Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Charlie Hebdo: o testemunho dos sobreviventes

Três anos depois do atentado, feitas mais uma vez as homenagens oficiais, os sobreviventes dão testemunho de como é continuar um jornal que foi um dia condenado à morte. Falam de resistência, mas também de frustração, porque há slogans que se gastam ou acabam deturpados - incluindo o “Je suis Charlie”. Mas, como afirma o jornalista Fabrice Nicolino, “há uma responsabilidade moral e política em continuar este jornal”.

Este terceiro aniversário foi oportunidade para um novo balanço do que aconteceu, das suas consequências e das suas lições. O jornalista Philippe Lançon, gravemente ferido em 2015, lamenta hoje que “Je suis Charlie” tenha tão depressa “deixado de me convencer”. 

No início  - como afirma no Libération -  “era um grito humanista, de espanto e de melancolia; dizia-me que eu vivia num país onde milhões de indivíduos, fossem quem fossem ou pensassem, se erguiam espontaneamente para dizer que não queriam habitar num mundo em que se massacram caricaturistas cujo trabalho é fazer rir”. (...) Era como dizer: “Eu não leio necessariamente o Charlie, não gosto necessariamente do Charlie, mas recuso que se matem os que o fazem.” (...) 

“Muito depressa o individualismo publicitário do slogan se diluiu nas diversas e inevitáveis traduções políticas de que foi objecto. (...) ‘Je suis Charlie’ tornou-se a etiqueta mágica que se fazia dançar ao gosto dos seus interesses, das suas lutas e dos seus preconceitos; de modo claro: uma imposição.” 

“Esta imposição, que degradava, como sempre, o impulso original, variava segundo os utilizadores do slogan. Ela visava reunir, tanto como excluir, ou reagrupar excluindo, como é próprio da ideologia. Quem diz imposição, diz reacção: ao fechar-se, ‘Je suis Charlie’ provocou os ‘Eu não sou Charlie’, ou os ‘Eu sou isto’, ‘Eu sou aquilo’, contra Charlie, igualmente fechado. Desde que um slogan apareça como arma de um poder, todos os que se sentem, com razão ou sem ela, apontados por esse slogan, por esse poder, sentem um prazer nervoso em se oporem a ele.” (...) 

Por seu lado, em France Info, Fabrice Nicolino conta que por vezes se ri de ameaças que tanto ele como os seus colegas consideram “totalmente delirantes”, mas que há sempre quem lhes lembre que “por detrás delas há pessoas muito sérias e que são capazes de passar ao acto. (...) Podemos sempre ser atacados por esses cretinos.” (...) 

A vida quotidiana está cheia de “terríveis medidas de protecção”, “carros pesadamente blindados”, “muitos polícias”. O semanário continua em “estado de sítio” em Janeiro de 2018, o que causa um ambiente “fatalmente ansiogénico”, mesmo não sendo “sinistro”. Foi criada uma panic room, um “sítio ultra-securizado onde é suposto precipitarem-se todos em caso de alerta”.

No número especial de 3 de Janeiro, o caricaturista Riss, actual chefe de redacção do Carlie Hebdo, deplora o custo muito pesado da protecção da sede, “entre um a cerca de um milhão e meio de euros por ano, inteiramente a cargo do jornal”  - o que equivale a perto de 800 mil exemplares... 

 

Mais informação em Le Monde

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Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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