Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Media

O lugar da ética jornalística numa era de incerteza e de abusos

Pode ser que os temas de debate interno, nos media, continuem este ano a ser os “tecnológicos”  - algoritmos, bots, inteligência artificial e jornalismo em dispositivos móveis -  mas a verdadeira grande questão é “de que modo lidamos com a ética jornalística numa era de constante expansão do poder dos computadores”: “Como podemos garantir que as normas das eleições são seguidas quando os eleitores são bombardeados e visados por partidos sem escrúpulos? E como podem as pessoas acreditar em qualquer coisa que se diga, quando as palavras, como as imagens, podem ser tão facilmente distorcidas na Rede?” A reflexão é do jornalista Aidan White, que foi, durante 24 anos, secretário-geral da Federação Internacional de Jornalistas, e fundou e dirige, desde então, a Ethical Journalism Network.

“A praga das fake news  - que foi a buzzword de 2017 – continua perturbadora, mas estão a acender-se fogueiras por baixo das plataformas tecnológicas como Google e o Facebook, por agentes políticos e consumidores zangados, e esta ameaça até pode diminuir nos próximos meses, dado que alguma investigação recente sugere que o problema foi exagerado e as pessoas nem sempre são tão estúpidas como julgamos.”  (...) 

Dito isto, Aidan White interroga-se sobre o verdadeiro impacto da inteligência artificial na profissão e, sobretudo, se as redacções estão dotadas de jornalistas com conhecimentos tecnológicos adequados à “cada vez mais complexa Rede das comunicações modernas”. (...) 

Conforme conta, o Facebook “passou uma grande parte do ano findo a ampliar o número das pessoas que emprega como moderadores de conteúdos em todo o mundo”, o que é “uma franca admissão de que os algoritmos, por si sós, não podem lidar com os desafios éticos do mau procedimento online”. 

Pelo final do ano, a empresa tinha mais de oito mil pessoas tentando cumprir “a tarefa impossível de monitorizar material potencialmente abusivo sendo carregado por alguns dos seus dois mil milhões de assinantes”. (...) 

“Cada vez mais os media reconhecem que para sobreviver no jornalismo de hoje as pessoas precisam de saber bem como navegar no meio da complexa linguagem e arquitectura das comunicações digitais. Os jornalistas precisam de ser melhor informados e tecnicamente competentes. O desenvolvimento de algoritmos, a ‘cartografia’ da paisagem digital e o seguimento das ‘pistas’ electrónicas são uma parte essencial da redacção nesta nova era do jornalismo.” (...) 

“As empresas tecnológicas mostram-se relutantes em regular-se a si próprias, e no entanto são frequentemente as organizações mais bem colocadas para compreender os potenciais perigos da tecnologia e fazer alguma coisa para os deter. Mas têm sido lentas a reagir à crítica crescente, e fica a questão de saber se estão à altura do desafio.” (...) 

“Entretanto, os jornalistas têm cada vez mais oportunidades de mostrar de que modo pode a tecnologia ser usada para contar histórias de formas mais pormenorizadas, rigorosas e éticas. Para fazer isso com eficácia é preciso melhorar as competências técnicas nas redacções. Acaba de ser publicado um guia proveitoso, com indicações úteis para começar.” 

Este guia, de acesso livre, pode ajudar os jornalistas e investigadores a investigarem informação online errónea e falsa. Descreve como descobrir os trolls; como compreender melhor de que modo as notícias ‘virais’ ou falsas circulam na Rede; e como seguir a pista do dinheiro que sustenta a exploração comercial do conteúdo abusivo.” (...) 

“Não devemos sentir-nos intimidados pela ameaça das fake news, ou da ganância e baixo desempenho dos gigantes da tecnologia. A robótica e os computadores têm o seu lugar, mas é o poder do jornalismo feito com ética, e dirigido pela humanidade, os seus valores e emoções, que ainda é mais importante.”

 

O texto de Aidan White, na íntegra, na Ethical Journalism Network

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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