Sexta-feira, 23 de Fevereiro, 2018
Media

Charlie Hebdo: o testemunho dos sobreviventes

Três anos depois do atentado, feitas mais uma vez as homenagens oficiais, os sobreviventes dão testemunho de como é continuar um jornal que foi um dia condenado à morte. Falam de resistência, mas também de frustração, porque há slogans que se gastam ou acabam deturpados - incluindo o “Je suis Charlie”. Mas, como afirma o jornalista Fabrice Nicolino, “há uma responsabilidade moral e política em continuar este jornal”.

Este terceiro aniversário foi oportunidade para um novo balanço do que aconteceu, das suas consequências e das suas lições. O jornalista Philippe Lançon, gravemente ferido em 2015, lamenta hoje que “Je suis Charlie” tenha tão depressa “deixado de me convencer”. 

No início  - como afirma no Libération -  “era um grito humanista, de espanto e de melancolia; dizia-me que eu vivia num país onde milhões de indivíduos, fossem quem fossem ou pensassem, se erguiam espontaneamente para dizer que não queriam habitar num mundo em que se massacram caricaturistas cujo trabalho é fazer rir”. (...) Era como dizer: “Eu não leio necessariamente o Charlie, não gosto necessariamente do Charlie, mas recuso que se matem os que o fazem.” (...) 

“Muito depressa o individualismo publicitário do slogan se diluiu nas diversas e inevitáveis traduções políticas de que foi objecto. (...) ‘Je suis Charlie’ tornou-se a etiqueta mágica que se fazia dançar ao gosto dos seus interesses, das suas lutas e dos seus preconceitos; de modo claro: uma imposição.” 

“Esta imposição, que degradava, como sempre, o impulso original, variava segundo os utilizadores do slogan. Ela visava reunir, tanto como excluir, ou reagrupar excluindo, como é próprio da ideologia. Quem diz imposição, diz reacção: ao fechar-se, ‘Je suis Charlie’ provocou os ‘Eu não sou Charlie’, ou os ‘Eu sou isto’, ‘Eu sou aquilo’, contra Charlie, igualmente fechado. Desde que um slogan apareça como arma de um poder, todos os que se sentem, com razão ou sem ela, apontados por esse slogan, por esse poder, sentem um prazer nervoso em se oporem a ele.” (...) 

Por seu lado, em France Info, Fabrice Nicolino conta que por vezes se ri de ameaças que tanto ele como os seus colegas consideram “totalmente delirantes”, mas que há sempre quem lhes lembre que “por detrás delas há pessoas muito sérias e que são capazes de passar ao acto. (...) Podemos sempre ser atacados por esses cretinos.” (...) 

A vida quotidiana está cheia de “terríveis medidas de protecção”, “carros pesadamente blindados”, “muitos polícias”. O semanário continua em “estado de sítio” em Janeiro de 2018, o que causa um ambiente “fatalmente ansiogénico”, mesmo não sendo “sinistro”. Foi criada uma panic room, um “sítio ultra-securizado onde é suposto precipitarem-se todos em caso de alerta”.

No número especial de 3 de Janeiro, o caricaturista Riss, actual chefe de redacção do Carlie Hebdo, deplora o custo muito pesado da protecção da sede, “entre um a cerca de um milhão e meio de euros por ano, inteiramente a cargo do jornal”  - o que equivale a perto de 800 mil exemplares... 

 

Mais informação em Le Monde

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Joana Marques Vidal em Março no novo ciclo de jantares-debate Ver galeria

Magistrada do Ministério Público de carreira desde 1979, Joana Marques Vidal é a próxima oradora-convidada, a 14 de Março,   no ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”, promovido pelo Clube Português de Imprensa em parceria com o CNC - Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Nomeada Procuradora- Geral da República, em Outubro de 2012  pelo então Presidente Aníbal Cavaco Silva, Joana Marques Vidal foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal em 180 anos de magistratura do Ministério Público. O seu mandato, que ficará certamente na história, termina em Outubro, sendo ainda uma incógnita se será ou não reconduzida.   

Com uma personalidade reservada, e intervenções públicas muito espaçadas,  a sua presença neste ciclo representará decerto um importante contributo para o debate em curso sobre a Justiça.

  

 

 

Utilização de "drones" por jornalistas com "regime específico" Ver galeria

A Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgou o parecer que lhe fora pedido pelo secretário de Estado das Infraestruturas sobre o novo regime jurídico para a utilização de aeronaves de controlo remoto (drones), recomendando uma reformulação do projecto de decreto-lei já elaborado. No âmbito da sua competência específica, esta Comissão adverte que o novo regime não pode limitar-se a acautelar a segurança e a responsabilidade civil, “deixando de fora” a tutela da privacidade. É também recomendada a criação de um “regime específico” para a captação por jornalistas.

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Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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Opinião
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O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em...
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