Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Libertar o jornalismo em 2018 da “tirania da gritaria” nas redes sociais

“Aquilo que sobressai no histórico das nossas redes sociais faz o mundo parecer um lugar dividido onde as pessoas se limitam a  gritar com todas as forças  - ou para apontar o mal daqueles com quem não estão de acordo, ou para aplaudir as acções daqueles com quem se identificam.” Mas não tem de ser assim, nem essa imagem corresponde aos factos, segundo Lam Thuy Vo, repórter na BuzzFeed News. Na realidade, uma minoria do público utente das redes sociais intervém ao vivo, com reacções primárias e extremas  - mas são estas que se multiplicam exponencialmente. Os utentes que querem pensar sobre o assunto não escrevem imediatamente  - logo, não são contados. A sua proposta é que 2018 seja, para os jornalistas, o ano em que se libertem e nos libertem a todos da “tirania da gritaria”.

Lam Thuy Vo e a equipa com que trabalha gravaram dois vídeos de uma conferência de Imprensa de Donald Trump, um divulgado na página de Facebook da Fox News, o outro na da Fusion. A montagem dos dois sugere que o mundo é um lugar de apoiantes exclusivos de Trump ou de fervorosos críticos de Trump. 

No entanto, uma verificação dos números de visionamento revela que as reacções que aparecem flutuando nos ecrãs, durante estes live streams, representam apenas uma fracção (entre dois a três por cento) dos que estavam ligados. 

“Portanto, 97% escolheram não reagir. Talvez se tenham sentido em conflito a respeito do conteúdo que viram. Talvez não lhe tenham dado valor suficiente para reagirem. Talvez tenham desejado pensar muito sobre as implicações do anúncio do Presidente, antes de expressarem qualquer sentimento a esse respeito. Não sabemos o que podem ter sentido, porque isso é algo que não podemos medir dentro dos parâmetros estabelecidos por seis simples botões e uma caixa de comentário.” 

“O que está a ser medido é a chacota, a raiva, o aplauso e a tristeza dos que falam alto, dos que sentiram a necessidade urgente de tocar para entrar. A rede social está optimizada para captar o envolvimento sobretudo pelos extremos, naquilo que se pode medir pelos nossos clicks, arrebatamentos e reacções emotivas online. E é esse envolvimento que vai alimentar o algoritmo que decide que tipo de informação vamos ver nas nossas páginas de histórico, não a inacção  - pensativa ou indiferente -  daqueles que não sentiram nesse live stream nada suficientemente forte para levantarem a voz.” 

“Mais do que isso, na Internet, a visibilidade gera mais visibilidade. A popularidade de um artigo não vai crescendo com o tempo, explode exponencialmente. E, num ambiente de informação cada vez mais distribuída, os meios noticiosos são obrigados a competir com os que fazem mais barulho.” (...) 

A autora pergunta de que modo podem os jornalistas re-apresentar o público à nuance, fazer com que factos saudavelmente complexos possam competir com os vêm cobertos de uma “aprazível política de identidade”: 

“Como é que se pode conduzir uma revolta contra esses ruidosos tiranos? 2018 precisa de ser o ano em que os jornalistas descobrem como. (...) Seja qual for o modo correcto, os jornalistas vão precisar de recuperar o acesso à atenção do público sem transformarem os seus conteúdos em clickbaits. Seria bem trazer de volta um discurso calmo e sóbrio aos debates de informação pública.”

 

O texto citado, na íntegra, no NiemanLab

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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