Sábado, 20 de Outubro, 2018
Opinião

Jornalismo melhor ou pior em Portugal?

por Francisco Sarsfield Cabral

Esta interrogação vem a propósito de um recente artigo de João Miguel Tavares no Público, refutando afirmações de Pacheco Pereira no mesmo jornal sobre a qualidade do jornalismo no nosso país.

Pacheco Pereira sempre foi crítico dos jornalistas portugueses e dos seus métodos de trabalho. Há anos, quando era deputado do PSD, procurou isolar o mais possível, no Parlamento, os deputados dos jornalistas que ali trabalham. Felizmente (na minha opinião) não conseguiu concretizar esse isolamento. Mas P. Pereira não é contra o jornalismo em geral – por exemplo, tem valorizado, e bem, o papel dos jornalistas americanos na desmontagem das mentiras e fantasias de Trump.


Já J. M. Tavares veio chamar atenção para o papel da investigação jornalística nacional na descoberta recente de problemas que, de outra maneira, talvez permanecessem ignorados. É o caso, nomeadamente, da TVI (escândalos financeiros nas Raríssimas e alegadas adopções ilegais pela IURD) e da SIC (suspeita de resultados falseados, porque combinados, em jogos de futebol em Portugal).  E poderia também referir-se o papel que teve alguma Imprensa na revelação de aspectos chocantes da “Operação Marquês” (caso Sócrates).

Como jornalista, lamento as muitas deficiências do sector em Portugal. Mas conviria salientar dois pontos. Primeiro, houve um progresso considerável na qualidade jornalística desde o 25 de Abril. E não só porque desapareceu a censura – em Espanha, por exemplo, o regime de Franco limitava também a liberdade de expressão, mas os jornais espanhóis eram em geral muito superiores aos nossos.

Nessa altura, os jornais portugueses quase não tinham secções - exceptuando a secção desportiva e pouco mais. Vinha tudo misturado e os jornalistas tratavam dos mais variados assuntos, sem qualquer especialização (ainda que temporária). Assumiam, mesmo, que um jornalista seria por natureza, um “generalista”. Mais grave, na grande maioria dos casos não havia distinção entre textos jornalísticos e textos publicitários. Ora nada disto tinha a ver com a censura.

Não ponho em causa que a qualidade do nosso jornalismo tenha muitas falhas. Só que há um factor decisivo para essas quebras de qualidade: o aperto financeiro em que vive a quase totalidade dos meios de comunicação social portuguesa. E estrangeira também.


Creio que, hoje, o Washington Post já não disporia dos meios financeiros que permitiriam que dois jornalistas seus passassem meses num hotel, em 1974, a investigar discretamente o escândalo Watergate, com todo um conjunto de apoios materiais e humanos. Note-se que este jornal foi comprado pelo presidente da Amazon, Jeff Bezos. Não sei se este CEO de sucesso teria a coragem de Katherine Graham, a antiga proprietária do WP, de afrontar Nixon – mas, pelo menos, tem mantido a independência editorial do WP, o que não é coisa pequena.  

Muitos media portugueses, sobretudo da Imprensa escrita (onde são maiores os efeitos financeiros negativos da competição com a net e as redes sociais, registando-se a ocorrência simultânea de menores vendas e menos publicidade), trabalham com redacções esqueléticas – sendo que, além das edições em papel, têm de alimentar o respectivo “site”. Não há, assim, tempo disponível para investigações que levem tempo.

Daí que muitas “revelações” dos nossos órgãos de comunicação social se baseiem em documentos enviados por pessoas de empresas e organismos interessadas em colocar em causa determinadas entidades e/ou pessoas. Raramente haverá tempo para aprofundadas confirmações e análises.


Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Terminou o prazo de recepção dos trabalhos concorrentes ao  Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias.

Nesta segunda edição, o Prémio foi desdobrado em duas modalidades:  uma  aberta a textos originais, que passou a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia; e outra que manteve  o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.


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