Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Os Media digitais vivem melhor com públicos restritos e fiéis

Esqueçam as contas grandes do total de pageviews por mês, ou de visitantes únicos por mês. Esses números são “enganadores e sem significado”. Só tinham algum no tempo em que o negócio dos media dependia de audiências maciças e de “produtos apontados às massas”  - por outras palavras, quando os meios noticiosos dependiam da publicidade. “Um pequeno número de utentes leais é muito mais importante na nova economia do jornalismo, que depende agora dos utentes, mais do que de anunciantes, para pagar as suas contas.” É esta a reflexão de James Breiner, primeiro publicada no seu blog News Entrepreneurs e agora reproduzida no International Journalists’ Network.

“O negócio dos media, hoje, trata da capacidade de tocar clientes potenciais com mensagens personalizadas e dirigidas a eles. Trata de identificar o reduzido número de pessoas que são realmente fãs da sua publicação, ou das estrelas na sua equipa. Trata de reforçar o apego emocional que as pessoas têm pela sua marca e missão.” 

O autor cita um artigo recente em The Economist para sublinhar a fraqueza dos grandes números num caso concreto, o da aliás bem sucedida campanha de The Washington Post para atingir o milhão de assinaturas pagas da sua edição digital. 

Este jornal verificou que os leitores mais susceptíveis de serem levados a fazer uma assinatura vinham ao site três vezes por mês. Mas quantos, dos cerca de 90 milhões de visitantes únicos, vinham com essa frequência? Apenas 15%, o que significa que os outros 85% chegam ao site “por uma referência pontual, ou talvez por acidente”. 

Agora dois exemplos dos pequenos números: 

“Os 22.000 ‘parceiros’ que pagam 60 euros por ano pela assinatura de eldiario.es, em Espanha, representam quase 40% da sua receita, mas menos do que um por cento do total dos seus utentes únicos.” 

“Os dois milhões e meio de assinantes da edição digital de The New York Times representam menos de três por cento do total dos seus utentes, mas estão agora a gerar mais receita do que a publicidade no papel, o que é um marco histórico.” 

E James Breiner afirma ainda: 

“Para as mais pequenas publicações digitais, o caminho para a sustentabilidade depende de conseguirem converter uma elevada percentagem da sua audiência numa comunidade de utentes leais, fãs, produtores de conteúdos e contribuintes, mais do que assinantes.” 

“A lógica do jornalismo como serviço público, mais do que como negócio, significa que os editores precisam de recrutar seguidores que acreditam na sua missão, mais do que assinantes que pagam apenas por um serviço. O apoio financeiro precisa de brotar de uma ligação emocional mais do que de uma mera transacção económica.” (...) 

 

O seu artigo, na íntegra, na IJNet. Mais informação sobre James Breiner. As contas de eldiario.es, agora com cinco anos de vida.

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital Ver galeria

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."
O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

ver mais >
Opinião
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
É inegável a importância da tomada de posição conjunta de 350 jornais americanos que, respondendo a um apelo do The Boston Globe, assinaram  editoriais simultâneos, rejeitando a política de hostilidade desencadeada pelo presidente Trump contra os media. A data de 16 de Agosto ficará para a História da Imprensa  americana ao assumir esta iniciativa solidária e absolutamente inédita, que mobilizou grandes...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...