Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Media

Decálogo com os desafios da comunicação na era digital

A era digital trouxe toda uma série de grandes desafios aos media tradicionais, e não só isso: trouxe também uma quantidade de novos actores intervenientes. Empresas, instituições, grupos, famílias ou indivíduos, todos passam a ser media por si mesmos; tornam-se também “fontes” para os media já existentes e, em muitos casos, emitem opinião crítica sobre a cobertura feita por eles ou apresentam a sua própria cobertura alternativa. Finalmente, é o utente que se torna o eixo do processo de comunicação, é o conteúdo que se torna a identidade do meio, a nova linguagem é multimédia, a periodicidade dá lugar ao “tempo real”, o hipertexto é a nova “gramática” e o conhecimento o novo nome da Informação. É nestes termos que Jose Luis Orihuela, investigador e docente de comunicação, apresenta, em Media.com, os “Dez Novos Paradigmas” que nos confrontam na era digital.

Cada um destes paradigmas é definido por uma substituição, ou pelo movimento de um protagonista principal, na situação anterior, para o que passa a ocupar-lhe o lugar. 

Segue-se uma síntese desses dez paradigmas, que podem ser lidos na íntegra na versão em espanhol, ou em inglês, do trabalho deste autor. 

  1. Da audiência ao utente. A evolução das novas tecnologias foi feita no sentido de uma espécie de “afunilamento” do destinatário da comunicação: do broadcasting para o narrowcasting e, finalmente, até ao pointcasting. O objectivo final é satisfazer os interesses do consumidor individual.
  2. Dos media ao conteúdo. A partir de agora, é a autoridade do conteúdo distribuído que define a natureza do distribuidor. A National Geographic ou a CNN, por exemplo, são marcas que representam uma autoridade reconhecida sobre determinado tipo de conteúdo (a vida natural) ou competência na cobertura dos acontecimentos (jornalismo). A função dos media passa a ser a de venderem os conteúdos, não o suporte.
  3. Do suporte único à multimédia. Agora, e pela primeira vez na história, texto, áudio, vídeo, gráficos, fotos e animação podem coexistir e interagir no mesmo meio de comunicação. Os media digitais tornaram-se multimédia, e esta é uma nova linguagem. As distinções entre os media, definidas pelo uso de uma só linguagem, tendem a esbater-se.
  4. Da periodicidade ao “tempo real”. A frequência regular de publicação era o paradigma dos media convencionais: diários, semanários, mensais, ou com horários fixos de emissão na rádio e TV. Agora, a actualização tem de ser feita constantemente. Mas o que se ganhou em dinamismo e inter-comunicação perdeu-se em capacidade de reflexão.
  5. Da escassez à abundância. O espaço, para os media impressos, e o tempo, para os emissores, deixaram de ser limite ao conteúdo. Agora é o tempo do utente que se tornou escasso. Uma das consequências deste processo de “leitores tornarem-se escritores” é a proliferação de uma informação online sem uma clara atribuição de fontes autorizadas, com grande heterogeneidade da qualidade dos conteúdos. Navegamos no “caos da abundância”.
  6. Da mediação editorial à não-mediação. O paradigma do “porteiro” era usado para explicar a função dos editores e a teoria da agenda na definição dos temas do dia. A natureza descentralizada da Net aboliu a agenda tradicional. A publicação nas redes sociais é feita sem editores, mas sujeita a um processo constante de revisão e comentários pelos seus próprios pares. Há uma grande variedade de novas “fontes”, e muitas delas não são meios de comunicação convencionais.
  7. Da distribuição ao acesso. O paradigma da emissão unilateral de um para muitos foi substituído por ambos: o acesso de muitos a um, e a comunicação de muitos para muitos. Este paradigma do acesso é complementar ao da centralidade do utente e ambos explicam a forte inter-actividade do novo meio ambiente.
  8. Da direcção única à inter-actividade. Como os produtores e os utentes de conteúdos usam o mesmo canal para comunicar, estes podem estabelecer uma relação bilateral com os media e também uma relação multilateral com outros utentes. Por último, podem tornar-se também produtores de conteúdos. Lidar com esta inter-actividade, no contexto dos media com uma longa tradição de distribuição de conteúdo em direcção única, é um dos mais importantes desafios que os media convencionais têm de enfrentar.
  9. Do linear ao hiper-texto. A narrativa analógica tem uma construção linear, em que é o narrador que controla a estrutura e o ritmo. No digital, o narrador pode fragmentar o conteúdo em pequenas unidades com caminhos de acesso entre si (links). Finalmente, o controlo da narrativa passa do narrador para o leitor. O hiper-texto é a nova “gramática” do mundo digital.
  10. Da informação ao conhecimento. A enorme quantidade de dados disponíveis na era digital traz de volta o papel estratégico dos media como gestores sociais do conhecimento, mas partilhado com um número crescente de novos actores. Hoje, a missão estratégica dos media é a informação sobre a informação: compreensão, interpretação, filtragem e pesquisa, combinadas com o desafio de novas narrativas multimédia, fornecidas por uma quantidade de canais. Este cenário não deve ser entendido como apocalíptico, mas como oportunidade de redefinir os perfis, os desafios profissionais e a formação académica dos comunicadores  - bem como de repensar a natureza em mutação dos media e dos mediadores.

 

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...