um efeito positivo no ambiente dos media nestes últimos dez anos. Os americanos estão especialmente preocupados com o problema das ‘bolhas de filtro’: 57% dos americanos disseram que a selecção de artigos por um algoritmo representa ‘um problema sério’ para a democracia nos Estados Unidos.” 

Estão, no entanto, divididos em partes quase iguais quanto à solução desse problema: “49% acham que devia haver regras, ou regulamentos que governem os métodos usados pelas plataformas para fornecerem o conteúdo noticioso aos utentes, enquanto 47% acham que não”. (...) 

No que se refere à capacidade de distinguir a verdade da mentira, apenas 27% dos inquiridos se consideram, pessoalmente, “muito confiantes” na sua própria percepção de quando uma fonte noticiosa está a fazer uma reportagem factual, em vez de comentário ou opinião. 

“Na base do seu declarado conhecimento pessoal dos acontecimentos actuais, e da sua percepção sobre a facilidade em distinguir a verdade da desinformação no relato noticioiso, a maioria dos americanos cabe numa destas duas categorias  -  ou dos Optimistas Conhecedores (41%), que estão informados e acreditam que é possível encontrar a verdade, ou dos Cépticos Desatentos (35%), que estão menos informados e pessimistas sobre a possibilidade de identificar a verdade. A tendência partidária e a educação influenciam estas atitudes.” (...) 

Mas acrescentam-se a estas mais duas categorias, por ordem decrescente: a dos Cépticos Conhecedores (17%), que acham que sabem distinguir entre facto e opinião, mas o tendenciosismo dos media dificulta muito este esforço, e a dos Optimistas Desatentos (7%), que estão menos informados e também acham que o demasiado tendenciosismo não deixa encontrar a verdade. 

 

Mais informação no NiemanLab e no texto de apresentação do relatório, que contém o link para o mesmo, em PDF

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
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