Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Estudo

O que vai mudar no jornalismo em função das redes sociais

2018 vai ser “um ano crítico para a relação entre os publishers e as plataformas, à medida que empresas como a Google e o Facebook enfrentam uma maré crescente de críticas a respeito do seu impacto sobre a sociedade  - e sobre o jornalismo”. Por outro lado, o modelo de negócio dos meios de comunicação “está a mudar da publicidade para a assinatura e outras formas de pagamento pelos leitores”. Em 2018 vai haver muito mais atenção aos dados, porque as empresas dos media vão mudar os seus utentes da condição de “anónimos” para a de “conhecidos”, com o objectivo de “desenvolver relações de maior lealdade e preparar-se para uma era de serviços mais personalizados”. São estas as principais tendências e previsões descritas no relatório do Reuters Institute, agora publicado. 

Na introdução do texto  - que pode ser consultado livremente, em PDF -  são elencadas oito previsões específicas:

  1. – As investigações sobre desinformação e o papel desempenhado pelas plataformas vão intensificar-se, mas conduzir a pouca acção concreta em muitos países, para além de novas regras na publicidade de campanha eleitoral [election-based advertising, no original].
  2. – Facebook ou Google vão ser, este ano, regularmente acusados de censura, sempre que removam conteúdos como medida de protecção, por lhes parecer que ficam expostos a multas.
  3. – As iniciativas de fact-checking, literacia para as notícias e transparência, não conseguirão deter a vaga de desinformação e quebra de confiança.
  4. – Os publishers vão levar os utentes a identificar-se para acesso aos websites e aplicações  - bem como investir pesadamente nos dados -  para ajudar a fornecer conteúdos mais personalizados.
  5. – Entre os media tradicionais, vamos assistir ao crescimento do fosso entre as grandes marcas, bem sucedidas na transição digital, e o resto (que se debatem).
  6. – Mais publishers vão mudar para as assinaturas (ou outras formas de receita vinda dos leitores) à medida que a publicidade digital perde importância.
  7. – Um certo número de publishers vai abandonar o vídeo (… e voltar ao texto).
  8. – Nas redes sociais, vamos assistir a mais mudanças para as plataformas de mensagens e interfaces de conversação.

Concretamente na tecnologia, são apresentadas cinco:

  1. – Os assistentes de voz emergem como o próximo grande elemento de transformação, com a Amazon reforçando a sua presença nas habitações.
  2. – Os telemóveis com funções de Realidade Aumentada vão começar a abrir as possibilidades de narrativa imersiva e em 3D.
  3. – Este ano vamos “teclar” menos nos nossos telemóveis, à medida que cresce a importância da busca visual.
  4. – Os novos utensílios “inteligentes” vão chegar aos “fones” auditivos com capacidade de tradução instantânea e óculos que falam (e ouvem).
  5. – A China e a Índia vão tornar-se grandes focos de crescimento digital, com inovações na área do pagamento, identidade online e inteligência artificial.

Chegado às conclusões, o Relatório anuncia “um futuro incerto”:  

“Não parece que a revolução tecnológica esteja a abrandar. Parece antes que estamos a começar uma nova fase de ruptura. A era da inteligência artificial vai trazer novas oportunidades para a criatividade e para a eficiência  - mas também para maior desinformação e manipulação.”  

“Nos anos que aí vêm, já não estaremos só a perguntar o que é verdade, mas se a informação ainda está a ser gerada por seres humanos. Os bots e outros agentes ‘inteligentes’ vão desempenhar um papel crescente nas nossas vidas. Haverá notícias escritas por máquinas, programas de televisão serão compostos e escolhidos com base nos nossos gostos pessoais, os carros vão conduzir-se a si próprios. Vamos apreciar a comodidade e a escolha, mas vamos também preocupar-nos sobre se podemos manter o controlo. Vamos preocupar-nos cada vez mais a respeito de quem programa os algoritmos.” (…) 

“Com a tecnologia e o seu impacto agora tornados globais, quem vai poder falar pelos cidadãos e fazer os necessários equilíbrios entre conveniência e privacidade, entre o discurso livre e o discurso de ódio?” (…) 

“No próximo ano vamos ver o aumento destas pressões e desconexões, à medida que as poderosas (principalmente americanas) empresas tecnológicas comerciais desempenham um papel cada vez maior nas nossas vidas e os governos procuram exercer alguma forma de controlo. Se as plataformas vão conseguir escapar à regulação, vai depender, em certa medida, dos acontecimentos e de saber se o público vai continuar a sentir-se feliz com os serviços que elas fornecem.” (…) 

 

O Relatório, na íntegra, no Reuters Institute

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...