Segunda-feira, 25 de Junho, 2018
Media

O lugar da ética jornalística numa era de incerteza e de abusos

Pode ser que os temas de debate interno, nos media, continuem este ano a ser os “tecnológicos”  - algoritmos, bots, inteligência artificial e jornalismo em dispositivos móveis -  mas a verdadeira grande questão é “de que modo lidamos com a ética jornalística numa era de constante expansão do poder dos computadores”: “Como podemos garantir que as normas das eleições são seguidas quando os eleitores são bombardeados e visados por partidos sem escrúpulos? E como podem as pessoas acreditar em qualquer coisa que se diga, quando as palavras, como as imagens, podem ser tão facilmente distorcidas na Rede?” A reflexão é do jornalista Aidan White, que foi, durante 24 anos, secretário-geral da Federação Internacional de Jornalistas, e fundou e dirige, desde então, a Ethical Journalism Network.

“A praga das fake news  - que foi a buzzword de 2017 – continua perturbadora, mas estão a acender-se fogueiras por baixo das plataformas tecnológicas como Google e o Facebook, por agentes políticos e consumidores zangados, e esta ameaça até pode diminuir nos próximos meses, dado que alguma investigação recente sugere que o problema foi exagerado e as pessoas nem sempre são tão estúpidas como julgamos.”  (...) 

Dito isto, Aidan White interroga-se sobre o verdadeiro impacto da inteligência artificial na profissão e, sobretudo, se as redacções estão dotadas de jornalistas com conhecimentos tecnológicos adequados à “cada vez mais complexa Rede das comunicações modernas”. (...) 

Conforme conta, o Facebook “passou uma grande parte do ano findo a ampliar o número das pessoas que emprega como moderadores de conteúdos em todo o mundo”, o que é “uma franca admissão de que os algoritmos, por si sós, não podem lidar com os desafios éticos do mau procedimento online”. 

Pelo final do ano, a empresa tinha mais de oito mil pessoas tentando cumprir “a tarefa impossível de monitorizar material potencialmente abusivo sendo carregado por alguns dos seus dois mil milhões de assinantes”. (...) 

“Cada vez mais os media reconhecem que para sobreviver no jornalismo de hoje as pessoas precisam de saber bem como navegar no meio da complexa linguagem e arquitectura das comunicações digitais. Os jornalistas precisam de ser melhor informados e tecnicamente competentes. O desenvolvimento de algoritmos, a ‘cartografia’ da paisagem digital e o seguimento das ‘pistas’ electrónicas são uma parte essencial da redacção nesta nova era do jornalismo.” (...) 

“As empresas tecnológicas mostram-se relutantes em regular-se a si próprias, e no entanto são frequentemente as organizações mais bem colocadas para compreender os potenciais perigos da tecnologia e fazer alguma coisa para os deter. Mas têm sido lentas a reagir à crítica crescente, e fica a questão de saber se estão à altura do desafio.” (...) 

“Entretanto, os jornalistas têm cada vez mais oportunidades de mostrar de que modo pode a tecnologia ser usada para contar histórias de formas mais pormenorizadas, rigorosas e éticas. Para fazer isso com eficácia é preciso melhorar as competências técnicas nas redacções. Acaba de ser publicado um guia proveitoso, com indicações úteis para começar.” 

Este guia, de acesso livre, pode ajudar os jornalistas e investigadores a investigarem informação online errónea e falsa. Descreve como descobrir os trolls; como compreender melhor de que modo as notícias ‘virais’ ou falsas circulam na Rede; e como seguir a pista do dinheiro que sustenta a exploração comercial do conteúdo abusivo.” (...) 

“Não devemos sentir-nos intimidados pela ameaça das fake news, ou da ganância e baixo desempenho dos gigantes da tecnologia. A robótica e os computadores têm o seu lugar, mas é o poder do jornalismo feito com ética, e dirigido pela humanidade, os seus valores e emoções, que ainda é mais importante.”

 

O texto de Aidan White, na íntegra, na Ethical Journalism Network

Connosco
Historiadora Bettany Hughes distinguida com Prémio Europeu Helena Vaz da Silva 2018 Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hughes, também editora e apresentadora de programas de televisão e rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018, segundo foi anunciado pelo respectivo júri. A escolha “tem por objectivo homenagear a personalidade excepcional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante”, tendo ainda em conta a necessidade “vital de construir uma visão da nossa identidade multifacetada”, numa era de nacionalismos e populismos, como se lê na declaração agora divulgada. A cerimónia de entrega do Prémio realiza-se no dia 15 de Novembro deste ano na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Agência “Xinhua” em vantagem na ‘inteligência artificial’ Ver galeria

No início do ano, a Xinhua, maior agência noticiosa estatal da China, divulgou o desenvolvimento de aplicação da ‘inteligência artificial’ para construir “um novo tipo de redacção, baseada na tecnologia de informação e utilizando colaboração entre o homem e a máquina”. Estava então a equipar-se com a plataforma Media Brain, que aplica a parafernália corrente designada por IA (inteligência artificial), Internet das coisas, big data e cloud computing a todas as fases da produção de notícias, desde a criação dos leads à agregação, edição, distribuição e análise de feedback.

Agora anunciou um update ao Media Brain, que vai usar MGC – machine generated content  para uma produção noticiosa de alta velocidade, que pode criar um vídeo de modo automático em cerca de dez segundos. O presidente da Xinhua, Cai Mingzaho, disse que a agência usará a IA para criar uma “informação individualizada e personalizada” que pode tomar muitas formas, desde portais noticiosos personalizados até títulos e artigos ajustados para leitores individuais  -  “e, provavelmente, para propaganda”. A informação é de um artigo de Kelsey Ables, assistente editorial na Columbia Journalism Review.
O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

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Opinião
Ao ler no centenário “Diário de Noticias” a noticia da extinção formal da sua edição em papel, de Segunda–Feira a Sábado , a partir de Julho, fica a saber-se que o seu actual director, o  jornalista Ferreira Fernandes, entrou em “oito cafés(…) a caminho do cinema S. Jorge onde decorreu a apresentação do novo jornal” e só “contou três pessoas a ler o jornal em...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
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