Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Media

O lugar da ética jornalística numa era de incerteza e de abusos

Pode ser que os temas de debate interno, nos media, continuem este ano a ser os “tecnológicos”  - algoritmos, bots, inteligência artificial e jornalismo em dispositivos móveis -  mas a verdadeira grande questão é “de que modo lidamos com a ética jornalística numa era de constante expansão do poder dos computadores”: “Como podemos garantir que as normas das eleições são seguidas quando os eleitores são bombardeados e visados por partidos sem escrúpulos? E como podem as pessoas acreditar em qualquer coisa que se diga, quando as palavras, como as imagens, podem ser tão facilmente distorcidas na Rede?” A reflexão é do jornalista Aidan White, que foi, durante 24 anos, secretário-geral da Federação Internacional de Jornalistas, e fundou e dirige, desde então, a Ethical Journalism Network.

“A praga das fake news  - que foi a buzzword de 2017 – continua perturbadora, mas estão a acender-se fogueiras por baixo das plataformas tecnológicas como Google e o Facebook, por agentes políticos e consumidores zangados, e esta ameaça até pode diminuir nos próximos meses, dado que alguma investigação recente sugere que o problema foi exagerado e as pessoas nem sempre são tão estúpidas como julgamos.”  (...) 

Dito isto, Aidan White interroga-se sobre o verdadeiro impacto da inteligência artificial na profissão e, sobretudo, se as redacções estão dotadas de jornalistas com conhecimentos tecnológicos adequados à “cada vez mais complexa Rede das comunicações modernas”. (...) 

Conforme conta, o Facebook “passou uma grande parte do ano findo a ampliar o número das pessoas que emprega como moderadores de conteúdos em todo o mundo”, o que é “uma franca admissão de que os algoritmos, por si sós, não podem lidar com os desafios éticos do mau procedimento online”. 

Pelo final do ano, a empresa tinha mais de oito mil pessoas tentando cumprir “a tarefa impossível de monitorizar material potencialmente abusivo sendo carregado por alguns dos seus dois mil milhões de assinantes”. (...) 

“Cada vez mais os media reconhecem que para sobreviver no jornalismo de hoje as pessoas precisam de saber bem como navegar no meio da complexa linguagem e arquitectura das comunicações digitais. Os jornalistas precisam de ser melhor informados e tecnicamente competentes. O desenvolvimento de algoritmos, a ‘cartografia’ da paisagem digital e o seguimento das ‘pistas’ electrónicas são uma parte essencial da redacção nesta nova era do jornalismo.” (...) 

“As empresas tecnológicas mostram-se relutantes em regular-se a si próprias, e no entanto são frequentemente as organizações mais bem colocadas para compreender os potenciais perigos da tecnologia e fazer alguma coisa para os deter. Mas têm sido lentas a reagir à crítica crescente, e fica a questão de saber se estão à altura do desafio.” (...) 

“Entretanto, os jornalistas têm cada vez mais oportunidades de mostrar de que modo pode a tecnologia ser usada para contar histórias de formas mais pormenorizadas, rigorosas e éticas. Para fazer isso com eficácia é preciso melhorar as competências técnicas nas redacções. Acaba de ser publicado um guia proveitoso, com indicações úteis para começar.” 

Este guia, de acesso livre, pode ajudar os jornalistas e investigadores a investigarem informação online errónea e falsa. Descreve como descobrir os trolls; como compreender melhor de que modo as notícias ‘virais’ ou falsas circulam na Rede; e como seguir a pista do dinheiro que sustenta a exploração comercial do conteúdo abusivo.” (...) 

“Não devemos sentir-nos intimidados pela ameaça das fake news, ou da ganância e baixo desempenho dos gigantes da tecnologia. A robótica e os computadores têm o seu lugar, mas é o poder do jornalismo feito com ética, e dirigido pela humanidade, os seus valores e emoções, que ainda é mais importante.”

 

O texto de Aidan White, na íntegra, na Ethical Journalism Network

Connosco
Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
Em 2021, quando terminar o mandato do próximo Conselho de Administração da RTP, como vai ser a televisão? Tudo indica que os canais generalistas continuarão a perder espectadores e que o tempo consagrado por cada pessoa a ver estações de televisão tradicionais continuará a diminuir. Em contrapartida, o visionamento em streaming, da Netflix, Amazon ou de outras plataformas que surjam entretanto continuará a crescer. Há...
O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
O novo livro do jornalista americano Howard Kurtz, “Media Madness: Donald Trump, the Press, and the War Over the Truth”, lançado pela editora Regnery em 29 de Janeiro - por coincidência intencional ou não, na véspera do primeiro discurso “State of the Union” de  Trump perante o Congresso, marcado para o dia seguinte - é um marco oportuno e de leitura imprescindível para quem acompanhe, por interesse profissional ou...
“The Post”, o filme de Spielberg sobre a divulgação, em 1971, de documentos confidenciais do Pentágono sobre a guerra do Vietname levou-me a recordar que, nessa altura, como jovem jornalista do “Diário Popular”, sugeri que o jornal publicasse parte dessas revelações. A sugestão foi aceite e, por isso, traduzi e talvez tenha resumido (não me lembro bem) alguns dos artigos que o “Washington Post”...
Os últimos dados auditados pela APCT, no ano findo, estão longe de serem tranquilizadores sobre a boa saúde da Imprensa escrita.  De um modo geral,  os generalistas  continuam  a perder vendas em banca e os raros que escapam a essa erosão fatal não exibem subidas convincentes. Um dos recuos mais evidentes é o do centenário “Diário de  Noticias”,  que já deslizou para uma fasquia...