Sábado, 25 de Maio, 2019
Tecnologias

"Les Echos" na "Google Home" ou o jornal falado personalizado

“Les Echos” tornou-se um dos primeiros jornais franceses a lançar uma aplicação de voz, tendo escolhido a que é respondida pelo dispositivo Google Home. Esta primeira versão disponível fornece um resumo dos títulos de primeira página de temas económicos, que são a prioridade do editor, informações de última hora e outras surpresas que o utente vai descobrindo durante a “conversa”. Mas os assistentes pessoais com reconhecimento de voz e suporte de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais tarefas domésticas e a tornar-se indispensáveis uma vez adoptados. Estão a tornar-se “membros da família”. Os aparelhos que nos escutam já estão entre nós; porque os convidámos a entrar.

Segundo informação da própria Alphabet  - a empresa que detém a Google -  desde 19 de Outubro de 2017 tem estado a ser vendido um dispositivo Google Home por segundo, o que chega aos 6,8 milhões de unidades só no último trimestre do ano findo. 

Depois de uma “enchente” nos Estados Unidos, a vaga destes assistentes  - domésticos, pessoais ou inteligentes -  está agora a chegar às casas dos franceses. 

Conforme explica um texto em lesnumeriques.com, qual de nós não desejou ter um assistente virtual “que responde a todas as ordens, acendendo as luzes quando chegamos a casa, pondo a correr a nossa série favorita no televisor à hora de jantar e procurando resposta às perguntas que lhe fazemos, das mais úteis às mais fúteis?” Pois já existem, e estão a ser objecto de uma competição cerrada entre três empresas. 

Para usar uma imagem acessível, as colunas Amazon Echo, Google Home ou Apple HomePod são como os “corpos” que hospedam a inteligência artificial das “almas” correspondentes, que são Alexa, Google Assistant e Siri

“Quando se fala de inteligência artificial, trata-se de um programa que tem a tarefa pesada de compreender o seu utente e responder-lhe. Para este fim, ele utiliza uma tecnologia de interpretação da língua natural. O programa explora o contexto do pedido e analisa os hábitos dos utentes para lhes fornecer respostas e propostas adequadas.” (...) 

Benjamin Gautier, consultor de estratégia e gestão da Wavestone, recorda: 

“No início do smartphone, pensava-se que os assistentes de voz fariam sentido em situações de mobilidade. Mas rapidamente, por meio de estudos que fizémos, apercebemo-nos de que se usava menos um assistente vocal em público do que em privado, mesmo em situação de mobilidade. Se 36% dos casos de utilização do comando vocal se passam no carro, 43% são em casa, quando o utente está ocupado por uma [outra] tarefa. O espaço ocupado pela Amazon e a Google é esse: oferecer um assistente num local privado, onde a pessoa se sente em confiança.” (...) 

Da simples resposta a perguntas sobre o tempo que faz, ou à gestão de serviços como o Spotify, os primeiros assistentes passaram a poder gerir equipamentos conectados, que se tornaram controláveis pela voz. E as perspectivas vão desde acender e apagar as luzes à regulação do tesmostato ou à abertura e fecho dos estores. 

Benjamin Gautier acrescenta: “Do mesmo modo como os smartphones revolucionaram o mundo dos telemóveis, os assistentes domésticos vão abalar o da casa conectada.” (...) 

Este fenómeno avassala os lares americanos, com a Amazon liderando sem contestação, com 88% das unidades vendidas no mundo, muito à frente da Google. E como estes aparelhos se enriquecem [de funções] e se tornam cada vez mais eficazes, rápidos e fiáveis com o tempo, vão ser cada vez mais solicitados.” 

Annette Zimmerman, analista da Gartner, vai mais longe: 

“De agora até 2020, as pessoas vão chegar a ter mais interacção com um bot destes do que com os seus cônjuges. Os interfaces de comando vocal vão multiplicar-se nos próximos anos, porque nós vamos adoptar a pouco e pouco sistemas como o Echo ou o Google Home, mas também outros aparelhos com os quais vamos falar. Vai tornar-se cada vez mais fácil e prático.” 

E artigo de lesnumeriques.com, que aqui citamos: conclui: 

“É uma constatação que assusta um pouco... Apreciamos os assistentes, de acordo, mas talvez não tanto assim.” 

Sob o título revelador de “How smart speakers stole the show from smartphones”, também o diário britânico The Guardian acaba de publicar um relato actualizado sobre a história tão recente, e já tão acelerada, do aparecimento destes aparelhos de comando vocal. O texto descreve a competição entre as várias empresas já possuidoras do seu próprio dispositivo e as que querem entrar no mercado com produtos concorrentes. 

No fundo, o objectivo de todas é “trazerem os utentes para o seu ecossistema e garantirem que é com o seu assistente de voz que eles vão interagir”: 

“A voz é vista como o próximo grande paradigma da computação, o próximo passo depois do smartphone, que por sua vez destronou o computador de secretária.” (...) 

 

Mais informação em Media-tics,  lesnumeriques.com  e em The Guardian

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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