Segunda-feira, 22 de Outubro, 2018
Colectânea

As notícias falsas são um problema da sociedade que as aceita

As notícias são inventadas, difundidas e defendidas e, quando se demonstra que são falsas, descartam-se com um encolher de ombros. Não há notícias falsas, o que há são utentes indiferentes ou, pior do que isso, cúmplices. O problema não é que as notícias não sejam autênticas, mas sim que os seus receptores não se importem nada com isso, desde que confirmem o seu ponto de vista ou sirvam para atacar os adversários. E os leitores dos sites de fake news não são estúpidos, nem consumidores de mercadoria avariada. Eles escolhem e decidem, aceitam ou rejeitam conforme crêem ou não. O problema é que esse critério de aceitação é diferente do que pensamos que devia ser. É deste modo que José Cervera, jornalista e docente da Universidade Rey Juan Carlos, nos introduz ao actual debate sobre as fake news.

O autor recorda que nós humanos, procedemos de uma estirpe zoológica que aperfeiçoou o tratamento de “dados”  - informação proveniente do seu meio ambiente: 

“Não é a única razão pela qual nos vemos a nós próprios como racionais, equânimes e analíticos; as paixões e os sentimentos têm má fama quando se trata de tomar decisões. Distinguimos entre ‘saber’ e ‘sentir’, considerando que é melhor quando o que se percebe está apoiado por dados e não apenas pela sensação íntima.” (...) 

Jose Cervera descreve como, na história da evolução, os nossos mais próximos “parentes” desenvolveram “sistemas de vocalização para manter a coesão do grupo”. Já não se tratava de “comunicar informação sobre o meio ambiente”, mas sim confirmar constantemente a cada membro do grupo que estava rodeado de iguais “e, portanto, relativamente seguro”. (...) 

O que se passa mais recentemente, segundo o autor, é que se exacerbaram as tendências que desvalorizam a importância da verdade: 

“Os políticos sempre mentiram, enaltecendo os seus triunfos e escondendo as derrotas; mas agora fazem-no mais e de modo mais flagrante. Os advogados sempre procuraram ‘esticar’ os limites da lei, incluindo as palavras, mas agora é mais evidente. Os comerciantessempre exageraram a qualidade dos seus produtos e esconderam os seus defeitos, mas agora é mais fácil detectar o engano. Os media e a Imprensa sempre foram parciais [han barrido cada uno para su casa, no original], mas ultimamente de modo mais visível. Tudo isto foi retirando poder à ideia de veracidade e até de um pensamento baseado em dados...” (...) 

“Se a dimensão puramente funcional da comunicação tem cada vez menos valor, a da coesão do grupo é cada vez mais importante. Numa sociedade em fragmentação, onde está em discussão a própria ideia da verdade, a pertença a um grupo é cada vez mais imperiosa. (...) Já não importa que as notícias sejam verdade ou mentira, o que importa é que o seu uso sirva para reforçar o grupo interno e atacar o exterior.” (...) 

“O problema, portanto, não é que as notícias sejam falsas; sempre as houve. O problema é que preferimos acreditar nelas mesmo que o sejam, porque o facto da sua falsidade é irrelevante para o seu verdadeiro valor. Empenharmo-nos em denunciar as fontes contaminadas não servirá de nada enquanto milhões queiram beber voluntariamente dessas águas.” (...) 

“É muito mais complicado: para resolver as notícias falsas, é preciso voltar a tornar importante a verdade. Tem que importar que algo seja real ou não seja; o acto de mentir deve ter consequências, e deve ser inaceitável ofuscar, confundir, encerar e enlamear. Toda a sociedade deve voltar a considerar que a razão, os factos e a verdade importam, desde os jornalistas nos seus meios de comunicação até aos publicitários nos seus anúncios, desde os políticos nos seus discursos até aos médicos nas suas receitas, desde os empresários até aos sindicalistas nas suas lutas.” 

“Mais meios não vão resolver isto, como não vai resolver mais fact-checking ou (ainda menos) qualquer lei. Porque as notícias falsas e as bolhas mentais das pessoas que preferem acreditar nelas não são problemas do jornalismo, mas sim da sociedade. E tais problemas nunca tiveram soluções fáceis.” 

 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Volta e meia defrontamo-nos com a expressão “cord-cutting”, em referência à alteração de comportamentos nos espectadores de televisão. Que quer isto dizer? Muito simplesmente a expressão indica a decisão de deixar de ter um serviço de televisão paga por cabo, para passar a ver TV somente através de streaming – seja na Netflix, na Amazon ou numa das outras plataformas que começam a...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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