Quinta-feira, 19 de Abril, 2018
Opinião

Jornalismo melhor ou pior em Portugal?

por Francisco Sarsfield Cabral

Esta interrogação vem a propósito de um recente artigo de João Miguel Tavares no Público, refutando afirmações de Pacheco Pereira no mesmo jornal sobre a qualidade do jornalismo no nosso país.

Pacheco Pereira sempre foi crítico dos jornalistas portugueses e dos seus métodos de trabalho. Há anos, quando era deputado do PSD, procurou isolar o mais possível, no Parlamento, os deputados dos jornalistas que ali trabalham. Felizmente (na minha opinião) não conseguiu concretizar esse isolamento. Mas P. Pereira não é contra o jornalismo em geral – por exemplo, tem valorizado, e bem, o papel dos jornalistas americanos na desmontagem das mentiras e fantasias de Trump.


Já J. M. Tavares veio chamar atenção para o papel da investigação jornalística nacional na descoberta recente de problemas que, de outra maneira, talvez permanecessem ignorados. É o caso, nomeadamente, da TVI (escândalos financeiros nas Raríssimas e alegadas adopções ilegais pela IURD) e da SIC (suspeita de resultados falseados, porque combinados, em jogos de futebol em Portugal).  E poderia também referir-se o papel que teve alguma Imprensa na revelação de aspectos chocantes da “Operação Marquês” (caso Sócrates).

Como jornalista, lamento as muitas deficiências do sector em Portugal. Mas conviria salientar dois pontos. Primeiro, houve um progresso considerável na qualidade jornalística desde o 25 de Abril. E não só porque desapareceu a censura – em Espanha, por exemplo, o regime de Franco limitava também a liberdade de expressão, mas os jornais espanhóis eram em geral muito superiores aos nossos.

Nessa altura, os jornais portugueses quase não tinham secções - exceptuando a secção desportiva e pouco mais. Vinha tudo misturado e os jornalistas tratavam dos mais variados assuntos, sem qualquer especialização (ainda que temporária). Assumiam, mesmo, que um jornalista seria por natureza, um “generalista”. Mais grave, na grande maioria dos casos não havia distinção entre textos jornalísticos e textos publicitários. Ora nada disto tinha a ver com a censura.

Não ponho em causa que a qualidade do nosso jornalismo tenha muitas falhas. Só que há um factor decisivo para essas quebras de qualidade: o aperto financeiro em que vive a quase totalidade dos meios de comunicação social portuguesa. E estrangeira também.


Creio que, hoje, o Washington Post já não disporia dos meios financeiros que permitiriam que dois jornalistas seus passassem meses num hotel, em 1974, a investigar discretamente o escândalo Watergate, com todo um conjunto de apoios materiais e humanos. Note-se que este jornal foi comprado pelo presidente da Amazon, Jeff Bezos. Não sei se este CEO de sucesso teria a coragem de Katherine Graham, a antiga proprietária do WP, de afrontar Nixon – mas, pelo menos, tem mantido a independência editorial do WP, o que não é coisa pequena.  

Muitos media portugueses, sobretudo da Imprensa escrita (onde são maiores os efeitos financeiros negativos da competição com a net e as redes sociais, registando-se a ocorrência simultânea de menores vendas e menos publicidade), trabalham com redacções esqueléticas – sendo que, além das edições em papel, têm de alimentar o respectivo “site”. Não há, assim, tempo disponível para investigações que levem tempo.

Daí que muitas “revelações” dos nossos órgãos de comunicação social se baseiem em documentos enviados por pessoas de empresas e organismos interessadas em colocar em causa determinadas entidades e/ou pessoas. Raramente haverá tempo para aprofundadas confirmações e análises.


Connosco
As “Histórias Proibidas” dos jornalistas assassinados voltam a ser lidas Ver galeria

Em Outubro de 2017, a jornalista Daphne Caruana Galizia, que investigava as ligações políticas perigosas da corrupção na ilha de Malta, foi morta num atentado à bomba. Hoje, uma equipa de 45 jornalistas, de 18 órgãos de comunicação de todo o mundo, está a trabalhar no Projecto Daphne, uma série de artigos que possam completar a sua investigação. Este projecto inscreve-se na missão de Forbidden Stories, cujo fundador, o realizador francês Laurent Richard, reafirmou em artigo recente em The Guardian: “Vocês mataram o mesageiro, mas não conseguirão matar a mensagem.”

Jornalismo de investigação é a melhor arma contra a propaganda Ver galeria

O combate à desinformação online tornou-se o tema incontornável de todos os encontros de jornalistas. Mas um dos painéis realizados na mais recente edição do Festival Internacional de Jornalismo, em Perugia, Itália, escutou intervenções que sugerem uma atitude menos confrontacional. A ideia é que resulta melhor investir num jornalismo de investigação no terreno, mesmo que tome mais tempo, do que tentar a batalha sempre perdida de aguentar o ritmo de produção das grandes máquinas de propaganda. Falaram neste sentido vozes experimentadas, de jornalistas como Galina Timchenko, russa, fundadora e directora do website Meduza, e Natalia Anteleva, georgiana, co-fundadora e editora de Coda Story.

O Clube


Este
site do Clube Português de Imprensa nasceu  em Novembro de 2015. Poderia ter sido lançado, como outros congéneres, apenas com o objectivo de ser um espaço informativo sobre as actividades prosseguidas pelo Clube e uma memória permanente do seu histórico  de quase meio século . Mas foi mais ambicioso.

Nestes dois anos decorridos quisemos ser, também, um espaço de reflexão sobre as questões mais prementes que se colocam hoje aos jornalistas e às empresas jornalísticas, perante a mudança de paradigma, com efeitos dramáticos em não poucos casos.

Os trabalhos inseridos e arquivados neste site constituem já um acervo invulgar , até pela estranha desatenção com que os media generalistas  seguem o fenómeno, que está a afectá-los gravemente e do qual  serão, afinal, as primeiras vítimas.

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