Segunda-feira, 18 de Fevereiro, 2019
Estudo

O que vai mudar no jornalismo em função das redes sociais

2018 vai ser “um ano crítico para a relação entre os publishers e as plataformas, à medida que empresas como a Google e o Facebook enfrentam uma maré crescente de críticas a respeito do seu impacto sobre a sociedade  - e sobre o jornalismo”. Por outro lado, o modelo de negócio dos meios de comunicação “está a mudar da publicidade para a assinatura e outras formas de pagamento pelos leitores”. Em 2018 vai haver muito mais atenção aos dados, porque as empresas dos media vão mudar os seus utentes da condição de “anónimos” para a de “conhecidos”, com o objectivo de “desenvolver relações de maior lealdade e preparar-se para uma era de serviços mais personalizados”. São estas as principais tendências e previsões descritas no relatório do Reuters Institute, agora publicado. 

Na introdução do texto  - que pode ser consultado livremente, em PDF -  são elencadas oito previsões específicas:

  1. – As investigações sobre desinformação e o papel desempenhado pelas plataformas vão intensificar-se, mas conduzir a pouca acção concreta em muitos países, para além de novas regras na publicidade de campanha eleitoral [election-based advertising, no original].
  2. – Facebook ou Google vão ser, este ano, regularmente acusados de censura, sempre que removam conteúdos como medida de protecção, por lhes parecer que ficam expostos a multas.
  3. – As iniciativas de fact-checking, literacia para as notícias e transparência, não conseguirão deter a vaga de desinformação e quebra de confiança.
  4. – Os publishers vão levar os utentes a identificar-se para acesso aos websites e aplicações  - bem como investir pesadamente nos dados -  para ajudar a fornecer conteúdos mais personalizados.
  5. – Entre os media tradicionais, vamos assistir ao crescimento do fosso entre as grandes marcas, bem sucedidas na transição digital, e o resto (que se debatem).
  6. – Mais publishers vão mudar para as assinaturas (ou outras formas de receita vinda dos leitores) à medida que a publicidade digital perde importância.
  7. – Um certo número de publishers vai abandonar o vídeo (… e voltar ao texto).
  8. – Nas redes sociais, vamos assistir a mais mudanças para as plataformas de mensagens e interfaces de conversação.

Concretamente na tecnologia, são apresentadas cinco:

  1. – Os assistentes de voz emergem como o próximo grande elemento de transformação, com a Amazon reforçando a sua presença nas habitações.
  2. – Os telemóveis com funções de Realidade Aumentada vão começar a abrir as possibilidades de narrativa imersiva e em 3D.
  3. – Este ano vamos “teclar” menos nos nossos telemóveis, à medida que cresce a importância da busca visual.
  4. – Os novos utensílios “inteligentes” vão chegar aos “fones” auditivos com capacidade de tradução instantânea e óculos que falam (e ouvem).
  5. – A China e a Índia vão tornar-se grandes focos de crescimento digital, com inovações na área do pagamento, identidade online e inteligência artificial.

Chegado às conclusões, o Relatório anuncia “um futuro incerto”:  

“Não parece que a revolução tecnológica esteja a abrandar. Parece antes que estamos a começar uma nova fase de ruptura. A era da inteligência artificial vai trazer novas oportunidades para a criatividade e para a eficiência  - mas também para maior desinformação e manipulação.”  

“Nos anos que aí vêm, já não estaremos só a perguntar o que é verdade, mas se a informação ainda está a ser gerada por seres humanos. Os bots e outros agentes ‘inteligentes’ vão desempenhar um papel crescente nas nossas vidas. Haverá notícias escritas por máquinas, programas de televisão serão compostos e escolhidos com base nos nossos gostos pessoais, os carros vão conduzir-se a si próprios. Vamos apreciar a comodidade e a escolha, mas vamos também preocupar-nos sobre se podemos manter o controlo. Vamos preocupar-nos cada vez mais a respeito de quem programa os algoritmos.” (…) 

“Com a tecnologia e o seu impacto agora tornados globais, quem vai poder falar pelos cidadãos e fazer os necessários equilíbrios entre conveniência e privacidade, entre o discurso livre e o discurso de ódio?” (…) 

“No próximo ano vamos ver o aumento destas pressões e desconexões, à medida que as poderosas (principalmente americanas) empresas tecnológicas comerciais desempenham um papel cada vez maior nas nossas vidas e os governos procuram exercer alguma forma de controlo. Se as plataformas vão conseguir escapar à regulação, vai depender, em certa medida, dos acontecimentos e de saber se o público vai continuar a sentir-se feliz com os serviços que elas fornecem.” (…) 

 

O Relatório, na íntegra, no Reuters Institute

Connosco
Os "clicks" são um sismógrafo de pouca confiança... Ver galeria

Num ambiente mediático saturado de notícias, os leitores valorizam mais as que lhes são pessoalmente pertinentes  - e isto não pode ser definido, numa redacção, medindo os clicks.

“As pessoas abrem frequentemente artigos que são divertidos, ou triviais, ou estranhos, sem sentido cívico evidente. Mas mantêm uma noção clara da diferença entre o que é trivial e o que é importante. De modo geral, querem estar informadas sobre o que se passa à sua volta, a nível local, nacional e internacional.”

A reflexão é de Kim Christian Schroder, um investigador dinamarquês que passou metade do ano de 2018 em Oxford, fazendo para o Reuters Institute um estudo sobre a relevância das notícias para os leitores  - e o que isso aconselha às redacções.

“Na medida em que queiram dar prioridade às notícias com valor cívico, os jornalistas fazem melhor em confiar no seu instinto do que nesse sismógrafo de pouca confiança que são as listas dos textos ‘mais lidos’.”

Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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