Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Colectânea

As notícias falsas são um problema da sociedade que as aceita

As notícias são inventadas, difundidas e defendidas e, quando se demonstra que são falsas, descartam-se com um encolher de ombros. Não há notícias falsas, o que há são utentes indiferentes ou, pior do que isso, cúmplices. O problema não é que as notícias não sejam autênticas, mas sim que os seus receptores não se importem nada com isso, desde que confirmem o seu ponto de vista ou sirvam para atacar os adversários. E os leitores dos sites de fake news não são estúpidos, nem consumidores de mercadoria avariada. Eles escolhem e decidem, aceitam ou rejeitam conforme crêem ou não. O problema é que esse critério de aceitação é diferente do que pensamos que devia ser. É deste modo que José Cervera, jornalista e docente da Universidade Rey Juan Carlos, nos introduz ao actual debate sobre as fake news.

O autor recorda que nós humanos, procedemos de uma estirpe zoológica que aperfeiçoou o tratamento de “dados”  - informação proveniente do seu meio ambiente: 

“Não é a única razão pela qual nos vemos a nós próprios como racionais, equânimes e analíticos; as paixões e os sentimentos têm má fama quando se trata de tomar decisões. Distinguimos entre ‘saber’ e ‘sentir’, considerando que é melhor quando o que se percebe está apoiado por dados e não apenas pela sensação íntima.” (...) 

Jose Cervera descreve como, na história da evolução, os nossos mais próximos “parentes” desenvolveram “sistemas de vocalização para manter a coesão do grupo”. Já não se tratava de “comunicar informação sobre o meio ambiente”, mas sim confirmar constantemente a cada membro do grupo que estava rodeado de iguais “e, portanto, relativamente seguro”. (...) 

O que se passa mais recentemente, segundo o autor, é que se exacerbaram as tendências que desvalorizam a importância da verdade: 

“Os políticos sempre mentiram, enaltecendo os seus triunfos e escondendo as derrotas; mas agora fazem-no mais e de modo mais flagrante. Os advogados sempre procuraram ‘esticar’ os limites da lei, incluindo as palavras, mas agora é mais evidente. Os comerciantessempre exageraram a qualidade dos seus produtos e esconderam os seus defeitos, mas agora é mais fácil detectar o engano. Os media e a Imprensa sempre foram parciais [han barrido cada uno para su casa, no original], mas ultimamente de modo mais visível. Tudo isto foi retirando poder à ideia de veracidade e até de um pensamento baseado em dados...” (...) 

“Se a dimensão puramente funcional da comunicação tem cada vez menos valor, a da coesão do grupo é cada vez mais importante. Numa sociedade em fragmentação, onde está em discussão a própria ideia da verdade, a pertença a um grupo é cada vez mais imperiosa. (...) Já não importa que as notícias sejam verdade ou mentira, o que importa é que o seu uso sirva para reforçar o grupo interno e atacar o exterior.” (...) 

“O problema, portanto, não é que as notícias sejam falsas; sempre as houve. O problema é que preferimos acreditar nelas mesmo que o sejam, porque o facto da sua falsidade é irrelevante para o seu verdadeiro valor. Empenharmo-nos em denunciar as fontes contaminadas não servirá de nada enquanto milhões queiram beber voluntariamente dessas águas.” (...) 

“É muito mais complicado: para resolver as notícias falsas, é preciso voltar a tornar importante a verdade. Tem que importar que algo seja real ou não seja; o acto de mentir deve ter consequências, e deve ser inaceitável ofuscar, confundir, encerar e enlamear. Toda a sociedade deve voltar a considerar que a razão, os factos e a verdade importam, desde os jornalistas nos seus meios de comunicação até aos publicitários nos seus anúncios, desde os políticos nos seus discursos até aos médicos nas suas receitas, desde os empresários até aos sindicalistas nas suas lutas.” 

“Mais meios não vão resolver isto, como não vai resolver mais fact-checking ou (ainda menos) qualquer lei. Porque as notícias falsas e as bolhas mentais das pessoas que preferem acreditar nelas não são problemas do jornalismo, mas sim da sociedade. E tais problemas nunca tiveram soluções fáceis.” 

 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...