Segunda-feira, 25 de Junho, 2018
Media

As notícias falsas são um problema da sociedade que as aceita

As notícias são inventadas, difundidas e defendidas e, quando se demonstra que são falsas, descartam-se com um encolher de ombros. Não há notícias falsas, o que há são utentes indiferentes ou, pior do que isso, cúmplices. O problema não é que as notícias não sejam autênticas, mas sim que os seus receptores não se importem nada com isso, desde que confirmem o seu ponto de vista ou sirvam para atacar os adversários. E os leitores dos sites de fake news não são estúpidos, nem consumidores de mercadoria avariada. Eles escolhem e decidem, aceitam ou rejeitam conforme crêem ou não. O problema é que esse critério de aceitação é diferente do que pensamos que devia ser. É deste modo que José Cervera, jornalista e docente da Universidade Rey Juan Carlos, nos introduz ao actual debate sobre as fake news.

O autor recorda que nós humanos, procedemos de uma estirpe zoológica que aperfeiçoou o tratamento de “dados”  - informação proveniente do seu meio ambiente: 

“Não é a única razão pela qual nos vemos a nós próprios como racionais, equânimes e analíticos; as paixões e os sentimentos têm má fama quando se trata de tomar decisões. Distinguimos entre ‘saber’ e ‘sentir’, considerando que é melhor quando o que se percebe está apoiado por dados e não apenas pela sensação íntima.” (...) 

Jose Cervera descreve como, na história da evolução, os nossos mais próximos “parentes” desenvolveram “sistemas de vocalização para manter a coesão do grupo”. Já não se tratava de “comunicar informação sobre o meio ambiente”, mas sim confirmar constantemente a cada membro do grupo que estava rodeado de iguais “e, portanto, relativamente seguro”. (...) 

O que se passa mais recentemente, segundo o autor, é que se exacerbaram as tendências que desvalorizam a importância da verdade: 

“Os políticos sempre mentiram, enaltecendo os seus triunfos e escondendo as derrotas; mas agora fazem-no mais e de modo mais flagrante. Os advogados sempre procuraram ‘esticar’ os limites da lei, incluindo as palavras, mas agora é mais evidente. Os comerciantessempre exageraram a qualidade dos seus produtos e esconderam os seus defeitos, mas agora é mais fácil detectar o engano. Os media e a Imprensa sempre foram parciais [han barrido cada uno para su casa, no original], mas ultimamente de modo mais visível. Tudo isto foi retirando poder à ideia de veracidade e até de um pensamento baseado em dados...” (...) 

“Se a dimensão puramente funcional da comunicação tem cada vez menos valor, a da coesão do grupo é cada vez mais importante. Numa sociedade em fragmentação, onde está em discussão a própria ideia da verdade, a pertença a um grupo é cada vez mais imperiosa. (...) Já não importa que as notícias sejam verdade ou mentira, o que importa é que o seu uso sirva para reforçar o grupo interno e atacar o exterior.” (...) 

“O problema, portanto, não é que as notícias sejam falsas; sempre as houve. O problema é que preferimos acreditar nelas mesmo que o sejam, porque o facto da sua falsidade é irrelevante para o seu verdadeiro valor. Empenharmo-nos em denunciar as fontes contaminadas não servirá de nada enquanto milhões queiram beber voluntariamente dessas águas.” (...) 

“É muito mais complicado: para resolver as notícias falsas, é preciso voltar a tornar importante a verdade. Tem que importar que algo seja real ou não seja; o acto de mentir deve ter consequências, e deve ser inaceitável ofuscar, confundir, encerar e enlamear. Toda a sociedade deve voltar a considerar que a razão, os factos e a verdade importam, desde os jornalistas nos seus meios de comunicação até aos publicitários nos seus anúncios, desde os políticos nos seus discursos até aos médicos nas suas receitas, desde os empresários até aos sindicalistas nas suas lutas.” 

“Mais meios não vão resolver isto, como não vai resolver mais fact-checking ou (ainda menos) qualquer lei. Porque as notícias falsas e as bolhas mentais das pessoas que preferem acreditar nelas não são problemas do jornalismo, mas sim da sociedade. E tais problemas nunca tiveram soluções fáceis.” 

 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria

Connosco
Historiadora Bettany Hughes distinguida com Prémio Europeu Helena Vaz da Silva 2018 Ver galeria

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Agência “Xinhua” em vantagem na ‘inteligência artificial’ Ver galeria

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Agora anunciou um update ao Media Brain, que vai usar MGC – machine generated content  para uma produção noticiosa de alta velocidade, que pode criar um vídeo de modo automático em cerca de dez segundos. O presidente da Xinhua, Cai Mingzaho, disse que a agência usará a IA para criar uma “informação individualizada e personalizada” que pode tomar muitas formas, desde portais noticiosos personalizados até títulos e artigos ajustados para leitores individuais  -  “e, provavelmente, para propaganda”. A informação é de um artigo de Kelsey Ables, assistente editorial na Columbia Journalism Review.
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