Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Estudo

Os Media nos EUA impreparados para a desinformação “online”

Enquanto as organizações de “verificação de factos”, em todo o mundo, estão a abordar a desinformação online de modos inovativos, as redacções, nos Estados Unidos, estão a ficar para trás, continuando a usar as redes sociais como faziam em 2008. Um relatório recente do American Press Institute, baseado num estudo de 59 redacções, verificou que a maior parte continua a usar as redes sociais  - principalmente Facebook e Twitter -  apenas para distribuir links para os seus próprios conteúdos. As grandes questões trazidas por essas redes ao jornalismo são a proliferação da desinformação e das fake news mas, nas redacções, as equipas que se ocupam delas, e “que se encontram na linha da frente em ambas as coisas, estão na maioria a fazer o que faziam há uma década”.

A autora do citado relatório, Jane Elisabeth, disse, em declarações ao Poynter Institute  - que aqui citamos -, que tinha falado com mais de cem jornalistas e visitado várias redacções, ficando surpreendida pelo facto de as redes sociais estarem a ser tratadas apenas como “uma nova peça digital que supostamente já teria entrado na cultura da redacção; mas não entrou.” (...)

“E com campanhas nos Estados Unidos, a preparar-se para eleições em 2018 e 2020, as redacções têm de mudar agora para serem capazer de lidar com o massacre de desinformação online que aí vem”  -  segundo o relatório. 

Para melhorar a estratégia das redacções neste combate às notícias falsas e ao declínio da confiança por parte dos leitores, o relatório recomenda uma abordagem em três pontos:

  1. – Encontrar e combater a desinformação, como jornalistas nas linhas da frente das fake news.
  2. – Envolver as audiências no objectivo de aumentar a confiança numa reportagem profissional.
  3. – Participar como parceiros de corpo inteiro nos esforços de verificação do desempenho da redacção.

 

“Seja qual for a sugestão que se faça agora a uma redacção, a resposta é sempre: ‘não temos pessoas suficientes para fazer isso’ – diz Jane Elisabeth.” 

Mas “é preciso verificar bem o que se está a fazer e decidir entre aquilo que não precisa de ser feito e aquilo que se pode fazer de modo mais eficiente. Torná-lo parte do processo. Eu penso realmente que, mesmo que só se possa ter uma pessoa encarregue das redes sociais a tempo inteiro, já vai ser benéfico.” 

 

O texto citado, de Daniel Funke, no Poynter Institute, cuja imagem, do American Press Institute, aqui incluímos

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
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