Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Media

Charlie Hebdo: o testemunho dos sobreviventes

Três anos depois do atentado, feitas mais uma vez as homenagens oficiais, os sobreviventes dão testemunho de como é continuar um jornal que foi um dia condenado à morte. Falam de resistência, mas também de frustração, porque há slogans que se gastam ou acabam deturpados - incluindo o “Je suis Charlie”. Mas, como afirma o jornalista Fabrice Nicolino, “há uma responsabilidade moral e política em continuar este jornal”.

Este terceiro aniversário foi oportunidade para um novo balanço do que aconteceu, das suas consequências e das suas lições. O jornalista Philippe Lançon, gravemente ferido em 2015, lamenta hoje que “Je suis Charlie” tenha tão depressa “deixado de me convencer”. 

No início  - como afirma no Libération -  “era um grito humanista, de espanto e de melancolia; dizia-me que eu vivia num país onde milhões de indivíduos, fossem quem fossem ou pensassem, se erguiam espontaneamente para dizer que não queriam habitar num mundo em que se massacram caricaturistas cujo trabalho é fazer rir”. (...) Era como dizer: “Eu não leio necessariamente o Charlie, não gosto necessariamente do Charlie, mas recuso que se matem os que o fazem.” (...) 

“Muito depressa o individualismo publicitário do slogan se diluiu nas diversas e inevitáveis traduções políticas de que foi objecto. (...) ‘Je suis Charlie’ tornou-se a etiqueta mágica que se fazia dançar ao gosto dos seus interesses, das suas lutas e dos seus preconceitos; de modo claro: uma imposição.” 

“Esta imposição, que degradava, como sempre, o impulso original, variava segundo os utilizadores do slogan. Ela visava reunir, tanto como excluir, ou reagrupar excluindo, como é próprio da ideologia. Quem diz imposição, diz reacção: ao fechar-se, ‘Je suis Charlie’ provocou os ‘Eu não sou Charlie’, ou os ‘Eu sou isto’, ‘Eu sou aquilo’, contra Charlie, igualmente fechado. Desde que um slogan apareça como arma de um poder, todos os que se sentem, com razão ou sem ela, apontados por esse slogan, por esse poder, sentem um prazer nervoso em se oporem a ele.” (...) 

Por seu lado, em France Info, Fabrice Nicolino conta que por vezes se ri de ameaças que tanto ele como os seus colegas consideram “totalmente delirantes”, mas que há sempre quem lhes lembre que “por detrás delas há pessoas muito sérias e que são capazes de passar ao acto. (...) Podemos sempre ser atacados por esses cretinos.” (...) 

A vida quotidiana está cheia de “terríveis medidas de protecção”, “carros pesadamente blindados”, “muitos polícias”. O semanário continua em “estado de sítio” em Janeiro de 2018, o que causa um ambiente “fatalmente ansiogénico”, mesmo não sendo “sinistro”. Foi criada uma panic room, um “sítio ultra-securizado onde é suposto precipitarem-se todos em caso de alerta”.

No número especial de 3 de Janeiro, o caricaturista Riss, actual chefe de redacção do Carlie Hebdo, deplora o custo muito pesado da protecção da sede, “entre um a cerca de um milhão e meio de euros por ano, inteiramente a cargo do jornal”  - o que equivale a perto de 800 mil exemplares... 

 

Mais informação em Le Monde

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Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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