Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

Charlie Hebdo: o testemunho dos sobreviventes

Três anos depois do atentado, feitas mais uma vez as homenagens oficiais, os sobreviventes dão testemunho de como é continuar um jornal que foi um dia condenado à morte. Falam de resistência, mas também de frustração, porque há slogans que se gastam ou acabam deturpados - incluindo o “Je suis Charlie”. Mas, como afirma o jornalista Fabrice Nicolino, “há uma responsabilidade moral e política em continuar este jornal”.

Este terceiro aniversário foi oportunidade para um novo balanço do que aconteceu, das suas consequências e das suas lições. O jornalista Philippe Lançon, gravemente ferido em 2015, lamenta hoje que “Je suis Charlie” tenha tão depressa “deixado de me convencer”. 

No início  - como afirma no Libération -  “era um grito humanista, de espanto e de melancolia; dizia-me que eu vivia num país onde milhões de indivíduos, fossem quem fossem ou pensassem, se erguiam espontaneamente para dizer que não queriam habitar num mundo em que se massacram caricaturistas cujo trabalho é fazer rir”. (...) Era como dizer: “Eu não leio necessariamente o Charlie, não gosto necessariamente do Charlie, mas recuso que se matem os que o fazem.” (...) 

“Muito depressa o individualismo publicitário do slogan se diluiu nas diversas e inevitáveis traduções políticas de que foi objecto. (...) ‘Je suis Charlie’ tornou-se a etiqueta mágica que se fazia dançar ao gosto dos seus interesses, das suas lutas e dos seus preconceitos; de modo claro: uma imposição.” 

“Esta imposição, que degradava, como sempre, o impulso original, variava segundo os utilizadores do slogan. Ela visava reunir, tanto como excluir, ou reagrupar excluindo, como é próprio da ideologia. Quem diz imposição, diz reacção: ao fechar-se, ‘Je suis Charlie’ provocou os ‘Eu não sou Charlie’, ou os ‘Eu sou isto’, ‘Eu sou aquilo’, contra Charlie, igualmente fechado. Desde que um slogan apareça como arma de um poder, todos os que se sentem, com razão ou sem ela, apontados por esse slogan, por esse poder, sentem um prazer nervoso em se oporem a ele.” (...) 

Por seu lado, em France Info, Fabrice Nicolino conta que por vezes se ri de ameaças que tanto ele como os seus colegas consideram “totalmente delirantes”, mas que há sempre quem lhes lembre que “por detrás delas há pessoas muito sérias e que são capazes de passar ao acto. (...) Podemos sempre ser atacados por esses cretinos.” (...) 

A vida quotidiana está cheia de “terríveis medidas de protecção”, “carros pesadamente blindados”, “muitos polícias”. O semanário continua em “estado de sítio” em Janeiro de 2018, o que causa um ambiente “fatalmente ansiogénico”, mesmo não sendo “sinistro”. Foi criada uma panic room, um “sítio ultra-securizado onde é suposto precipitarem-se todos em caso de alerta”.

No número especial de 3 de Janeiro, o caricaturista Riss, actual chefe de redacção do Carlie Hebdo, deplora o custo muito pesado da protecção da sede, “entre um a cerca de um milhão e meio de euros por ano, inteiramente a cargo do jornal”  - o que equivale a perto de 800 mil exemplares... 

 

Mais informação em Le Monde

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O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

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“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

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