Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Tecnologias

"Les Echos" na "Google Home" ou o jornal falado personalizado

“Les Echos” tornou-se um dos primeiros jornais franceses a lançar uma aplicação de voz, tendo escolhido a que é respondida pelo dispositivo Google Home. Esta primeira versão disponível fornece um resumo dos títulos de primeira página de temas económicos, que são a prioridade do editor, informações de última hora e outras surpresas que o utente vai descobrindo durante a “conversa”. Mas os assistentes pessoais com reconhecimento de voz e suporte de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais tarefas domésticas e a tornar-se indispensáveis uma vez adoptados. Estão a tornar-se “membros da família”. Os aparelhos que nos escutam já estão entre nós; porque os convidámos a entrar.

Segundo informação da própria Alphabet  - a empresa que detém a Google -  desde 19 de Outubro de 2017 tem estado a ser vendido um dispositivo Google Home por segundo, o que chega aos 6,8 milhões de unidades só no último trimestre do ano findo. 

Depois de uma “enchente” nos Estados Unidos, a vaga destes assistentes  - domésticos, pessoais ou inteligentes -  está agora a chegar às casas dos franceses. 

Conforme explica um texto em lesnumeriques.com, qual de nós não desejou ter um assistente virtual “que responde a todas as ordens, acendendo as luzes quando chegamos a casa, pondo a correr a nossa série favorita no televisor à hora de jantar e procurando resposta às perguntas que lhe fazemos, das mais úteis às mais fúteis?” Pois já existem, e estão a ser objecto de uma competição cerrada entre três empresas. 

Para usar uma imagem acessível, as colunas Amazon Echo, Google Home ou Apple HomePod são como os “corpos” que hospedam a inteligência artificial das “almas” correspondentes, que são Alexa, Google Assistant e Siri

“Quando se fala de inteligência artificial, trata-se de um programa que tem a tarefa pesada de compreender o seu utente e responder-lhe. Para este fim, ele utiliza uma tecnologia de interpretação da língua natural. O programa explora o contexto do pedido e analisa os hábitos dos utentes para lhes fornecer respostas e propostas adequadas.” (...) 

Benjamin Gautier, consultor de estratégia e gestão da Wavestone, recorda: 

“No início do smartphone, pensava-se que os assistentes de voz fariam sentido em situações de mobilidade. Mas rapidamente, por meio de estudos que fizémos, apercebemo-nos de que se usava menos um assistente vocal em público do que em privado, mesmo em situação de mobilidade. Se 36% dos casos de utilização do comando vocal se passam no carro, 43% são em casa, quando o utente está ocupado por uma [outra] tarefa. O espaço ocupado pela Amazon e a Google é esse: oferecer um assistente num local privado, onde a pessoa se sente em confiança.” (...) 

Da simples resposta a perguntas sobre o tempo que faz, ou à gestão de serviços como o Spotify, os primeiros assistentes passaram a poder gerir equipamentos conectados, que se tornaram controláveis pela voz. E as perspectivas vão desde acender e apagar as luzes à regulação do tesmostato ou à abertura e fecho dos estores. 

Benjamin Gautier acrescenta: “Do mesmo modo como os smartphones revolucionaram o mundo dos telemóveis, os assistentes domésticos vão abalar o da casa conectada.” (...) 

Este fenómeno avassala os lares americanos, com a Amazon liderando sem contestação, com 88% das unidades vendidas no mundo, muito à frente da Google. E como estes aparelhos se enriquecem [de funções] e se tornam cada vez mais eficazes, rápidos e fiáveis com o tempo, vão ser cada vez mais solicitados.” 

Annette Zimmerman, analista da Gartner, vai mais longe: 

“De agora até 2020, as pessoas vão chegar a ter mais interacção com um bot destes do que com os seus cônjuges. Os interfaces de comando vocal vão multiplicar-se nos próximos anos, porque nós vamos adoptar a pouco e pouco sistemas como o Echo ou o Google Home, mas também outros aparelhos com os quais vamos falar. Vai tornar-se cada vez mais fácil e prático.” 

E artigo de lesnumeriques.com, que aqui citamos: conclui: 

“É uma constatação que assusta um pouco... Apreciamos os assistentes, de acordo, mas talvez não tanto assim.” 

Sob o título revelador de “How smart speakers stole the show from smartphones”, também o diário britânico The Guardian acaba de publicar um relato actualizado sobre a história tão recente, e já tão acelerada, do aparecimento destes aparelhos de comando vocal. O texto descreve a competição entre as várias empresas já possuidoras do seu próprio dispositivo e as que querem entrar no mercado com produtos concorrentes. 

No fundo, o objectivo de todas é “trazerem os utentes para o seu ecossistema e garantirem que é com o seu assistente de voz que eles vão interagir”: 

“A voz é vista como o próximo grande paradigma da computação, o próximo passo depois do smartphone, que por sua vez destronou o computador de secretária.” (...) 

 

Mais informação em Media-tics,  lesnumeriques.com  e em The Guardian

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

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Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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