Quarta-feira, 20 de Fevereiro, 2019
Colectânea

As notícias falsas são um problema da sociedade que as aceita

As notícias são inventadas, difundidas e defendidas e, quando se demonstra que são falsas, descartam-se com um encolher de ombros. Não há notícias falsas, o que há são utentes indiferentes ou, pior do que isso, cúmplices. O problema não é que as notícias não sejam autênticas, mas sim que os seus receptores não se importem nada com isso, desde que confirmem o seu ponto de vista ou sirvam para atacar os adversários. E os leitores dos sites de fake news não são estúpidos, nem consumidores de mercadoria avariada. Eles escolhem e decidem, aceitam ou rejeitam conforme crêem ou não. O problema é que esse critério de aceitação é diferente do que pensamos que devia ser. É deste modo que José Cervera, jornalista e docente da Universidade Rey Juan Carlos, nos introduz ao actual debate sobre as fake news.

O autor recorda que nós humanos, procedemos de uma estirpe zoológica que aperfeiçoou o tratamento de “dados”  - informação proveniente do seu meio ambiente: 

“Não é a única razão pela qual nos vemos a nós próprios como racionais, equânimes e analíticos; as paixões e os sentimentos têm má fama quando se trata de tomar decisões. Distinguimos entre ‘saber’ e ‘sentir’, considerando que é melhor quando o que se percebe está apoiado por dados e não apenas pela sensação íntima.” (...) 

Jose Cervera descreve como, na história da evolução, os nossos mais próximos “parentes” desenvolveram “sistemas de vocalização para manter a coesão do grupo”. Já não se tratava de “comunicar informação sobre o meio ambiente”, mas sim confirmar constantemente a cada membro do grupo que estava rodeado de iguais “e, portanto, relativamente seguro”. (...) 

O que se passa mais recentemente, segundo o autor, é que se exacerbaram as tendências que desvalorizam a importância da verdade: 

“Os políticos sempre mentiram, enaltecendo os seus triunfos e escondendo as derrotas; mas agora fazem-no mais e de modo mais flagrante. Os advogados sempre procuraram ‘esticar’ os limites da lei, incluindo as palavras, mas agora é mais evidente. Os comerciantessempre exageraram a qualidade dos seus produtos e esconderam os seus defeitos, mas agora é mais fácil detectar o engano. Os media e a Imprensa sempre foram parciais [han barrido cada uno para su casa, no original], mas ultimamente de modo mais visível. Tudo isto foi retirando poder à ideia de veracidade e até de um pensamento baseado em dados...” (...) 

“Se a dimensão puramente funcional da comunicação tem cada vez menos valor, a da coesão do grupo é cada vez mais importante. Numa sociedade em fragmentação, onde está em discussão a própria ideia da verdade, a pertença a um grupo é cada vez mais imperiosa. (...) Já não importa que as notícias sejam verdade ou mentira, o que importa é que o seu uso sirva para reforçar o grupo interno e atacar o exterior.” (...) 

“O problema, portanto, não é que as notícias sejam falsas; sempre as houve. O problema é que preferimos acreditar nelas mesmo que o sejam, porque o facto da sua falsidade é irrelevante para o seu verdadeiro valor. Empenharmo-nos em denunciar as fontes contaminadas não servirá de nada enquanto milhões queiram beber voluntariamente dessas águas.” (...) 

“É muito mais complicado: para resolver as notícias falsas, é preciso voltar a tornar importante a verdade. Tem que importar que algo seja real ou não seja; o acto de mentir deve ter consequências, e deve ser inaceitável ofuscar, confundir, encerar e enlamear. Toda a sociedade deve voltar a considerar que a razão, os factos e a verdade importam, desde os jornalistas nos seus meios de comunicação até aos publicitários nos seus anúncios, desde os políticos nos seus discursos até aos médicos nas suas receitas, desde os empresários até aos sindicalistas nas suas lutas.” 

“Mais meios não vão resolver isto, como não vai resolver mais fact-checking ou (ainda menos) qualquer lei. Porque as notícias falsas e as bolhas mentais das pessoas que preferem acreditar nelas não são problemas do jornalismo, mas sim da sociedade. E tais problemas nunca tiveram soluções fáceis.” 

 

O texto na íntegra, na edição nº 35 de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria

Connosco
Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

Como evitar que o jornalismo arda em "lume brando"... Ver galeria

“Precisamos de tempo para reinventar o jornalismo, porque haverá muitas novas formas de cumprir a nossa missão.”

“O resultado final pode ser uma empresa de menor dimensão do que era habitual, isenta de requisitos ridículos para manter altos níveis de receita e de escala.”  E, à semelhança de outros sectores na economia da era digital, será mais uma empresa de serviços do que uma fábrica de produtos.

A reflexão, aqui citada de Media-tics, é do jornalista norte-americano Jeff Jarvis, docente e director do Tow-Knight Center de Jornalismo, expressa num longo artigo publicado no site Medium.com.

O seu propósito é tão só o de explicar o que faria para tentar salvar um jornal, se tivesse tal responsabilidade. Mas o caminho que faz leva-o a corrigir-se a si próprio, admitindo que não subscreve hoje algumas coisas que disse no seu livro Geeks bearing gifts, de 2015.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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